segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Se bem me lembro 33

Foto Hernâni Von Doellinger

Josué Montello 5

João Maurício, que dispensara a barraca de campanha, preferira ficar ao relento, na companhia de seus soldados, sentindo à sua volta a noite imensa e clara. Jamais tinha visto outra assim. Afeito a galgar escarpas e desfiladeiros, vivia agora uma emoção diferente, com aquela luz úmida, aquele silêncio espaçoso, aquelas cumeadas, aquelas árvores que a brisa balouçava. Por terra, junto aos fuzis e às mochilas, jaziam os companheiros adormecidos, agasalhados nas mantas e nos capotes, sem que se lhes ouvisse o ressonar sobressaltado. Parecia a João Maurício que, afora as sentinelas, que se mantinham alerta nos postos avançados, somente ele permanecia vigilante, àquela hora tardia, sentado no chão, com as mãos frias escorando o corpo, que se reclinava para trás. Apesar da marcha longa, não sentia sono nem cansaço. Aquela vigília não seria um aviso de que seu fim se aproximava? Entregava-se às mãos de Deus, convicto de que tomara o partido da boa causa. E alongava para os alcantis a vista insone. A noite, olhada daquela iminência, com as montanhas empinadas sob a luz alvacenta, tinha a imponência inaugural do mundo primitivo, como se Deus houvesse acabado de fazer tudo aquilo. Aqui, além, esguios pinheiros imóveis, perfilados no sopé das encostas, abriam-se no alto, como em gesto de oferenda. Com o passar das horas, a luz adquiria gradações novas. A própria lua, suspensa sobre a crista da serra, dava a impressão de buscar alguma coisa na claridade fosca, com um ar de notívaga assustada.

"A Coroa de Areia", Josué Montello

(Josué Montello nasceu no dia 21 de Agosto de 1917. Morreu em 2006.)

Um banco sob escrutínio

Foto Hernâni Von Doellinger

Bento Prado Júnior 2

Coração de pedra
 
Não tem olhos de ver para a eterna beleza,
o sorriso de Deus que ilumina a existência;
não lhe fala à alma rude a suave pureza
que reponta e sorri nos lábios da inocência;

a flor não o interessa, ou surja na devesa,
onde acaso a plantou a mão da Providência,
ou soberba pompeie, onde o Belo se preza,
requinte de arte pura ou prodígio da ciência.

É que o vezo do lucro, o seu deus verdadeiro,
lhe deu ao coração consistência de pedra
e aos olhos lhe roubou o poder da visão.

Só lhe sobe à alma torpe o ouro, a moeda, o dinheiro...
Templo erguido a Mamona, a piedade não medra
na profunda aridez do seu vil coração.

Bento Prado Júnior

(Bento Prado Júnior nasceu no dia 21 de Agosto de 1937. Morreu em 2007.)

O homem do saco afinal é bom...

Foto Hernâni Von Doellinger

Ferreira Itajubá

Agosto. O claro mês dos meus anos. Que anseio
De ser asa migrante e fugir pelos ares,
Pelos longes do céu, através desses mares,
Em busca do calor do sol de um clima alheio!

Ferreira Itajubá

(Manuel Virgílio Ferreira, ou Ferreira Itajubá, nasceu no dia 21 de Agosto de 1877. Morreu em 1912.)

Domus Municipalis 7

Foto Hernâni Von Doellinger

Dora Vázquez 3

A pombiña de Deus

Ela era unha pombiña branca, moi branca. Branca coma neve. Tan branquiña da pluma coma de alma. Entre a súa plumaxe non se vía ningunha sinal de outra cor. 
Era unha pomba de brancura ideal. De brancura perfecta, sen mancha no corpo nin na alma. Unha "pomba de Deus", como lle chamaba súa nai, que tiña a plumaxe toda pintada de cores. 
A súa nai vira como a pombiña ía medrando, cobríndose de branco, embelecéndose ata ser admirada polas outras pombas que con ela no mesmo niño se criaban. Mais logo, as aves irmás, de plumas coloradas coma a pomba nai, comezaron a mirala con envexa da súa beleza. 
Todo foi porque ningunha delas era branquiña coma ela. Branquiña de todo, coma ela. E todas as do niño querían ser tan brancas coma ela, a pomba que a súa nai chamaba "Pombiña de Deus", por iso, porque era toda branca, boa, e bonita. E xa lles estorbaba no niño; dábanlle picadas co bico no peito, facéndoa alonxarse delas e irse para onde a nai. E onda ela, a pomba choraba, baixiño... 
[...] 

