terça-feira, 31 de julho de 2018

Dom António, o outro 3

Foto Tarrenego!

D. António Rafael é quem agora carrega a cruz. Nascido no dia 11 de Novembro de 1925, em Paradinha, Moimenta da Beira, foi ordenado padre no dia 22 de Agosto de 1946, na Sé de Lamego, e nomeado bispo auxiliar de Bragança em 1976 e bispo de Bragança e Miranda em 1979. Rotulado como "o mais político dos bispos portugueses", chegou a pedir aos nossos emigrantes para não enviarem as suas poupanças para Portugal durante o Governo de Mário Soares, porque o dinheiro iria cair "num saco roto". Mas também elogiou o ex-primeiro-ministro socialista e ex-Presidente da República. D. António cultiva sobretudo as grandes tiradas.
Os bragançanos criticam-lhe particularmente o facto de utilizar nos seus sermões temas mais do foro político e sociológico do que propriamente da pastoral cristã, parecendo querer falar mais para o País no seu todo do que para o rebanho que lhe foi confiado, e dando a ideia de que está em missão, por assim dizer, de doutrinador a nível nacional. D. António considera o laicismo "a maior heresia dos nossos tempos", mas afirma, por outro lado, que "muitos comunistas são mais cristãos do que alguns beatos frequentadores de igreja". Apresenta-se como defensor "dos direitos dos homens e do ensino da coragem para trazer a fé à vida. Apesar de "estrangeiro", diz que quer "devolver Bragança aos bragançanos". Prega que "profissional cristão é o que nunca se engana, que não se vende nem se aluga, mas se dá permutando serviços e competência, o que nunca recebe mais do que trabalha, mas trabalha sempre um pouco mais do que recebe".
D. António Rafael, bispo de Bragança, gosta de dizer que sabe que inquieta. E presta-se prazenteiramente a enumerar a lista dos que tem (e o têm a ele) no ponto de mira: "Os comunistas, os capitalistas, os maçónicos, os sem ideologia, os particulares, os beatos". Pergunto-lhe, no fim do rol, quem sobrará consigo, que apoios lhe restarão. Responde-me com um encolher de ombros...

(Terceira parte de um trabalho que escrevi para a revista Sábado em Dezembro de 1991, na sequência de uma entrevista que fiz ao bispo de Bragança e Miranda, para o jornal O Primeiro de Janeiro, um ano antes. António José Rafael morreu no passado domingo, com 92 anos. Amanhã volto ao assunto.)

E os poetas a cantar são ecos da voz do mar

Foto Hernâni Von Doellinger

Augusto Gil 3

O passeio de Santo António

Saíra Santo António do convento,
A dar o seu passeio costumado
E a decorar, num tom rezado e lento.
Um cândido sermão sobre o pecado.

Andando, andando sempre, repetia
O divino sermão piedoso e brando,
E nem notou que a tarde esmorecia,
Que vinha a noite plácida baixando...

E andando, andando, viu-se num outeiro,
Com árvores e casas espalhadas,
Que ficava distante do mosteiro
Uma légua das fartas, bem puxadas.

Surpreendido por se ver tão longe,
E fraco por haver andado tanto,
Sentou-se a descansar o bom do monge,
Com a resignação de quem é santo...

O luar, um luar claríssimo nasceu.
Num raio dessa linda claridade
O Menino Jesus baixou do céu,
Pôs-se a brincar com o capuz do frade.

Perto, uma bica de água murmurante
Juntava o seu murmúrio ao dos pinhais...
Os rouxinóis ouviam-se distante.
O luar, mais alto, iluminava mais.

De braço dado, para a fonte, vinha
Um par de noivos todo satisfeito.
Ela trazia ao ombro a cantarinha,
Ele trazia... o coração no peito.

Sem suspeitarem que alguém os visse,
Trocaram beijos ao luar tranquilo.
O Menino, porém, ouviu e disse:
- Ó frei António, o que foi aquilo?...

O santo, erguendo a manga de burel
Para tapar o noivo e a namoradada,
Mentiu numa voz doce como o mel:
- Não sei o que fosse. Eu cá não ouvi nada...

Uma risada límpida, sonora,
Vibrou em notas de oiro no caminho.
- Ouviste, frei António? Ouviste agora?
- Ouvi, Senhor, ouvi. É um passarinho.

- Tu não está com a cabeça boa...
Um passarinho a cantar assim!...
E o pobre Santo António de Lisboa
Calou-se embaraçado, mas por fim,

Corado como as vestes dos cardeais,
Achou esta saída redentora:
- Se o Menino Jesus pergunta mais,
...Queixo-me à sua mãe, Nossa Senhora!

E voltando-lhe a carinha contra a luz
E contra aquele amor sem casamento,
Pegou-lhe ao colo e acrescentou: - Jesus,
São horas…
E abalaram prò convento.


Augusto Gil 

(Augusto Gil nasceu no dia 31 de Julho de 1873. Morreu em 1929.)

Aqui há gato 47

Foto Hernâni Von Doellinger

Camilo Lara 2

degredo

a duração do dia
se comprime entre os dedos

a noite chega
como um pedaço de gelo

Camilo Lara

(Camilo Lara nasceu no dia 31 de Julho de 1959. Morreu em 2016.)

Offshore, se fashavore 185

Foto Hernâni Von Doellinger

Álvaro Lapa 2

O deserto
O deserto sem nexo, inesperado, tal como surge metaforicamente sentido no imponderável percurso de além-tréguas. Sobrecadência de algum meio-dia já percorrido, já esgotado (em corridas, em percursos múltiplos), e aí se anuncia um excedente percurso a acometer e nesse percurso se revela o deserto. É a experiência pura da terra abrasada, desassombrada, enigmática de neutra. Estranha ao caminhante. Envolve a luz, a distância e a mortalidade consumada do caminhante. A finitude, e os vários amarelos dessas horas solares. Meio-dia, ou mais uma, duas, até sete meias-horas após o meio-dia: as horas magnas da imolação desértica. Em qualquer estrada anexa a um lugar povoado, ao sul. Espírito dos lugares circunvalantes, nas 7 meias-horas do meio-dia, ao sul. Experiência que pode ser instantânea, intervalar. Basta que surja sobre, a mais que, a cadência adquirida de uma manhã esgotada. É nesse além-tréguas, nessa sobre intimidade que o deserto consiste. Ir de rastos, a-té-ao-fim-do-es-pa-ço.

Álvaro Lapa, em "Sião"

(Álvaro Lapa nasceu no dia 31 de Julho de 1939. Morreu em 2006.)

segunda-feira, 30 de julho de 2018

Dom António, o outro 2

Foto Tarrenego!

No princípio era a contestação. Quero dizer: ainda António Rafael não ocupava o lugar de bispo de Bragança e já muitos bragançanos se levantavam contra a nomeação de mais um prelado "estrangeiro", desta vez vindo de Lamego. Tudo começou em 1979, nos preliminares da tomada de posse, no interior do próprio Cabido, onde, segundo amigos do nomeado, haveria cónegos "da terra com pretensões ao lugar". A contestação foi alastrando ao resto do clero e acabou inundando o mundo laico.
Desde então, de tempos a tempos, cartas (abertas ou anónimas), queixas, críticas, abaixo-assinados e outros documentos de protesto foram fazendo a história dos doze anos de purgatório de D. António Rafael, que, desconfiado dos seus cónegos e dos seus padres, cada vez mais sozinho e atacado, chamou a Polícia Judiciária a terreiro para aclarar os nomes dos clérigos rebeldes.
Razões ou pretextos para a confrontação nunca faltaram. Das questões funcionais - substituição do Cabido, direcção da Casa do Clero, divisão de Bragança em seis paróquias, contas e obras na diocese, "desvio abusivo" de imagens santas do património das igrejas locais... - às de natureza pastoral - as intervenções de "carácter político"em detrimento do religioso -, tudo tem servido para alimentar a polémica.
Convenhamos: este nem é pecado original na diocese. Nos últimos duzentos anos, raros foram os bispos de Bragança e Miranda que se aguentaram na cadeira. Pelo contrário, muitos foram "corridos" ou ausentes, por "mal satisfeitos", e durante largas temporadas o paço episcopal esteve sem inquilino, como reza recente estudo do cónego Adelino Pais.
E se a desventura episcopal parece ter começado por volta de 1790, com D. Bernardo Ribeiro Seixas, a quem os cónegos chamavam "diabrete", a peripécia mais sinistra - conta-se - terá acontecido antes, em 1756, com D. Frei João da Cruz, carmelita descalço que, por indesculpável lapso, foi enterrado vido.
Será um exagero, no entanto, concluir que Bragança sempre tratou mal os seus bispos, que também os houve bons. É o que defende, por exemplo, Fernando Calado, de A Voz do Nordeste, que elenca "doentes maníacos, homens tímidos que ao primeiro sinal de guerra abandonavam o seu rebanho às garras do inimigo", mas também nomes de bem-amados, "homens maiores, que fizeram obras grandiosas e glorificaram a Deus".

