segunda-feira, 31 de julho de 2017

Clodoaldo de Alencar

A pérola

Na montra azul do mar, sobre o lençol de argila,
que a tintura do lodo há milénios encarde,
- desde que nasce a aurora e morre, em sangue, a tarde,
sob a equórea pressão a pérola cintila.

A onda, espúmea e revel, que ora avança e vacila,
no evasivo correr de alva Ninfa em alarde
e em cujos ombros nus o ouro dos astros arde,
não lhe rouba, sequer, a postura tranquila.

O estojo em que ela fulge o homem-do-mar presume
e, num mergulho audaz, vai procurá-la em torno
às rosas de coral dos jardins sem perfume.

Depois, rompendo o leque a mil sargaços, boia,
trá-la, fá-la viver presa a colo alvo e morno:
- joia fina a pompear no engaste de outra joia.

"Orós", Clodoaldo de Alencar 

(Clodoaldo de Alencar nasceu no dia 2 de Agosto de 1903. Morreu em 1977.)

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