sexta-feira, 31 de março de 2017

Requiem pelas minas do Pejão 3

Foto ADRIANO MIRANDA

E o certo é que, depois dos estrebuchos iniciais, cartas, comunicados e exposições - da Câmara de Castelo de Paiva, de juntas de freguesia, de colectividades -, todos se entenderam sobre a inevitabilidade do encerramento da mina. Até os trabalhadores...
A questão passava a ser, agora, como tal seria concretizado e que voltas haveria a dar para reverter em positivo a situação.
E todos - outra vez unânimes - concordaram no método e nas prioridades. A saber: despedimentos faseados, formação profissional, melhoria nas acessibilidades ao litoral e criação de uma zona industrial e de um gabinete técnico de apoio que orientasse reconversões e novos investimentos.
A Administração da ECD avança já com o seu balanço positivo. De 87/88 até hoje, foi reduzindo o número de trabalhadores de 1.100 para 500 ("o mínimo para o funcionamento da mina"). Encetou "um planeamento mineiro mais correcto e aumentou-se significativamente a produtividade". Reduziu aos horários de trabalho e "eliminaram-se os tempos mortos". Afirma ter aproveitado todos os incentivos disponibilizados pela CECA (Comunidade Europeia do Carvão e do Aço) para efectuar "despedimentos melhorados".
De facto, o processo de despedimentos é assumido como um êxito estrondoso. Os administradores José Couto e Arrais realçam a "confiança mútua, o relacionamento extremamente pacífico com os trabalhadores". E atestam: "desde que foi aunciada a decisão da paragem, não houve uma única greve; pelo contrário, os últimos quatro anos foram os de maior produtividade: a taxa de absentismo diminuiu, em Outubro a produção aumentou 20 por cento e [suprema ironia] contamos atingir o óptimo da exploração exactamente no dia do encerramento da mina!"
Quer dizer: a ECD reclama-se como "a primeira exploração mineira que em Portugal foi objecto de um encerramento programado, que foi possível desenvolver com um elevado grau de execução dos objectivos propostos, graças à boa colaboração que existiu entre todas as entidades intervenientes"... e, especialmente, "à excelente colaboração do pessoal"...

(Continua amanhã)

P.S. - As minas do Pejão fecharam no final de 1994. Na ocasião andei por lá e escrevi este "Requiem" para a revista Anégia.

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