(Segunda parte de um trabalho que escrevi para a revista Sábado em Dezembro de 1991, na sequência de uma entrevista que fiz ao bispo de Bragança e Miranda, para o jornal O Primeiro de Janeiro, um ano antes. António José Rafael morreu ontem, com 92 anos. Amanhã volto ao assunto.)

Também faço isto muito bem 62

Foto Hernâni Von Doellinger

A montanha pariu um rato

A montanha pariu um rato. Que miséria, realmente. Se ainda ao menos parisse um elefante! Ou dois - que incomodam muito mais...

Mobiliário urbano (propriamente dito) 80

Foto Hernâni Von Doellinger

Mário Quintana 7

Envelhecer

Antes, todos os caminhos iam.
Agora todos os caminhos vêm.
A casa é acolhedora, os livros poucos.
E eu mesmo preparo o chá para os fantasmas.

"Sapato Florido", Mário Quintana

(Mário Quintana nasceu no dia 30 de Julho de 1906. Morreu em 1994.)

Está dito! 11

Olha uma coisa.

domingo, 29 de julho de 2018

Dom António, o outro

Foto Tarrenego!

D. António José Rafael, bispo de Bragança e Miranda, é fortemente contestado pelo modo como governa a sua diocese. Primeiro teve de haver-se com a "guerra dos cónegos", depois um documento com milhares de assinaturas exigiu ao núncio apostólico a imediata substituição do prelado, agora um novo abaixo-assinado, com os nomes de muitos notáveis do Nordeste, foi enviado ao Papa reivindicanto o de sempre: a demissão imediata de D. António. É mais um episódio de uma novela que mete intriga, traição, mentira, política, cartas anónimas, padres e polícias.
A carta ao Papa tardou mas não faltou. Estava da forja desde os finais do ano passado, chega agora à luz do dia e coloca em causa a acção e a ortodoxia pastoral de D. António Rafael à frente da igreja bragançana. Tal como se anunciava, este é um documento assinado por pessoas "de peso, importantes, de categoria, entre os quais alguns membros da Assembleia Municipal" de Bragança. De acordo com A Voz do Nordeste - jornal ligado à Igreja mas que, na região, tem servido de porta-voz aos críticos do prelado -, cuidou-se, nesta missiva ao Vaticano "não de juntar muitas assinaturas, mas de procurar apenas assinaturas de pessoas cuja idoneidade intelectual e moral fosse inquestionável". Os signatários são, entre outros, "alguns autarcas, engenheiros, professores, funcionários públicos e médicos", e o texto é "curto e sem os adjectivos menos simpáticos contra o bispo utilizados no documento enviado há um ano para a Nunciatura Apostólica."
Em cinco parágrafos, os chamados notáveis bragançanos denunciam o "ambiente de desunião" vivido na diocese logo "pouco tempo depois que fora nomeado bispo residencial o Senhor D. António José Rafael." Um "ambiente aflitivo, começado entre bispo e clérigos" e que "tem vindo a alastrar-se, sobretudo nas zonas mais cultas", gerando "um clima de guerra e descrédito" que "escandaliza crentes e não crentes". Descontentes com o silêncio da Nunciatura em relação ao primeiro protesto, os signatários pedem agora que o Papa "intervenha com a Sua autoridade de pastor universal da Igreja Católica", por forma a que "a unidade e a paz voltem a reinar nesta tão martirizada diocese."
Esta é, em boa verdade, um versão soft de uma crítica "qualificada", em contraste evidente com os milhares de assinaturas que no ano passado exigiam, sob desclassificativa adjectivação, a substituição de D. António. Diagnosticando ao bispo doença "psicológico-mental", e acusando-o de "inacessível, antagónio, egoísta, soberbo, insensível, ditatorial, intriguista, prepotente e descontrolado", o documento enviado incialmente ao representante da Santa Sé em Portugal pretendia espelhar a "perplexidade e o sofrimento", o escândalo de milhares de almas bragançanas, perante o "estado lastimoso da diocese".
Este documento surgiu após a substituição do padre Sobrinho Alves na reitoria do Seminário e a consequente cessação das suas missas na Igreja de Nossa Senhora das Graças - onde o sacerdote seria muito popular -, e pretendia expor o protesto de milhares de leigos contra a atitude do bispo. Muito do clero local assinava também a carta contra o chefe, não se dispensando da missão de mentores espirituais.

(Primeira parte de um trabalho que escrevi para a revista Sábado em Dezembro de 1991, na sequência de uma entrevista que fiz ao bispo de Bragança e Miranda, para o jornal O Primeiro de Janeiro, um ano antes. António José Rafael morreu hoje, com 92 anos. Amanhã volto ao assunto.)

Aquilino Iglesia Alvariño 3

Esta é a mar dos solpôres

Esta é a mar dos solpôres recendentes a mazás coloradas.
Debaixo, asolagados, fondos vales
e alboradas con páxaros de rabos longos de silencio.

Este é a mar, triste sombra desgazada
de altísmos montes cheos de neve,
que pelengrinaron soles inmensos e senlleiros.

Xa nin montes de neve nin soles recén nados.
Mais a súa sombra, sí, mar sin consolo.
A súa sombra de auga, amargues bágoas.
A súa sombra leal, triste lamento e longa noite.

Ónde aqueles montes altísmos
que aconchegaban contra o teu seo
o rebrilo das súas craras cabeleiras?

E o alento, e o peito poderoso
que inda arquexa profundo, quente e vivo
entre as olas, aló pol-a alta noite?

A mar non sabe nada.
A mar é sólo unha
sombra amargue de cinzas sin mamoria,
un desolado peito, todo oco,
que zoupan as súas maus poderosas e encrenchadas.

[...]

 "Cómaros Verdes", Aquilino Iglesia Alvariño

(Aquilino Iglesia Alvariño nasceu no dia 12 de Junho de 1909. Morreu no dia 29 de Julho de 1961.)

Caminho 525

Foto Hernâni Von Doellinger

Microcontos & outras miudezas 95

Os pontos nos ee
"Sexualmente falando, és imprestável", disse ela. "Tá bem", disse ele, e foi organizar-se com a vizinha. Ele percebera "emprestável". São coisas que acontecem...

Não me lembro...
Deitou-se com o Lusco-Fusco e acordou com a Aurora. Era bastante liberal e realmente um bocado bêbada. 

A continha, se faz favor...
Pediu um copo-d'água. Trouxeram-lhe dois croquetes, dois rissóis de camarão, dois rissóis de carne, meia dúzia de bolinhos de bacalhau anões, uma empada de vitela, um pratinho de salada russa, um pratinho de salada de feijão fradinho, um pratinho de polvo em molho verde, um pratinho de moelas de coelho, um pratinho de massa à lavrador, um pires de tremoços, cem gramas de camarão, duas navalheiras, quatro mexilhões em vinagreta, três asas de frango, meia cabeça de leitão, quatro fatias de lombo de porco assado, meia dose de rojões com arroz de sarrabulho, uma canja com esgravatadeira, uma fatia de bolo-rei, um par de noivos, um café. E um copo de água.