Dora Vázquez 

(Dora Vázquez nasceu no dia 21 de Agosto de 1913. Morreu em 2010.)

Caminho 368

Foto Hernâni Von Doellinger

José Rey González

Infr’a gaitiña,
toca, gaiteiro;
que ¡ai! mentras tocas,
fúxenm’as mágoas
de dentr’o peito.

"Fume de Pallas", José Rey González

(José Rey González nasceu no dia 21 de Agosto de 1874. Morreu em 1957.)

domingo, 20 de agosto de 2017

De costas

Foto Hernâni Von Doellinger

Bispo pede campanha contra pedofilia na Igreja

O título deste texto é mentira, e o que se segue também. O bispo de Viana do Castelo, Anacleto Oliveira, apelou hoje ao Presidente da República para "liderar a mobilização de toda a nação" numa "causa nacional" contra a pedofilia na Igreja, por considerar que o que tem sido feito "não chega".
"Nada há de mais poderoso e eficaz [do] que um povo inteiro unido pela mesma causa, no comum modo de viver e pensar, numa mesma cultura", fez notar o prelado, defendendo que "chegou a hora" de o País "gritar bem alto: basta de pedofilia nos colégios católicos, nos seminários e nas sacristias".
A última parte desta última parte também é inventada. A versão verdadeira, que tem a ver com incêndios e é um bocado de rir, está no jornal Público, que copiou da agência Lusa.
Repiro: o título deste texto é mentira. E é pena.

Como quatro tolos no meio da ponte

Autofoto de ERNESTO BROCHADO

O leitmotiv

O leitmotiv, por exemplo. É gordo, magro, meio-gordo, achocolatado, integral, desnatado, em pó, condensado, enriquecido, de soja, de burra, de barata, de camelo, de tigre, de aveia, de amêndoa, de coco, desmaquilhante, adelgaçante, reafirmante, derramado, -creme ou de colónia? E quanto a calorias?...

Sem mãos a medir

Foto Hernâni Von Doellinger

Décio Pignatari 2

Janeiro/Fevereiro

Nem só a cav
idade da boca

Nem só a língua

Nem só os dentes
e os lábios

fazem a língua

Ouça
as mãos
tecendo a língua
e sua linguagem

É a língua
têxtil

O texto
que sai das
mãos
sem palavras

"Poesia Pois É Poesia", Décio Pignatari

(Décio Pignatari nasceu no dia 20 de Agosto de 1927. Morreu em 2012.)

Se bem me lembro 32

Foto Hernâni Von Doellinger

Cora Coralina 5

Amigo

Vamos conversar
Como dois velhos que se encontraram
no fim da caminhada.
Foi o mesmo nosso marco de partida.
Palmilhamos juntos a mesma estrada.

Eu era moça.
Sentia sem saber
seu cheiro de terra,
seu cheiro de mato,
seu cheiro de pastagens.

É que havia dentro de mim,
no fundo obscuro de meu ser
vivências e atavismo ancestrais:
fazendas, latifúndios,
engenhos e currais.

Mas... ai de mim!
Era moça da cidade.
Escrevia versos e era sofisticada.
Você teve medo. O medo que todo homem sente
da mulher letrada.

Não pressentiu, não adivinhou
aquela que o esperava
mesmo antes de nascer.

Indiferente
tomaste teu caminho
por estrada diferente.
Longo tempo o esperei
na encruzilhada,
depois... depois...
carreguei sozinha
a pedra do meu destino.

Hoje, no tarde da vida,
apenas,
uma suave e perdida relembrança.


"Meu Livro de Cordel", Cora Coralina

(Cora Coralina nasceu no dia 20 de Agosto de 1889. Morreu em 1985.)

Lugares-(in)comuns 274

Foto Hernâni Von Doellinger

Dina Mangabeira 2

Quando desatar o laço
do presente que lhe dei,
não deixe cair o abraço
que dentro dele enviei.

Dina Mangabeira

(Dina Mangabeira nasceu no dia 20 de Agosto de 1923. Morreu em 2000.)

