sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Herberto Sales 6

[...] Fiquei a um canto, aturdido com o que se passava, e a espaços ia à janela, em busca de uma distração. Punha-me a ver, lá fora, as árvores, a rua, e mais além o farol, numa elevação, recortando contra o céu a grande torre erguida diante do mar. De repente, surgiu, de avental, Dr. Freire. Médico particular de meu tio, acompanhara todos os socorros que lhe foram prestados no hospital, depois do acidente. E tudo se precipitou. Todos correram atarantados para o quarto, ficando na sala, apenas, eu e tia Edite, e o Dr. Freire, que a amparava no ombro, a consolá-la, mas chorando tanto quanto ela. Trouxera ele a pior notícia que se poderia esperar: meu tio acabara de falecer. Transcorridos uns minutos angustiados, o grupo voltou a reunir-se na sala. E recordo-me que, na impressão daquela despedida fúnebre, todos sofriam, num pranto silencioso, a perda do grande amigo. Em meio à confusão reinante, sob os efeitos daquele golpe que se abatera sobre eles, retive a lembrança de João Félix, de pé, ao lado da janela, as costas voltadas para a sala, como fitando lá fora um ponto invisível, a levar de quando em quando o lenço aos olhos. Somente eu, muito menino ainda para me capacitar do horror daquele transe, somente eu, que nunca vira morrer ninguém, e nada sabia do significado da morte, somente eu não chorava. Dir-se-ia que eu apenas estranhasse o fato de uma pessoa poder deixar de viver. Mas as lágrimas que então me faltaram vêm-me agora, não aos olhos, mas ao coração, cristalizadas numa dor sincera, ao lembrar como tio Marcelino, entre as palmeiras que lhe alegraram tanto a vida, foi encontrar tão tragicamente a morte.

"Dados Biográficos do Finado Marcelino", Herberto Sales

(Herberto Sales nasceu no dia 21 de Setembro de 1917. Morreu em 1999.)

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