Duelo à sombra
"Ainda nos havemos de rir disto tudo", disse o duelista com bigode ao duelista sem suíças, e puxou o gatilho.

Eu vi o Natal
Subi ao farol e vi o Natal. Não vi nada, estava a brincar. Eu não subi ao farol.

Também faço isto muito bem 61

Foto Hernâni Von Doellinger

Beatriz Brandão 2

Meu coração palpita acelerado,
Exulta de prazer, de amor delira,
Novo alento meu peito já respira,
É mil vezes feliz o meu cuidado.

O meu Tirse de mim vive lembrado,
Saudoso, como eu, por mim suspira;
Que seleto prazer a esta alma inspira
A amorosa expressão do bem amado!

Doce prenda dos meus ternos amores,
Amada, suavíssima escritura,
Que em meu peito desterras vãos temores;

Em ígneos caracteres na alma pura
Grava, Amor, com os farpões abrasadores
Estes doces penhores da ternura.

Beatriz Brandão

(Beatriz Brandão nasceu no dia 29 de Julho de 1779. Morreu em 1868.)

What's up, doc? 10

Foto Hernâni Von Doellinger

Está dito! 10

Faço questão de dizer aliás.

sábado, 28 de julho de 2018

Este cromo não me larga a porta

Foto Hernâni Von Doellinger

O mundo é pequeno (e um bocado parvo)

- Perdoar-me-á que o interpele assim sem mais nem menos, sem o conhecer de lado nenhum, mas o caro senhor é um bocado parvo, não é?
- Sou, com efeito, um bocado parvo, mas como é que o caro senhor adivinhou?
- Um pressentimento. É que eu também sou...
- O caro senhor também é um pressentimento?
- Não, não, caro senhor: também sou um bocado parvo.
- Como o mundo é pequeno! Somos então praticamente primos...
- Parentes, pelo menos...
- E, mal que lhe pergunte, o caro amigo é um bocado parvo por parte da senhora sua mãe ou por parte do senhor seu pai?
- Por parte do senhor meu pai.
- Mas isso é extraordinário, caro amigo, porque eu também sou...
- O caro amigo também é um bocado parvo por parte do senhor meu pai?
- Não, não, caro amigo: sou um bocado parvo mas por parte do senhor meu pai.
- Oh, que pena! Quase que éramos irmãos, não é?...

Offshore, se fashavore 184

Foto Hernâni Von Doellinger

Xesús Rodríguez López 3

Anoitecendo

Foi n-o mes de Samartiño.
Facia un frio que rabiaba.
Era unha tarde de vento
e estaba toda anubrada
c' unhas nubes tan espesas
que casqu' â terra chegaban.
Viñ' o aire d' o Picato,
aire que sempre trai auga,
e n-o curuto d' o monte
estaba a nebra apousada,
coma mirando pr' a terra
dond' ha de dar a batalla.
N-habia pizca de sol,
facia media hora larga
e un que outro paxariño

carón d' o terreu voaba
buscando abrigo pr' a noite
entr' os toxos e as carpazas,
porqu' âs pólas d' os carballos
e mais álbores de rama,
caéralles tod' a folla,
ou si a tiñan xa secara
queimada d' o frio d' o inverno
qu' é frio que non deixa nada.
As campanas d' a parroquea
âs oraciós repicaban
e aló lonxe aquí e alí,
sintíanse outras campanas
que recordaban ôs homes
qu' á Dios lle debian gracias
pol-o ben que lles fixera
n-o dia que s' acababa.

[...]

"Cousas das Mulleres", Xesús Rodríguez López

(Xesús Rodríguez López nasceu no dia 28 de Julho de 1859. Morreu em 1917.)

Caminho 524

Foto Hernâni Von Doellinger

sexta-feira, 27 de julho de 2018

Manuel Vázquez Montalbán 2

- Parece contente. Tem motivos?
- Creio que sim.
Esteve tentado a dizer-lhe que "hoje é dia de Natal e, além disso, tal como sou, tal como está o mundo, esse mundo por onde acabo de dar uma escandalizada volta de inspecção, o único lugar lógico ao meu alcance é a cadeia. Nunca deveria ter saído dela. O mundo de Lifante, onde ele desempenha a função de manter a desordem, divide-se em vítimas e verdugos, algumas vezes chamados presos e carcereiros, bombardeados e bombardeadores, globalizados e globalizadores". Mas Carvalho não exteriorizou o seu monólogo interior e limitou-se a mostrar ao inspector a realidade em volta da carrinha prestes a arrancar.
- Que lhe faça bom proveito.

"Milénio II. Nos Antípodas", Manuel Vázquez Montalbán 

(Manuel Vázquez Montalbán nasceu no dia 27 de Julho de 1939 e no dia 14 de Junho de 1939, consoante. Morreu antes do tempo, em 2003, e isso é certo.)

Feira Medieval de Leça do Balio 2018


Feira Medieval de Leça do Balio (Os Hospitalários no Caminho de Santiago), de 6 a 9 de Setembro, ao redor do Mosteiro de Leça do Balio. Mais informação, quando houver...

Mobiliário urbano (propriamente dito) 79

Foto Hernâni Von Doellinger

Microcontos & outras miudezas 94

A vida é breve, a morte semifusa
Sabem: quando se acorda com aquela canção, aquela música na cabeça que nos embala o dia inteiro? Isso. Acordei com Adeste fideles na cabeça. Acordei e olhei para o rádio-relógio-despertador, quatro da manhã. O rádio-relógio-despertador riu-se de mim, que eu bem vi. Fui à cozinha beber um copo de água e conferir o calendário, 17 de Julho de 2018. O calendário riu-se de mim, tenho provas. Foda-se! Já nem o Natal é quando um homem quiser.

Pedro Tadeu pergunta
O jornalista Pedro Tadeu pergunta no DN: "Um comunista não pode ser rico?". Podes, Pedro.

Um espetáculo para espetadores
No Teatro Constantino Nery, em Matosinhos, um espectáculo para bebés. Um espectáculo que é um espetáculo, segundo leio no sítio da autarquia, portanto um espectáculo pontiagudo, afiado, evidentemente penetrante, uma arma branca para os devidos efeitos legais, isto num tempo em que todos os cuidados são poucos até com os brinquedos.
O espectáculo é anunciado para bebés, mas o título é para adultos. Cultos. O espectáculo chama-se "Qual o Sentido dos Sentidos?", e quem estiver mal que se mude. (Fraldas ecológicas serão distribuídas gratuitamente à entrada). Para bebés, o título do espectáculo andaria à volta de, se não me engano, "Galhagalhagalhagalha..."

Está dito!
Estou como diz o outro.

Tata
Há fri cá
Nel
son Man
dela

Ilha do Coral
A Ilha do Coral é mundialmente famosa sobretudo por causa do seu magnífico orfeão. 

Caminho 523

Foto Hernâni Von Doellinger

Salvador Golpe 4

Adios a Galicia

As lixeiras
anduriñas
pra Galicia
vindo van;
veñen ledas
tral-os niños
dos amores
d´outro vrán.


Deixan lonxe
n-outras prayas
os recordos
d´ un amor,
y aquí atopan
amor novo,
doces brisas,
craro sol.


¡Quén poidera
tel-as alas
qu´elas teñen
pra voar!
s´así fora
non sintira
tanta pena
por marchar.


Eu como elas
deixo a terra
dos recordos
da niñez;
deixo a patria
dos amores...
sin espranzas
de volver.


Mais Galicia
se un mal fado
separarme
vai de tí,
leva o corpo
porqu´ a yalma
toda enteira
deixo aquí.


¡Adios casa,
soutos, ríos,
veigas d´ ouro
craro sol...!
¡Adios berce
dos amores...!
¡Hastra sempre...!

¡Voume... ¡adios!

"A Nosa Terra", Salvador Golpe

(Salvador Golpe nasceu no dia 27 de Julho de 1850. Morreu em 1909.)