Domus Municipalis 6

Foto Hernâni Von Doellinger

Matias de Lima 2

Recordando

Relembro as lindas tardes de poesia
Passadas docemente à beira-mar;
Passadas na amorável companhia
Dos bons poveiros, corações sem par.
 

A minha vida triste, ao sol sem manchas,
Foi bela! O mar regia a sua orquestra.
Com os poveiros encostados às lanchas,
Eu me entretinha em fraternal palestra.
 

De quando em quando ouvia aos mais idosos
Narrações de trabalhos singulares:
Inclemências, naufrágios pavorosos
Que levavam o luto a tantos lares!
 

Quanta vez comparava a sua lida
Com a dos poetas! Uns, do mar profundo
Extraindo alimento para a vida...
Outros, da alma febril, luz para o mundo!
 

Uns, engolfados nesse mar fatal;
Outros, por infortúnios perseguidos,
Nautas da dor no pélago do ideal!
Tanta vez soçobrados e vencidos!

Matias de Lima

(Matias de Lima nasceu no dia 20 de Agosto de 1885. Morreu em 1970.)

O homem do leme

Foto Hernâni Von Doellinger

sábado, 19 de agosto de 2017

E cá vamos morrendo, graças a Deus

Ninguém diga que está livre. Mas. Em Portugal não precisamos do terrorismo alheio para nos refodermos com assinável pertinácia: temos os incêndios, temos árvores carunchosas, temos andores idiotas e temos a Autoridade Nacional de Protecção Civil. E cá vamos morrendo, graças a Deus, que também não somos menos do que os estrangeiros.

P.S. - Temos também, evidentemente, as selfies com o Presidente da República.

A água

Foto Hernâni Von Doellinger

Bolinhos de bacalhau no Tarrenego! 5

Carolino, sempre!
O Naninho Carolino, que é solteiro militante e uma jóia de moço, é Carolino por causa da avó, que era a Senhora Carolina, casada com o extraordinário Zé de Castro, o nosso poeta cauteleiro, que uma vez mandou a mulher para o hospital com uma sacholada na cabeça. De resto, o Naninho até se chama Hernâni Ferreira Castro e é um dos heróicos resistentes que vão mantendo viva a Associação Desportiva de Fafe, o seu verdadeiro caso de amor. Lembro-me sempre do Naninho (a soprar pelo canto da boca ao peidinho do penteado) quando a problemática é arroz. Carolino ou agulha, eis a questão, e eu não percebo onde é que está a dúvida.
Tomem nota, antes de mais, desta pescadinha de rabo na boca: o arroz carolino é um produto português, nado e criado nos estuários dos rios Sado, Tejo e Mondego, e Portugal é auto-suficiente na produção de arroz carolino. Já o arroz agulha é de origem asiática, quase todo importado. Não vou entrar em contradição com o que já escrevi, não tenho nada contra o que é estrangeiro, sobretudo se for melhor. Mas a verdade é que, se todos comêssemos do nosso arroz, e nós comemos arroz que nem chineses, dávamos um bom empurrão aos produtores nacionais e até podia ser que o preço ao consumidor baixasse.
Mas, patriotismos à parte, o fundamental é que o carolino é o arroz ideal para os pratos tradicionais da cozinha portuguesa. Com uma cozedura a exigir mais acompanhamento, é certo, mas mais cremoso e aveludado na calda final, e absorvendo melhor os condimentos e os paladares dos outros ingredientes, o carolino é a base indispensável para os nossos mais deliciosos arrozes, os malandros: do arroz de polvo ao arroz de tomate, do arroz de marisco ao arroz de bacalhau, do arroz de feijão ao arroz de peixe, do arroz de grelos ao arroz de cabidela, do etc. ao etc.
Quanto ao agulha, é absolutamente recomendado para quem não sabe cozinhar (por exemplo, os novíssimos chefs do arroz de atum, de lata, que lata!) ou, como agora se diz, para quem não tem tempo para estar na cozinha, que é a mesma coisa.
Portanto: carolino, sempre! E um grande abraço para o Naninho.

P.S. - Publicado originalmente no dia 29 de Setembro de 2011.

