sábado, 29 de abril de 2017

Jaime Cortesão 5

A mulher grávida

Eu sou a mulher pejada.
Minha boca apetecida,
Com outra boca colada,
Deu beijos para dar vida.

Em mim é santo o desejo,
É santo por ser fecundo:
Pus toda a alma num beijo,
E fui a origem do mundo.

Olhai: caminho por entre
Todo o povo sem receio,
Pois trago um filho no ventre
E uma fonte em cada seio.

Quem sentir vida tão alta
Não se furte, não a esconda;
Vêde-a... em meu ventre se exalta,
Sobe toda numa onda.

Um filho todas as vezes,
Que é de mãe enternecida,
Trá-lo o ventre nove meses
E o coração toda a vida.

Que imenso poder eu tenho
- Dar vida por ser o amor;
Não há poeta tamanho,
Nem génio mais criador!

E por meu ventre sagrado
Vou falar: escutai bem.
Fala o verbo revelado
No meu instinto de mãe.

Eu vejo para além da vista,
Ouço para além dos ouvidos:
Oh! Que terra nunca vista,
Que heróis jamais concebidos!

Ouço em mim vozes estranhas,
A minha alma deita luz…
Trago nas minhas entranhas
Outro menino Jesus.

Meu filho mostra-me a face,
Faz-te aurora nascida,
Embora a luz me queimasse, 
Ainda que eu perdesse a vida.

Sou o céu da madrugada,
A minha carne anda em brilho;
Sinto-me ébria de alvorada
Rompe o sol: nasce o meu filho!

"Glória Humilde", Jaime Cortesão

(Jaime Cortesão nasceu no dia 29 de Abril de 1884.  Morreu em 1960.)

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