Também faço isto muito bem 60

Foto Hernâni Von Doellinger

quinta-feira, 26 de julho de 2018

O bom ladrão

Na sala de aula da desaparecida Escola da Feira Velha, no meio da parede, por cima do quadro negro, um Cristo crucificado. Carmona à direita da cruz, Salazar à esquerda. Eu, que naquela altura já tinha umas luzes bíblicas, nunca percebi qual destes dois era o bom ladrão...

Interlúdio fotográfico 29

Foto Hernâni Von Doellinger

Eu vi o Natal

Subi ao farol e vi o Natal. Não vi nada, estava a brincar. Eu não subi ao farol.

Também faço isto muito bem 59

Foto Hernâni Von Doellinger

Cassiano Ricardo 3

Serenata sintética

Lua
morta.

Rua
torta.

Tua
porta.

"Um Dia Depois do Outro", Cassiano Ricardo

(Cassiano Ricardo nasceu no dia 26 de Julho de 1895. Morreu em 1974.)

Offshore, se fashavore 183

Foto Hernâni Von Doellinger

Altino do Tojal 2

- Vozinho, empresta‑me dez tostões para comprar fruta no recreio - pedia eu, todos os dias, à hora de ir para a escola. Meu avô dava‑me vinte e cinco.
Em que gastava eu esse dinheiro, todos os sábados? Em viagens de trinta e tal quilómetros. Aonde? À branca aldeiazinha dos mortos. Aí, entre cruzes e ciprestes, de joelhos ante a campa onde apodrecia a suposta ouvinte - já substituída na cama do Proença, talvez esquecida -, punha‑me a ler escritos que os soluços virgulavam:

Em tempos que já lá vão

"Os Putos", Altino do Tojal

(Altino do Tojal nasceu no dia 26 de Julho de 1939. Morreu no passado dia 15 de Julho.)

Só destes, tenho sete 25

Foto Hernâni Von Doellinger

Francisco Bugalho 4

Sede

Magoava os olhos, o sol.
E a fresta entreaberta da janela
Deixava entrar um bafo morno e mole.

Tua blusa amarela,
Naquele ambiente cálido e pesado,
Era uma flor de estufa que se abria
Donde surgia,
Como seu estame airoso e delicado,
O teu branco pescoço
E a tua cabeça meiga e fria.

Toda a frescura da manhã passada
E a doçura da tarde que viria
Fresca e perfumada
Estava ali concentrada
Nessa loira cabeça sossegada,
Nessa flor amarela que se abria...

Assim, no ambiente do meu quarto,
Quando abro as asas do meu sonho e parto,
Como flor que guarda
Nas horas de canícula, na corola,
A gota de água heroica e resignada,
Da flor que és, consolador, se evola
Todo o frescor que a minha sede aguarda,
Silenciosa, cálida, pesada.

Francisco Bugalho 

(Francisco Bugalho nasceu no dia 26 de Julho de 1905. Morreu em 1949.)

Globetrotter 20

Foto Hernâni Von Doellinger

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Era o Lopes...

Eu levo os telemóveis muito a sério (à séria, se lido em Lisboa). Se o meu telemóvel toca, e é raro, eu atendo. Sempre. Ainda ontem: eu estava aqui nas traseiras, por acaso sem o telemóvel à mão, e ouvi-o tocar na cozinha, virada para a rua. Fui lá a correr: não era o telemóvel, era a máquina de lavar roupa, que as máquinas de lavar roupa agora também tocam. O que é que eu fiz? Atendi a máquina de lavar roupa, evidentemente, e era o Lopes...

Também faço isto muito bem 58

Foto Hernâni Von Doellinger

Microcontos & outras miudezas 93

Os livros
Gosto de afagar os livros que leio. Cheiro-os.

Vai chatear o Camões
Tinha a mania das grandezas. Sonhava com o Panteão. "Quando eu morrer - dizia -, vou chatear o Camões"...

As duas Senhoras
- Bom dia, Senhora da Misericórdia!...
- Olá, Maria das Dores, há um ano que não nos víamos...
- Saio pouco, enjoo na viagem...
- E eu também, são estes solavancos, estes salamaleques...
- Mas a senhora está muito bem.
- E senhora também.
- Porém os anos...
- A quem o diz...
- Por falar nisso, tinha qualquer coisa para lhe dizer...
- E eu também, mas não me lembro...
- Bem, vou-me lá...
- Realmente, são que horas...
- Então adeus, até para o ano...
- Se Deus quiser. Adeus.

Há palavras que nos beijam como se tivessem boca
A senhora sentada à minha frente faz croché. Eu leio um livro. O resto do metro espreita o telemóvel, fala para o telemóvel, escreve no telemóvel, joga no telemóvel, tira selfies com o telemóvel, põe o telemóvel entre pernas, aconchegadíssimo às intimidades, em alarmante modo de vibração. O metro inteiro é um telemóvel amarelo de duas carruagens, dois refractários e razoáveis orgasmos. Como quem não quer a coisa, a senhora sentada ao lado da senhora sentada à minha frente que faz croché desvia um olho do telemóvel e procura-me a capa do livro. Chega lá. Abana a cabeça, sentenciosa, faz cara de caso, deita-me uns olhos, ambos, num misto de decepção e de censura. Percebo-a: não leio José Rodrigues dos Santos. Leio "Poesias Completas & Dispersos", de Alexandre O'Neill, calhamaço como os do outro, mas calhamaço sem culpa de autor, calhamaço que dá gosto. Folheio-o com o respeito e o cuidado de quem folheia uma bíblia. E é. Vou naquela parte em que O'Neill me diz "A estouvaca": deitada atravessada / na estrada / a malhada / vai ser atropelada / foi. Palavra do senhor.

Limpa-nódoas
Se o defesa esquerdo for uma nódoa, lava-se com vinagre?...

Esta penumbra é lenta e não dói

Foto Hernâni Von Doellinger

Dia do Escritor Brasileiro

Positivamente, meu irmão foi acima de tudo um torturado. Sua tortura seria interessante se eu a explorasse com critério - mas jamais me preocupei com problemas do espírito. Belo para mim é um bife com batatas fritas ou um par de coxas macias. Não sou lido tampouco. A única atração que tive por livro limitou-se à ilustração de um tratado de educação sexual que o vigário do Lins fez o pai comprar para nosso espiritual proveito. Só creio naquilo que possa ser atingido pelo meu cuspe. O resto é cristianismo e pobreza de espírito.

Carlos Heitor Cony, "O Ventre"

(Hoje, 25 de Julho, o Brasil celebra o Dia Nacional do Escritor, chamado também Dia do Escritor Brasileiro)

Caminho 522

Foto Hernâni Von Doellinger

Día da Patria Galega

Canción pra cando se escoita falar castrapo

Ollade esa antroidada: son galegos,
xente do pobo, sinxela e moi normal.
Olládeos, como un fato de borregos,
falando o seu castrapo "tipical".

Esprésanse nunha estrana xerigonza,
van falando un idioma que non hai.
E sinten fondo reparo, gran vergonza,
en falar, como é debido, a fala nai.

Ollade ós moi paletos e cretinos
ladrando o seu castrapo por aí,
intentando ser lidos, cultos, finos
imitando ós "castizos" de Madrí.

Eles, probes, non poden ser culpados
polo seu idioma, tristeiro i anormal.
A culpa é de quen di: "Sede educados,
que falar galego está moi mal..."


Manuel María, "Canciós do Lusco ó Fusco"

(Hoje, 25 de Julho, é Día Nacional de Galicia, também conhecido popularmente como Día Nacional da Galiza ou Día da Patria Galega)

Offshore, se fashavore 182

Foto Hernâni Von Doellinger

terça-feira, 24 de julho de 2018

Duelo à sombra

"Ainda nos havemos de rir disto tudo", disse o duelista com bigode ao duelista sem suíças, e puxou o gatilho.

Também faço isto muito bem 57

Foto Hernâni Von Doellinger

Microcontos & outras miudezas 92

Colhedor de sóis
Saiu para apanhar sol. Regressou de saco cheio.