Apetecia-me bater-lhes...
Deixei passar umas horas, para não dizerem que reagi a quente. Pensei bem no assunto, pesei os prós e os contras, medi os assim assins e os vice versas. Estou calmo e consciente das dramáticas consequências que este meu texto pode vir a provocar a nível nacional e internacional, mas há alturas na vida de um homem em que um homem tem que ser homem, venha quem vier, doa a quem doer e chova o que chover. As polémicas a mim não me assustam, antes pelo contrário. E eu vi. Eu estava lá e vi, com estes dois que hão-se ser cremados. Vi um jovem casal a comer bacalhau assado na brasa com batatas fritas. Batatas fritas, estão a perceber? Batatas fritas! Perante tão dantesco espectáculo, tenho ou não tenho direito à minha dose de indignação? Pois é claro que tenho, muito obrigado.
Fui aí a um sítio que faz o melhor bacalhau assado de Portugal e, portanto, do mundo. É servido com batata cozida (é claro), coberto com cebola e azeitonas e generosamente regado com um azeite e alho tão extraordinário que só apetece dar banho ao pão. Para cumprir todos os meus cânones, falta-lhe o ovo cozido, é certo, mas esta é uma falha que eu relevo com todo o gosto.
Na mesa ao lado, o jovem casal também estava no bacalhau. Acompanhado por cerveja, uma a dividir pelos dois, logo no berço do alvarinho e do trajadura. Eu ia perdendo o apetite! Mas o pior ainda estava para vir. E veio: uma travessa de batatas fritas, porque as cozidas não lhes serviam - ficaram todas - ou então nunca tal tinham visto.
Ainda pensei desculpá-los. "Está bem, são espanhóis (não consegui sequer considerá-los galegos, era doloroso demais para mim), estes tipos não percebem nada disto". Mas não desculpei. E é preciso que se note que eu sou pela livre escolha. Para mim, cada um come do que gosta. Mas há comportamentos que, por escandalosos, devem ser guardados para o recato do lar. Eu próprio já comi bacalhau assado com feijoada à transmontana, mas foi em casa de amigos. Nunca por nunca o faria em público. Haja decoro! Para além do mais, gastronomicamente falando, a feijoada com o bacalhau na brasa é uma extravagância, enquanto que a batata frita não passa de uma indigência.
Apetecia-me bater-lhes. E ia bater-lhes, mas

reparei que um cliente, três ou quatro mesas à minha frente, estava a sentir-se indisposto, com a mulher já a pé, amparando-o e implorando auxílio com os olhos. Esqueci o resto. Vi ali a oportunidade por que esperei toda a minha vida. Pousei os talheres, cheio de classe, e preparava-me para levantar-me, ainda com mais classe, quando um atrevido se me antecipou pela direita e se dirigiu à senhora, de forma calma e discreta, dizendo exactamente o que eu ia dizer:
- Desculpe, eu sou médico. Então o que é que se passa? Posso ajudar?
Usurpador de merda! Apetecia-me bater-lhe. Aquela frase era minha. Minha! Aos anos que ando a ensaiar, a ver filmes e séries. Eu diria aquilo muito melhor. A única vantagem do gajo é que era médico...

P.S. - Publicado originalmente no dia 3 de Outubro de 2011.

O fogo

Foto Hernâni Von Doellinger

Haroldo de Campos 2

O instante

o instante
é pluma

seu holograma
radia estável

como quem olha pelo cristal
do tempo

feixe fixo
de luz

(já não se vê se o olho deixa sua seteira)

prisma

o sol
chove
de um teto
zenital

elipse: um estilo de persianas


"Signatia Quasi Coelum/Signância Quase Céu", Haroldo de Campos 

(Haroldo de Campos nasceu no dia 19 de Agosto de 1929. Morreu em 2003.)

Domus Municipalis 5

Foto Hernâni Von Doellinger

João Lins Caldas

[Eu sou aquele que acordou chorando]

Eu sou aquele que acordou chorando,
E das horas amargas, imprudentes.
Vim num negro país de velhas gentes
E deixei o mais duro, já por brando.

Meu coração foi lágrima rolando
E deturpado corpo entre os mais dentes...
Vejo os dias de fogo, reluzentes,
E tudo as garras para o negro bando.

Gemendo no gemente deturpado,
A alma alastrada e para si ferida,
Toda a estrada a crescer e sempre abrolhos.

Vi-me no mundo e pelo mundo entrado
- Coração com pavor dentro da vida,
- Mocidade... com lágrimas nos olhos.

