domingo, 29 de janeiro de 2017

José Manuel Capêlo

Quem me dera poder voar
 
Que falem de mim os gestos, amor,
que falem de mim os gestos deste entardecer e da noite
longo silencio, estranha penumbra a mascarar-se
com a manhã que nasce só.
Mais belo é misturar-me com o sorriso
dessa tua alma cheia de alma
flor única que beijo e transporto nos dedos
que me fizeram à tua imagen
como um pequeno deus transformado em homem.
E nada se compara ao teu sorriso
a esse teu sorriso como linha de horizonte
fumo duma nave elíptica a passar
pelo arredondado da terra, a surcar o veio do mar
abrindo as fontes das serras e os eixos das plantas
os olhares dos homens e o geométrico dos telhados
as grandes quilhas suspensas e o mar a não ter fim
nesse fim a não ter mar ou o teu sorriso ou o teu destino.
Quem dera ser pena ou asa ou algo muito parecido
como um grande manto de nuvens ou a plena claridade
duma madrugada a despontar nos meus olhos.
Ah! Quem me dera poder voar no meio dos teus olhos
queimar-me nas chamas que irrompem do seio dos teus lábios
fustigar-me com o suor que sai em cascatas de vida
em flores de lilás de entre os teus dedos
e adormecer no sonho infinito no meio dos teus abraços.
Não pretendia mais. Tudo o resto poderia nascer igual
com salpicos de todas as formas e olhares
nos gestos idênticos de quem estende as mãos
oferece o corpo. De quem dá a boca.
As manhãs, que viessem floridas, estivais, outonais
primaveris, frígidas. Não me importava. Nada me importava.
Mas que viesses tu, unicamente tu
com o sorriso nas mãos e a alma nos olhos.
Depois, que aparecesse a Natureza e o seu manto.


José Manuel Capêlo

(José Manuel Capêlo nasceu no dia 29 de Janeiro de 1946. Morreu em 2010.)

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