Ao nível do por banda
Exacto. Confirma-se o que dissemos no início da partida. Os movimentos de ruptura não saíram à turma anfitriã, que, inexistente nas alas e sem rasgo nos momentos de transição, falhou clamorosamente no último terço do terreno, tanto ao nível da definição quanto ao nível da finalização, não apresentando por isso lances susceptíveis de redundarem em golo. Dizer que, não obstante, tivemos o privilégio de visionar um prélio, na sua parte complementar, jogado e disputado com muito bom índice por banda quer de uma quer de outra equipa. O futebol é que ficou naturalmente a ganhar.

O Oliveira
O Oliveira foi chamado de urgência à gerência. Ordens: mudança de secção e de funções. Quer-se dizer: mobilidade. Deram-lhe um martelo. - Um martelo!? - protestou -, mas toda a gente sabe que eu sou o Oliveira da serra...

Lições de História 24: Jonas
Jonas era profeta com escritório em Israel e Deus mandou-o a Nínive passar umas gáspeas aos assírios, que eram maus como as cobras e de uma crueldade bíblica para com inimigos e povos vencidos em geral. Jonas acagaçou-se com os perigos da demanda e tentou desobedecer a Deus, fugindo, disfarçado de Hercule Poirot, numa viagem de cruzeiro pelo Mediterrâneo. Deus levou a mal tamanha manifestação de cobardia e diletantismo, caiu-lhe em cima com uma tempestade de criar bicho e atirou-o borda fora. Jonas foi engolido por uma baleia e por lá se acomodou durante três dias e três noites. Ao fim da terceira noite, isto é, ao quarto dia, depois do pequeno-almoço, a baleia deu à Costa da Caparica e o resto da história é bem conhecido: Jonas assinou pelo Benfica e em quatro épocas já marcou 122 golos.

Está dito! 6
Considero nomeadamente.

Está dito! 7
Parece-me que.

Tal pai, tal filho
O pai morreu e, trinta e dois anos e muitos dias depois, o filho morreu também. No velório, comovido, o velho amigo da família fazia notar a infeliz coincidência: - Tal pai, tal filho...

Vida de cão 352

Foto Hernâni Von Doellinger

Guilherme de Almeida 4

Os andaimes

Na gaiola cheia
(pedreiros e carpinteiros)
o dia gorjeia.

"Poesia Vária", Guilherme de Almeida

(Guilherme de Almeida nasceu no dia 24 de Julho de 1890. Morreu em 1969.)

Ocasos de fogo 9

Foto Hernâni Von Doellinger

Solano Trindade 2

Poema do homem

Desci à praia 
Para ver o homem do mar, 
E vi que o homem 
É maior que o mar 

Subi ao monte 
Pra ver o homem da terra, 
E vi que o homem 
É maior que a terra 

Olhei para cima 
Para ver o homem do céu, 
E vi que o homem 
É maior que o céu.


"Poemas de Uma Vida Simples", Solano Trindade 

(Solano Trindade nasceu no dia 24 de Julho de 1908. Morreu em 1974.)

Caminho 521

Foto Hernâni Von Doellinger

Eladio Rodríguez González 2

Malpocado!

Coa falchoca dos codelos pouco menos que valeira
vai o probe do velliño pol-a corredoira adiante.
Vai cuberto de farrapos

debullando os seus pesares.
Vai él solo pol-os pobos á pedir de porta en porta,
sin topar quen o acompañe
na diaria camiñada dos seus tristes desamparos
nin na noite sempre escura das suas longas soedades.

[...] 

"Oraciós Campesiñas", Eladio Rodríguez González

(Eladio Rodríguez González nasceu no dia 24 de Julho de 1864. Morreu em 1949.)

segunda-feira, 23 de julho de 2018

Pequeno-almoço de luxo

Foto Hernâni Von Doellinger

Não me lembro...

Deitou-se com o Lusco-Fusco e acordou com a Aurora. Era bastante liberal e realmente um bocado bêbada.

Agora sim, o Mundial! 22

Foto Hernâni Von Doellinger

O futebol realmente
Aos domingos de manhã eles lá estão e são os meus ídolos. Jogam à bola porque gostam, são amigos e compinchas, para além disso dá-lhes imenso jeito ganhar apetite para o almoço, Deus os farture. Jogam a sério, têm árbitro, capitães de equipa, minuto de silêncio, estão organizados, já vi assembleias gerais antes dos prélios e minis ao intervalo. Há os da praia seca e, no quintal dos fundos, os da praia molhada. A paixão pelo futebol é a mesma, tremenda e pura. São amadores como quer dizer a palavra.
Eles são o meu Mundial, o meu Europeu, e jogam futebol na praia - não confundir com futebol de praia. Em Matosinhos, fora da época balnear. São regra geral gordos e não têm cortes de cabelo idiotas, se descontarmos os carecas. Aqui não há mialgias nem lombalgias, ditas de esforço, mas haverá se calhar diarreias e ataques de fígado, o que se compreende perfeitamente. Aqui não há hooligans nem claques "organizadas". Não há cláusulas de rescisão, mas há multas por atrasos ou faltas, provavelmente para serem gastas à mesa. Não há comentadores nem considerações filosóficas, psicotácticas e tibiotársicas. Não há último terço do terreno nem quarto segredo de Fátima. Para o espectador, então, é um luxo: vê pelo menos seis jogos ao mesmo tempo e ao vivo, enquanto faz a caminhada pela marginal, e depois é só direccionar a cabeça para o campo certo quando ouve... "Gooolooo!!!"...
E isto, é preciso que se note, sem precisar de telecomando...

Nelo Barros
Tive a sorte de conhecer Nelo Barros. Manuel Coelho de Barros (1917-2007) foi um grande treinador de futebol e um mestre de treinadores de futebol que nunca fez primeiras páginas de jornais porque sempre se recusou a deixar o emprego no escritório da que era então a maior fábrica de Fafe, e uma das maiores do País, a troco de trabalho a tempo inteiro numa equipa da 1.ª divisão. O Nelinho era assim.
Pessoa excelentíssima, homem elegante, distinto, culto, carismático, Nelo Barros era reconhecidamente um catedrático da táctica, sabia muito de bola e dava gosto ouvi-lo falar de futebol. Ele entusiasmava-se e entusiasmava. O futebol de Nelo Barros tinha pessoas e histórias dentro. O futebol contado por Nelo Barros era simples, percebia-se à primeira, batia certo, era lindo...
Uma noite, no velho salão dos Bombeiros (Rua José Cardoso Vieira de Castro, entre os dois palacetes), o treinador encantou uma plateia à pinha que o foi ouvir falar de desporto e de futebol, de jogadores e de jogos, de treinadores e de tácticas, como nunca se tinha ouvido falar por aquelas bandas. O Nelinho falou como de costume, sem tabus, sem grandes teorias, sem peneiras. Até eu, que era um rapazola, entendi tudo. E fiquei a gostar ainda mais de futebol.
Perguntaram-lhe o que é que era preciso para se ser um bom treinador. Nelo Barros respondeu assim, que esta cá me ficou: "Não há bons treinadores. Os jogadores é que fazem os bons treinadores". E depois desenvolveu, mas nem era preciso.
Eu gostava tanto de ouvir Nelo Barros, que ia assistir a todos os treinos, que eram sempre ao fim da tarde, por causa do tal emprego do treinador na fábrica. Uma vez, o jogo em preparação era contra o Riopele. E digo contra de propósito, porque aquele era um tempo de rivalidades à moda antiga, dentro e fora do campo, acabando quase sempre tudo à trolha.
Mas, voltando ao treino, o Nelinho reuniu os jogadores à sua volta e deu a táctica. E eu por perto, de radar ligado. Fiquei deslumbrado: eram indicações precisas para cada um dos jogadores, para o funcionamento da defesa, para o desempenho do meio-campo, para o trabalho dos avançados, para as movimentações da equipa como um todo, até o Berto Magalhães (um suplente muito fraquinho, mas com um pulmão se faz favor) ia jogar como médio vadio para secar os criativos riopelenses. Tudo encaixava, tudo fazia sentido. E tudo dito com uma convicção, que no domingo só podia dar certo.
Mas não deu. Do outro lado estava uma equipa poderosíssima (se a memória não me atraiçoa, lá jogariam, por essa altura, o Piruta, o Vital, o Barros, o Albano, o João, o Luís Pereira), treinada por outro que a sabia toda: Ferreirinha. Saímos de Pousada de Saramago vergados a uma pesada derrota, já não sei por quantos, mas eu não perdi a fé no Nelo Barros. Pelo contrário. Na humilhação da goleada, aprendi a beleza original do futebol, tal como ele o ensinava: onze contra onze e uma bola que é redonda. O resto é treta.