"Poeira do Céu e Outros Poemas", João Lins Caldas

(João Lins Caldas nasceu no dia 1 de Agosto de 1888. Morreu em 1967.)

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

A poesia é uma coisa muito bonita

Banda

Banda
do casaco,
banda gástrica, banda magnética,
banda desenhada, banda do cidadão, banda cromática,
banda larga, onda curta, Banda Miranda, The Band,
banda sonora, Banda Musical de Trajeitos de Baixo

cara à banda, a Outra Banda, pôr de banda,
vai àquela banda

embandeirar em arco, abandonar o barco

bandeira, bandarra,
bandarilha, bandeja,
bandolete, bandó, bandado,
bandeirada, bandeirante, bandeirinha,
bandeirola

bando, bandolim,
bandido, bandoleiro,
bandalheira, debandada

bandulho

a banda abunda,
abana a bunda.

Red in blue

Foto Hernâni Von Doellinger

Quem está de fora racha canhotos

Deixemo-nos de tretas: o lugar do árbitro assistente é na bancada.

Domus Municipalis 4

Foto Hernâni Von Doellinger

Zuca Sardan

Drama nos bastidores 

O palhaço afinal
muito sem graça
era mesmo
além de careca
ladrão de mulher:
Só numa matinê
sumiu com cinco
bem gostosinhas...

Chamaram o delegado
que prendeu por engano
o domador de leões.

O palhaço se esbodegou
de rir e rolou
no camarim dos fundos
com duas mulheres nuas
e um prato de goiabada...
até o macaco
andou tirando umas casquinhas...

Este mundo anda mesmo
uma falta de vergonha...


"Ás de Colete", Zuca Sardan 

(Zuca Sardan, nome literário de Carlos Felipe Alves Saldanha, nasceu o dia 18 de Agosto de 1933)

Caminho 367

Foto Hernâni Von Doellinger

Antônio Americano do Brasil

Tarde

Pálida e suave a tarde é uma hortência azulada decorando o infinito;
as árvores têm prece no doce murmúrio;
a alma inteira enlanguesce diante do panorama e chora o eterno nada;

e no silêncio escuto a harmonia arrancada do próprio coração...
sinto que nele cresce a asa mística dum cisne muito alvo

e desce afagando meu sonho em trio de alvorada;

e morre lento e lento o dia melancólico...
nuvens na tela azul passeiam erradias...
escondendo-se além nervosas...
fugidias...
prisioneiro do espaço, o corpo da lenda eólico na imensa antena abraça a vida...
o amor...
as lousas...
velam meu coração a tristeza das cousas.

"Nos Rosais do Silêncio", Antônio Americano do Brasil

(Antônio Americano do Brasil nasceu no dia 18 de Agosto de 1891. Morreu em 1932.)

Lugares-(in)comuns 273

Foto Hernâni Von Doellinger

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Morrer cedo, sim, mas o mais tarde possível

Que havia de morrer cedo - dizia, angustiado, desde que fizera 25 anos. E estava coberto de razão: faleceu aos cento e dois, eram cinco da manhã.

Os passarinhos, tão engraçados 31

Foto Hernâni Von Doellinger

Óscar Ribas 2

O caçador já não falava. Incendido pelo seu sol interior, dardejava pensamentos cáusticos. A escrava, sempre à retaguarda, chorava agora em silêncio, como se sentisse o ardor daquela alma ignescente. Ai, os espíritos não a socorriam! Que mal fizera para tamanho desprezo? Por ser escrava? Ai, também eles a consideravam um bicho! E Deus, igualmente nada, nada fazia por ela! Oh! Se alguma falta cometera, perdoassem-lhe todos! Perdoassem-lhe todos, todos do Além, qualquer culpa ignorada! Ó espíritos, ó Deus, perdão, perdão, perdão! Ai!

"Ecos da Minha Terra", Óscar Ribas

(Óscar Bento Ribas nasceu no dia 17 de Agosto de 1909. Morreu em 2004.)

Baywatch à moda do Porto 6

Foto Hernâni Von Doellinger

António Botto 4

[Anda, vem]

Anda, vem..., porque te negas,
Carne morena, toda perfume?
Porque te calas,
Porque esmoreces,
Boca vermelha - rosa de lume?

Se a luz do dia
Te cobre de pejo,
Esperemos a noite presos num beijo.

