quinta-feira, 30 de março de 2017

Requiem pelas minas do Pejão 2

Foto ADRIANO MIRANDA/PÚBLICO

Na mina de Gemunde, a extracção de cada quilo de carvão exige a execução de uma operação manual. O terreno é extremamente irregular e não há hipótese de mecanização. A mão-de-obra representa, por isso, cerca de 75 por cento do custo total da produção e cada tonelada de carvão corresponde de facto a um prejuízo que hoje em dia andará pelos cinco mil escudos.
Além disso, trata-se de um produto de ignição difícil e baixo poder calórico, o que de resto obrigou a Central da Tapada do Outeiro, da EDP - consumidor exclusivo, "agarrado" por negociações até 1994 -, a construir caldeiras especiais com um leito quente obtido com queima de fúel, sobre o qual é lançado o carvão.
O ónus de um preço obviamente mais caro do que o praticado no mercado e os prejuízos de exploração correriam por conta de subsídios do Governo e da EDM, empresa de capitais públicos principal accionista da ECD. Há um par de meses, a subsidiação directa e indirecta ia já nos cinco milhões de contos.
E pronto, estava montada uma sobrevivência artificial, porém com morte anunciada a prazo, "na linha do que se vinha fazendo com estas minas em toda a Europa". Governo e ECD empenham-se então num "processo exemplar" de fecho da empresa, tudo previsto, diagnosticado, tratado a tempo. Na letra da própria Administração, estas eram as linhas gerais do programa estabelecido, tendente a reduzir o impacto sócio-económico: "encerramento gradual (para evitar desemprego pontual elevado); subvenções à empresa para cobertura dos prejuízos anuais de exploração e satisfação das responsabilidades de operador mineiro (total de subvenções directas: quatro milhões de contos); acordo com a EDP para compra do carvão até Dezembro de 1994 (subvenção indirecta: um milhão de contos); assegurar indemnizações terminais aos trabalhadores e aos terceiros prejudicados pela exploração: promover cursos de formação para reconversão profissional; alienar os bairros operários aos seus ocupantes; medidas para o desenvolvimento do tecido industrial do concelho de Castelo de Paiva; melhoria das infra-estruturas do concelho (acessibilidades e pólos industriais); recursos aos apoios comunitários às zonas carboníferas [RECHAR I e II]."

(Continua amanhã)

P.S. - As minas do Pejão fecharam no final de 1994. Na ocasião andei por lá e escrevi este "Requiem" para a revista Anégia.

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