Hoje, uma nova raça de colunistas, comentadores, ex-treinadores-comentadores e ex-comentadores-treinadores, todos paineleiros enfim, quer fazer-nos acreditar que o futebol é praticamente uma ciência oculta, só percebida por uns poucos predestinados que, modéstia à parte, são eles próprios. E inventam palavras e expressões para complicar o que é simples. E já não há bola nem futebol. Eles, que sabem inglês, "inventaram" o jogo. Pois, pela parte que me cabe, parabéns à prima. Sou um simples já com razoável uso. E tenho é saudades de ouvir o Nelinho a falar de bola. De bola simplesmente.

Interlúdio fotográfico 28

Foto Hernâni Von Doellinger

Chagas Val 2

Alicerce

Um alicerce tem suas raízes no tempo
construído com método e precisa engenharia
e sobre ele se edifica uma parede branca,
um pedaço de cidade iluminada em espelho
um rio corre por dentro das veias do centro
ou por baixo das finas areias e de cimento bruto
imperceptível se move uma água rasa, um fio
azul de vento que anuncia a casa construída
o território ocupado por onde as sombras feridas
caminham ou escorrem agudas as vozes
estrídulas de crianças que dançam e brincam,
os olhos cheios de luz, os corpos transparentes

"Anatomia do Escasso Cotidiano", Chagas Val

(Chagas Val nasceu no dia 23 de Julho de 1943. Morreu em 2016.)

domingo, 22 de julho de 2018

Agora sim, o Mundial! 21

Foto Hernâni Von Doellinger

E ao iniciarmos os nossos trabalhos...
 
A frase era: "E ao iniciarmos os nossos trabalhos, a todos desejamos uma muito boa tarde". Mas só funcionava se fosse metida no meio de uma marcha do John Philip Sousa, que para mim era um músico português de Castelo de Paiva que tinha ido para a América em pequenino. Eu sabia que no Pejão havia por aquela altura uma grande banda de música que até tinha um disco e que era quase tão boa como a nossa, a de Revelhe, e era por isso. Quanto à marcha propriamente dita, de preferência Stars And Stripes Forever. Isso, sim, era serviço profissional. Serviço completo.
Eu adorava os altifalantes. Chamavam por mim e eu ia. Eram sinal de futebol no Campo da Granja, eram Festa da Bomba, eram o Santo António na minha rua, eram a Senhora de Antime que vinha à vila numa tremenda e comovente procissão. E adorava aquela frase. O meu sonho era dizê-la quando fosse grande.
E disse. Vezes sem conta, anos mais tarde, já os altifalantes tinham sido promovidos a "instalações sonoras" e a bola rolava no Estádio de campo pelado. Sim, o microfone agora era meu, eu era o rapaz da "constituição das equipas" e daqueles reclames muito jeitosos que terminavam todos em "... nesta simpática lo-ca-li-da-deee". E nem imaginam o que eu sofria quando, no defeso, andava de catrel pelas aldeias de Fafe, mais o Pimenta, a anunciar os filmes do cinema ao ar livre e sem poder dizer a frase. Não encaixava de maneira nenhuma - que seca! E os filmes também...
"E ao iniciarmos os nossos trabalhos, a todos desejamos uma muito boa tarde". Era a frase da minha infância e andou sempre comigo. Até na profissão. Quando passei pela Informação da Rádio Comercial, no tempo da RDP, muitas vezes a disse, como teste, na gravação de uma notícia ou apenas por brincadeira, de microfone fechado, antes de ir para o ar com o noticiário.
Nunca chegou cá fora, e foi o que os senhores ouvintes perderam - como certamente estão agora a perceber. Em contrapartida, uma vez, no final de um bloco noticioso particularmente bem conseguido, saiu-nos - ao colega de cabina e a mim - um "Até os comemos!", de microfone distraidamente aberto e destinatários certos, que ainda hoje é o nosso orgulho.
Porque "Até os comemos!" também é uma bela frase e resulta muito bem em rádio. Mas, verdade seja dita, não tem comparação com a outra, a dos altifalantes, pois não?...

Não sei se se recordam, mas no Mundial de 2014, no Brasil, o jogo França-Honduras não teve hinos. Num Mundial em que os penáltis de encomenda até estavam a sair tão bem, esqueceram-se do principal: do gira-discos e dos velhos altifalantes. Só pode ser falta de informação, ou então qualquer coisinha contra Portugal, porque, se o Brasil queria um serviço como deve ser, profissional e a mandar ventarolas, que viesse ao lado de cá encomendá-lo. Os responsáveis pela empreitada deveriam saber, tinham de saber, que as "Amplificações sonoras de João Baptista Gonçalves, de Antime, Fafe, deslocam-se a qualquer localidade, haja ou não haja corrente eléctrica". Não tenho a menor dúvida, o Mundial do Brasil ficava muito bem servido com os altifalantes do Baptista. Com os altifalantes do Baptista, hinos... é de calcanhar.

Do alto deste grua...

Foto Hernâni Von Doellinger

Enrique Labarta Pose 2

[...]
Cheo de afán i emoción,
case con noite me erguía
tódolos anos o día
da festa de Tabeirón.
Logo, aló na carballeira,
sentíase una alborada
doce, alegre, froleada,
beiladora e churrusqueira.
Era o gaiteiro Xan Trigo
que á nosa cas ledo viña,
onde por costume tiña
tomar a parva de antigo.

[...]

"A Festa da Patrona de Tabeirón", Enrique Labarta Pose 

(Enrique Labarta Pose nasceu no dia 22 de Julho de 1863. Morreu em 1925.)

Também faço isto muito bem 56

Foto Hernâni Von Doellinger

Antonio Bieito Fandiño 2

[...]
Escoita, mira detente,
non seas desesperada,
que, asi Dios me salve, nada
souben hastra o de presente.
Probe de min, non me oyeu!
Por um lado ten razon,
que lle sobre, pero non
en pensar que o sabía eu.
Como demonios faréi
para empantanar o caso?
meu pai he duro e perrazo,
e por tema non ten lei:
o crego se ha d'enfadar
se lle digo que non quero;
e miña naí...
[...]

"A Casamenteira", Antonio Bieito Fandiño

(Antonio Bieito Fandiño nasceu no dia 22 de Julho de 1779)

Caminho 520

Foto Hernâni Von Doellinger

Manuel Castro López 2

Andruco, un bo mozo, tiña una noiva, nomeada Adelaira, que lle daba desgustos a eito, sen entención de darllos. Adelaira cría en Deus, non era orfa, tiña irmaos; pro non había pra ela máis irmáns, pais nin Deus que Andruco, seu luceiro, súa sorrisa, seu alento, súa saúde: ¡era o seu pirmeiro amore! Pero outros mozos, anque conescían que il non lle gardaba menos afeuto, levados polo atrautivo dela, botábanlle, sempre que onde cadraba a vían, unhas olladas que alcendían de carraxe o corazón do noivo, cando, por suposto, as outeaba, que non eran poucas veces: non lle saía o carraxe ós beizos nin ós ollos, pra que nadie se decatase, no cal obedescía a Adelaira, que lle aconsellaba non facer caso, coma ela, baixando a cabeza diante daquelas provocacións, non o facía; pro o espritu de Andruco non tiña sosego. Pasou moito tempo. Unha mañá da risoña primadera, a rapariga camiñaba despacio, da fonte pra a casa cunha ola enriba da cabeza. Preto dela un rapás que non era Andruco dicíalle amorosiño: "¿por que non me escoitas, moza de cabelo de ouro, ollos de lume, cariña de ánxelo, fala doce cal o amañescer, garrida centura, andar de siñora?..." "¡Ansí é Adelaira! - respondeulle Andruco, que os siguía caladiñamente; - mais, ¿que che enteresa iso?" E ó mesmo tempo doulle na cachola, enritado, un forte pau, que fixo caír no chan ó estrevido froleador. "¡E ti toleache, Andruco!", escramou tembrando Adelaira, chea de ansiedá, perguntou ó ferido: "¿Fuco?... ¿Fuquiño?..." Foi en van, pois Fuco parescía morto.