Dá-me o infinito gozo
De contigo adormecer
Devagarinho, sentindo
O aroma e o calor
Da tua carne, meu amor!

E ouve, mancebo alado:
Entrega-te, sê contente!
- Nem todo o prazer
Tem vileza ou tem pecado!

Anda, vem!... Dá-me o teu corpo
Em troca dos meus desejos...
Tenho saudades da vida!
Tenho sede dos teus beijos!


"Canções", António Botto

(António Botto nasceu no dia 17 de Agosto de 1897. Morreu em 1959.)

Vida de cão 233

Foto Hernâni Von Doellinger

Fagundes Varela 2

A cruz

                          Estrelas
                          Singelas,
                          Luzeiros
                         Fagueiros,
Esplêndidos orbes, que o mundo aclarais!
Desertos e mares - florestas vivazes!
Montanhas audazes que o céu topetais!
                          Abismos
                         Profundos!
                         Cavernas
                          Eternas!
                         Extensos,
                          Imensos
                          Espaços
                           Azuis!
                    Altares e tronos,
Humildes e sábios, soberbos e grandes!
Dobrai-vos ao vulto sublime da cruz!
Só ela nos mostra da glória o caminho,
Só ela nos fala das leis de Jesus!

Fagundes Varela

(Fagundes Varela nasceu no dia 17 de Agosto de 1841. Morreu em 1875.)

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Bolinhos de bacalhau no Tarrenego! 4

Foto Hernâni Von Doellinger

Adoro, adoro, adoro!
Adoro ver na televisão o trabalho dos jovens e famosos chefs da nouvelle cuisine portuguesa. Adoro!
Adoro ver aquele modo de confecção improvável, os ingredientes inovadores, variados e mínimos, o requinte e a cerimónia, a delicadeza, a anorexia na dose, a obra de arte final, aquela espécie de ilha cubista no meio do prato em branco, adornada com bagas, com ervas inventadas, com salpicos e rabiscos de geleias coloridas. Salpicos e rabiscos aparentemente displicentes porém profundamente sábios. Adoro!
Adoro ouvir aquelas palavrinhas francesas, parecem palavras mágicas, nominhos de perlimpimpim. Adoro!
E a frescura?, ui, sobretudo muita frescura! Adoro!
Mal termina o programa, e enquanto ainda está fresco, salto para a cozinha, enfio dois bolinhos de bacalhau da véspera dentro de meio biju ressesso, bebo um copo de verde branco, atiro-me à galinha de arroba que a minha mãe me mandou de Fafe e faço a boa e ancestral arrozada de cabidela. A cabidela monumental e histórica. E vai para a mesa no panelão, fumegante como uma velha locomotiva a vapor. Ah, caralho!, então é que eu me regalo...

P.S. - Escrito e publicado no dia 19 de Agosto de 2011. A foto é posterior, de uma sentida peregrinação ao Bobal.

Sei de sítios
Sou devoto dos prazeres da mesa. Gosto da liturgia de uma boa refeição, em família ou com amigos, gosto de comer, gosto do que é bom, e sei o que é bom. Também sei fazer. Sou um apaixonado pela boa e honesta cozinha portuguesa. Gosto da cozinha portuguesa tal qual ela é, na sua pureza original: tradicional, apurada, robusta, variada, generosa. Um bom prato, uma especialidade daquelas de trás da orelha, é capaz de me fazer andar duzentos ou trezentos quilómetros pelo prazer de o degustar. Sei de sítios que não conto a ninguém, nem sob tortura, e se a tortura não for a da fome.
Enquanto posso (e posso cada vez menos, como a maioria dos portugueses), vou a esses sítios onde já há muito eu e a minha mulher somos tratados como amigos ou família, e com mimos especiais, mas tenho que admitir que é sobretudo a comida que lá me leva. Vou pelo gosto, é este o meu parâmetro de aferição e escolha fundamental.
Mas respeito quem se deixa seduzir por outras variáveis gastronómicas ou paragastronómicas, como, por exemplo, essa coisa tão vaga ou talvez não como é "o serviço" ou "o atendimento".
Um velho compincha doutras vidas mas também da santa trincadeira - nas imortais palavras de mestre Aquilino Ribeiro, colocadas na boca de um abade, pois claro - contou-me que estava um destes dias numa bela jantarada, num grupo de gente boa e interessante, quando um dos convivas alvitrou um próximo repasto a realizar em determinado restaurante, que "tem um excelente serviço"...
O meu amigo, que é um brincalhão mas o outro não sabia, perguntou, com matreirice:
- Excelente serviço, pois... Mas o que é que se come? O que é que é lá muito bom? Uns bolinhos de bacalhau..., uns ossinhos da suã?...
- Quer-se dizer, não sei, tem muita coisa, nada assim de especial, mas o atendimento é óptimo... - colocou-se à defesa o homem da ideia.
- Está bem, mas eu não como serviço, o atendimento não me enche a barriga - insistiu o meu amigo e voltou a insistir, perante o cada vez maior embaraço de quem já se tinha arrependido de ter dado apenas uma sugestão e do resto do pessoal à volta da mesa.
Tudo acabou depois na risota, quando todos perceberam que o meu amigo afinal estava na tanga, e até tiveram sorte porque desta vez, tenho a certeza, ele não arrumou a questão com uma expressão que lhe é muito cara e que, neste contexto, seria algo do género:
- O serviço? Dá-me com o serviço nos