"Volubilidá da muller", Manuel Castro López

(Manuel Castro López nasceu no dia 22 de Julho de 1860. Morreu em 1926.)

As iludências aparudem 8

Foto Hernâni Von Doellinger

Lara de Lemos 2

Matura idade

Já não receio
meu avesso de medos.

Distingo as coisas
em sua proposta exacta
e sei - cada ser
possui justa medida.

Já não almejo
o que me foi negado.

Prossigo a caminhada
colhendo o que
me coube, consoante
o chão lavrado.

"Adaga Lavrada", Lara de Lemos 

(Lara de Lemos nasceu no dia 22 de Julho de 1923. Morreu em 2010.)

Offshore, se fashavore 181

Foto Hernâni Von Doellinger

José Paulo Paes

Cemitério 

Aqui jaz um leão
chamado Augusto.
Deu um urro tão forte,
mas um urro tão forte,
que morreu de susto.

Aqui jaz uma pulga
chamada Cida.
Desgostosa da vida,
tomou inseticida:
Era uma pulga suiCida.

Aqui jaz um morcego
que morreu de amor
por outro morcego.
Desse amor arrenego:
amor cego, o de morcego!

Neste túmulo vazio
jaz um bicho sem nome.
Bicho mais impróprio!
tinha tanta fome
que comeu-se a si próprio.

José Paulo Paes

(José Paulo Paes nasceu no dia 22 de Julho de 1926. Morreu em 1998.)

Is there anybody out there? 15

Foto Hernâni Von Doellinger

sábado, 21 de julho de 2018

Os pontos nos ee

"Sexualmente falando, és imprestável", disse ela. "Tá bem", disse ele, e foi organizar-se com a vizinha. Ele percebera "emprestável". São coisas que acontecem...

Agora sim, o Mundial! 20

Foto Hernâni Von Doellinger

Pica, 6 - Fareja, 0
Fafe tem nomes que são um mimo. Uma terra que tem um lugar chamado Pica e uma freguesia chamada Fareja só pode ser uma grande terra. E Fafe é realmente. Gosto de contar esta história: em pleno Verão de 2014, em dia de apuramento para a Liga dos Campeões, Pica e Fareja fizeram um jogo-treino, e o resultado, sendo contundente, não significa nada por aí além, a não ser que dá para rir: Pica, 6 - Fareja, 0...
Mas é preciso que se note: para quem é de Fafe, como eu sou, Fareja e Pica são nomes absolutamente normais, que só fazem confusão ao jornalista Nuno Azinheira, que chamou Fajães a Fareja, e a uns caralhos de fora que não conseguem passar pela tabuleta da Pica sem lhe meter a cedilha...

O Grosso da Coluna e o Maciço Central
A diferença entre o Grosso da Coluna e o Maciço Central pode resumir-se-se assim: o primeiro é corredor de bicicletas e o segundo joga no eixo da defesa, como agora se diz. Este joga no Inverno, o outro corre no Verão. E o que têm em comum? Fisicamente falando, pertencem ambos à família dos Armários...

A bola, como uma mulher
O futebol pode ser uma coisa muito bonita. Se o pequeno astro argentino Lionel Messi estiver em campo, então é de certeza. Lembro-me de um jogo da Liga dos Campeões, há alguns anos, em que o craque do Barcelona brilhou como nunca: marcou cinco em sete, bateu recordes, mas não é a quantidade que aqui me interessa - é a qualidade. A qualidade de um jogador que descansa mais do que corre, e que não corre, desliza. Que não se esfarrapa, mas pensa. E que pensa e cria como respira. A sofreguidão é uma cena que não lhe assiste. Os seus golos são obras de arte, actos de amor.
Messi conhece como ninguém, a cada momento, o ponto G da jogada que ainda nem lhe chegou aos pés. Ele adivinha o sítio onde a bola o vai procurar. Recebe-a com um beijo, oferece-lhe flores, acaricia-a, leva-a a passear, e ela gosta, retribui os carinhos, abraça-se-lhe à chuteira num abraço só desfeito no exacto momento do remate. Digo mal. Mas qual remate? Messi não chuta, passa a bola à baliza e é golo. O pequeno Messi é um cavalheiro, um amante delicado e atencioso: trata a bola como ela merece. A bola, como uma mulher... 

I want my fifty!

Foto Hernâni Von Doellinger

Luz Pozo Garza 2

A pureza da boca

E todo se nos volve fugaz e transitorio
se esquecemos a luz
Se non vemos a luz como presaxio
a desvelar as sombras

Se non descubre a seducción dos labios
que son libres
A pureza da boca cando cala
A pureza da boca cando fala en gaélico
A pureza da boca cando canta un alalá
perdido

Os oficios humildes
madeiras de abeleira serradas nun alpendre
coa saudade da patria
cando nacen as xestas na harmonía do cosmos

e o Celtic twilight mesmo
que concede ó poeta tantos saberes feéricos


"As Arpas de Iwerddon", Luz Pozo Garza

(Luz Pozo Garza nasceu no dia 21 de Julho de 1922)

Jakobsweg 519

Foto Hernâni Von Doellinger

Carlos Reverbel 4



"Quase um conto", Carlos Reverbel 

(Carlos Reverbel nasceu no dia 21 de Julho de 1912. Morreu em 1997.)

Garimpando

Foto Hernâni Von Doellinger

sexta-feira, 20 de julho de 2018

Ilha do Coral

A Ilha do Coral é mundialmente famosa sobretudo por causa do seu magnífico orfeão.

Jovem ciclista em cuecas

Foto Hernâni Von Doellinger

Palavra de honra, em cuecas. Os famosos slipes ou trusses. Em cuecas, portanto. O jovem ciclista atravessou com a maior das descontracções a praça principal da vila de Caminha, perante o espanto e a reprovação compungida da distintíssima esplanada do Café Central que rebentava pelas costuras de senhorecas e senhorecos. Primeiro para cima, depois para baixo, pedalando em preparos tão resumidos, parece impossível. A indignação foi praticamente geral, até as arcas dos gelados coraram. E perceba-se o escândalo: era domingo e hora da missa, valha-me Deus.