tomates aux gésiers de lapin. Livre de gorduras e lave em duas águas, uma pode ser das Pedras, as moelas de coelho. Meta as moelas de coelho numa marinada feita com sumo de pepino nacional, vinagre balsâmico, azeite de trufa, mel de rosmaninho, gengibre, flor de anis, flor de sal, flor-de-lis, flor-de-lótus e flor-de-ferrari. Deixe a repousar esta marinada dentro de uma embalagem para ovos de codorniz enquanto o ministro da Finanças conta até dez, que é aproximadamente durante duas horas e um quarto. Os ovos de codorniz deviam ter sido tirados antes, agora desfaça-se ao menos das cascas. Lave muito bem os tomates, corte um chapeuzinho numa das extremidades e limpe-os de todas as sementes e nervuras internas. Introduza as moelas de coelho nos tomates, misturando-as com uns pozinhos de queijo com o nome mais arrevesado que encontrar no supermercado. Pegue nos tomates e coloque o chapeuzinho, que vai adornar, de lado, com um pequeno cartão a dizer PRESS. Leve os tomates ao forno durante 180 minutos a 15 graus. Excelente. Está pronto. Retire do forno e deite ao lixo. Aqueça a feijoada que sobrou de ontem e seja feliz.

P.S. - Escrito e publicado no dia 9 de Setembro de 2011. O ministro das Finanças era então o vagaroso Vítor Gaspar.

Lugares-(in)comuns 272

Foto Hernâni Von Doellinger

Millôr Fernandes 5

E, no fim, o decapitado se casa com a perneta. Realmente - uma história sem pé nem cabeça.

Millôr Fernandes

(Millôr Fernandes nasceu no dia 16 de Agosto de 1923. Morreu em 2012.)

Conversa de pé de orelha...

Foto Hernâni Von Doellinger

Mauro Mota

Cantiga de banheiro

A moça vai tomar banho,
banho domiciliar.
A moça não se dispersa
na piscina nem no mar.
A moça entra no banheiro
e torce a chave e o ferrolho
da porta. (Há na fechadura
um olho que chama outro olho.)
A moça vai tomar banho.
Deixa os chinelos no canto.
Perdeu os itinerários.
Solta os cabelos castanhos.

Fica nua. Dela saltam
peitos agressivos de
bicos rubros, insinuantes,
de leite e amor para as bocas
dos babies e dos amantes.
A moça morena espia
dentro do espelho da pia
a exclusivamente sua
liberta beleza nua.

Comprime-se o espelho quando
a moça se distancia.
Na solidão do banheiro,
vê-se emparedada viva
nas paredes de azulejo
e nua fica debaixo
do chuveiro de onde a água
humaniza-se e, acrobata,
dá um pulo da cascata
doméstica com a intenção
de levar a moça longe,
de fazer um filho plástico
no ventre virgem lambido
de esponja e de sabonete.

Quando a branca toalha asséptica
abriu-se na fúria ambiente,
a água já roubara a moça
camuflada pela espuma,
que ia embora pela rua
nadando pela sarjeta
a imagem da moça nua.