Agora sim, o Mundial! 19

Foto Hernâni Von Doellinger

Cada um tem as epifanias que merece
Uma vez eu fui à bola e tive uma revelação que até hoje. Uma epifania, como agora se diz para evitar confusões com a velha química fotográfica. Eram outros tempos, sobras de vacas gordas que ainda me davam para subir até à prazenteira companhia e insubstituível comida do Sr. Vilaça, no Conselheiro, em Paredes de Coura. Mas o jogo: no campo à borda da estrada que desce para Ponte de Lima, era um Castanheira-Paçô, prélio que eu prognosticara sem história, coisa para zero-zero ou menos, mas estava esfericamente enganado. Foram três secos em dia de chuva, frio e nevoeiro. Nevoeiríssimo. Nem um palmo eu via à frente do nariz, literalmente, e peço que, por favor, não se escandalizem com tanta literalidade: com uma mão a segurar o chuço e a outra enfiada no bolso das calças, a gozar o quentinho da ferramenta, não tinha um terceiro palmo à mão, só mesmo se pedisse um palmo emprestado ao parceiro do lado, e eu não estava para aí virado. Portanto, não via um palmo à frente do nariz, que fique assente. O nevoeiro, nevoeiríssimo, era tanto que às vezes, junto à outra baliza, eu seja ceguinho se não era capaz de jurar que os atletas de ambas as equipas estavam a jogar em braille. Ao árbitro já não chegava essa coisa nova que é a sinalética, apitava de megafone, marcava faltas por sms, e fosse o que Deus quisesse. E eu sem saber se o bloco era baixo e se a pressão era alta, matérias que me interessam sobremaneira. E o último terço do terreno, onde estaria realmente o último terço do terreno?
Lá no alto da serra, o tecto de nevoeiro era tão denso, quase sólido, que aquilo já não era um campo de futebol, parecia mais um pavilhão gimnodesportivo, e eu ali dentro, compactado, com falta de ar, estou aqui estou a ligar para o 112. E cá está: como, ainda por cima, éramos apenas 19 pessoas e quatro senhores-guardas a ouver o jogo, não se via mas ouvia-se tudo o que se passava dentro das quatro linhas. Foi assim que de repente, entra o primeiro golo, entra o segundo, as minhas enregeladas porém atentíssimas orelhas começaram a captar: "Vai, Caralho!", "Sobe, Caralho!", "Entra, Caralho!", "Sai, Caralho!", "Dá-lhe, Caralho!", "Força, Caralho!"... E eu cá para os meus botões, mais admirado era impossível: - Ai que caralho, queres tu ver que o Caralho joga no Castanheira? Mas quem caralho será?
Estava, é preciso que se diga, admirado mas também intrigado, consumição a dobrar. A minha sorte foi que, aproveitando um bocanho, lá acabou por entrar o terceiro dos da casa, marcado pelo 10, imediatamente abraçado pela sua equipa em peso, a aberta deu para ver. "Golo, Caralho!", "Boa, Caralho!", "É assim mesmo, Caralho!", "És o maior, Caralho!", gritavam-lhe os eufóricos colegas, pendurando-se-lhe no pescoço. Com o árbitro a dizer que eram que horas e a festa a terminar, como manda a tradição, com calduços e palmadinhas no rabo, embora toda a gente saiba que não há gays no futebol, eu percebi finalmente: o número 10 é que é o Caralho...

Caminho 518

Foto Hernâni Von Doellinger

Manuel Fabeiro Gómez

Pranto en Compostela

¡Ai, luar en Compostela!
¡Ai, Quintana dos Mortos
con tantos soños de pedra!


¡Ai, Compostela belida,
que gardas nas túas rúas
as ilusións de Galiza!

¡Antre a choiva i antre o vento
os salaios da Terriña
en Compostela comprendo!

¡Soan sinos de delor,
no luar de Compostela
firen o meu corazón!

¡Ai a rúa do Vilar
ai, pedras de Compostela
quixera con vos chorar!

¡Ai luar de Compostela!
¡Ai, a Quintana dos Mortos!
¡Ai, os salaios da Terra!


Manuel Fabeiro Gómez 

(Manuel Fabeiro Gómez nasceu no dia 7 de Agosto de 1916. Morreu no dia 20 de Julho de 1992.)

Globetrotter 19

Foto Hernâni Von Doellinger

quinta-feira, 19 de julho de 2018

A continha, se faz favor...

Pediu um copo-d'água. Trouxeram-lhe dois croquetes, dois rissóis de camarão, dois rissóis de carne, meia dúzia de bolinhos de bacalhau anões, uma empada de vitela, um pratinho de salada russa, um pratinho de salada de feijão fradinho, um pratinho de polvo em molho verde, um pratinho de moelas de coelho, um pratinho de massa à lavrador, um pires de tremoços, cem gramas de camarão, duas navalheiras, quatro mexilhões em vinagreta, três asas de frango, meia cabeça de leitão, quatro fatias de lombo de porco assado, meia dose de rojões com arroz de sarrabulho, uma canja com esgravatadeira, uma fatia de bolo-rei, um par de noivos, um café. E um copo de água.

Agora sim, o Mundial! 18


Às vezes o futebol...
Comecei a ir ao futebol pela mão do meu pai. Íamos ao Campo da Granja ver o Fafe. O Campo da Granja tinha uma bancada pequena apontada ao grande círculo e uma nora atrás da baliza do lado de São Gemil. A nora, neste caso, era um engenho para tirar água de um poço e não funcionava. Mas ficava num altinho muito jeitoso para a assistência. A assistência naquele tempo não era passe para golo, era pessoas. Eu e o meu pai víamos os treinos, os jogos, os juniores em vez da missa (o que arreliava a minha mãe), as reservas e, ao domingo à tarde, o primeiro time. Os domingos à tarde da minha infância eram os melhores dias do mundo. Até tinham altifalantes com marchas do John Philip Sousa. Depois o meu pai deixou de ir à bola, por razão de força maior, e eu continuei.
O Campo da Granja desistiu para dar lugar a uma escola de pré-fabricados. E foi bom para todos. Ganhámos o ciclo preparatório e um estádio que havia de ser, mesmo encostado aos Bombeiros. Apareceu-me o buço e, embora uma coisa não tenha a ver com a outra, passei a acompanhar a Associação para todo o lado, pendurado na generosidade de amigos mais velhos e com emprego. Frequentei todos os campos e estádios do Norte do País e, já praticamente de bigode, até fui ao Barreiro arrancar à CUF um lugar nas meias-finais da Taça de Portugal que nos roubaram.
Quando mudei a minha vida para o Porto ainda se ia ao futebol em família. Quero dizer: famílias inteiras, com pai, mãe, avós e netos, sobrinhos, primos, namoradas e namorados. Podia-se ir, não era perigoso. Eu fui logo morar para o Estádio das Antas, Superior Norte, porta com porta com o meu tio Zé da Bomba, que já lá morava há que anos. Consegui converter a minha mulher ao FC Porto, fi-la também sócia e passámos a ir à bola os dois, eu e ela com a cesta do merendeiro atrás, porque naquele tempo não havia lugares marcados e para jogos grandes era mesmo preciso entrar de véspera. E quando digo merendeiro quero dizer exactamente merendeiro: frango assado, sandes de vitela ou lombo de porco, panados, bolinhos de bacalhau, bacalhau frito, pataniscas, feijoada, salada russa, iscas de fígado, rojões, moelas de coelho, arroz à valenciana, filetes de pescada, salpicão, presunto e rebentos de soja, uma toalha de linho em cima dos joelhos, uma garrafosa de verde tinto bem fresquinho, ou duas, e uma garrafa de litro de cerveja, ou duas, por causa dos descontos. Entrava tudo. E marchava tudo. Para não virmos carregados para casa. Aquilo é que era futebol!
Se o FC Porto não jogava nas Antas, então eu ia ao Mar torcer pelo Leixões ou ao Bessa ver o Boavista. Aos sábados puxava pelo Salgueiros em Vidal Pinheiro que Deus tem ou matava o vício no campo do Infesta, que me dava falta de ar. Às quartas, dia da minha folga do trabalho, papava campeonatos de reservas, desempates da Taça de Portugal, liguinhas de subida de divisão e torneios de apuramentos de campeões. Em Santo Tirso, em Vila do Conde, na Póvoa de Varzim, em Espinho, em Aveiro, onde calhasse aqui à roda. Havia jogo, eu estava lá. E regalava-me. Mas depois chegaram as claques "organizadas", como se diz para o crime, e eu vim-me embora.

Às vezes tenho saudades. Tive saudades aqui atrasado ao ver as imagens da televisão em Alvalade, momentos antes de um jogo europeu do Sporting: um avô e dois netos (foi o que me pareceu) agarrados à marmita com o apetite a cem e o sportinguismo a mil. Ali os três que apanhei por acaso, puros, em paz, com espaço, na serena expectativa da capilota adivinhada, felizes da vida como era eu nos domingos à tarde do Campo da Granja ou nas ceias com a minha mulher lá no degrau mais alto da Superior Norte das Antas. (Quando era criança, o Kiko, meu filho, adorava também ir lanchar aos campos de futebol...) Claro que em Alvalade era jogo de meia casa e com um adversário de boas-festas. Claro que agora nos estádios só se pode comer plástico. E claro que já não se ouve The Stars and Stripes Forever e o Toni Dantas também não. Mas o resto aqueles três da televisão tinham...