"Itinerário", Mauro Mota

(Mauro Mota nasceu no dia 16 de Agosto de 1911. Morreu em 1984.)

Domus Municipalis 3

Foto Hernâni Von Doellinger

Esmeraldo Siqueira

Credo panteísta

Creio em ti, Natureza, que és meu culto.
Creio, sem ritos místicos e altares,
No resplendor pleorâmico dos mares,
Onde assoma a grandeza do teu vulto.


Creio na tua força, e pasmo, e exulto,
Vendo, através de lentos avatares,
A gradação das formas singulares,
Até à maravilha do homem culto.


Creio em tuas florestas, nos teus montes,
Na poesia dos rios e das fontes,
Na beleza da terra reflorida.


Creio nas lindas noites estreladas,
No refúgio das brancas alvoradas,
Na sinfonia universal da vida.


"Caminhos Sonoros", Esmeraldo Siqueira

(Esmeraldo Siqueira nasceu no dia 16 de Agosto de 1908. Morreu em 1987.)

Tocam os sinos da torre da igreja 21

Foto Hernâni Von Doellinger

António Nobre 4

[Vou sobre o oceano...]

Vou sobre o oceano (o luar, de doce, enleva!)
Por este mar de glória, em plena paz.
Terra da pátria somem-se na treva,
Águas de Portugal ficam, atrás.

Onde vou eu? Meu fado onde me leva?
António, onde vais tu, doido rapaz?
Não sei. Mas o vapor, quando se eleva,
Lembra o meu coração, na ânsia em que jaz.

Ó Lusitânia que te vais à vela!
Adeus! que eu parto (rezarei por ela)
Na minha nau catrineta, adeus!

Paquete, meu paquete, anda ligeiro,
Sobe depressa à gávea, marinheiro,
E grita, França! pelo amor de Deus!

"Só", António Nobre

(António Nobre nasceu no dia 16 de Agosto de 1867. Morreu em 1900.)

A hora das gaivotas 14

Foto Hernâni Von Doellinger

Kideniro Teixeira

Os barcos 

Velhos barcos, entre as vagas marinhas
que ascéticos singrais dentro das brumas,
ah, quantas lembranças me vêm, algumas
vezes, causar estas saudades minhas?!


Sois do mar as patéticas ladainhas
rezadas sobre as rendas das espumas
se ergueis as velas, essas brancas plumas
com que varreis o céu pelas tardinhas.

Ao contemplar-vos o perfil umbroso,
esguio e altivo, sôfrego, nervoso,
deixando as angras - pouso nas procelas,

sei que somem no mar brancos estojos
de tristeza sem fim naqueles bojos,
e saudade sem par nas brancas velas.

"Iluminuras da Tarde", Kideniro Teixeira

(Kideniro Teixeira nasceu no dia 16 de Agosto de 1908. Morreu em 2008.)

Caminho 366

Foto Hernâni Von Doellinger

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Rollo de Resende

Da sua viagem
ao Himalaia traga-me
um floco de neve.

"Água Mineral", Rollo de Resende 

(Rollo de Resende nasceu no dia 15 de Agosto de 1965. Morreu em 1995.)

Os meus cromos 31

Foto Hernâni Von Doellinger

Fiama Hasse Pais Brandão

Epístola para Dédalo

Porque deste a teu filho asas de plumagem e cera
se o sol todo-poderoso no alto as desfaria?
Não me ouviu, de tão longe, porém pensei que disse: 
todos os filhos são Ícaros que vão morrer no mar.
Depois regressam, pródigos, ao amor entre o sangue
dos que eram e dos que são agora, filhos dos filhos.

"Epístolas e Memorandos", Fiama Hasse Pais Brandão

(Fiama Hasse Pais Brandão nasceu no dia 15 de Agosto de 1938. Morreu em 2007.)

Tocata y fuga

Foto Hernâni Von Doellinger

Zeno Cardoso Nunes

Arte

Tu estás no meu sangue. E não posso olvidar-te.
Tenho ódio de ti, e no entanto te adoro.
O teu olhar de fogo eu sinto em toda parte
pela terra gelada onde em degredo eu moro.

És tênue como a luz. Em vão tento apertar-te
nos meus braços vazios. E se tu vens, imploro
que te afastes de mim. Mas não posso deixar-te
porque estás no meu ser, clarão de meteoro!

És coveira piedosa e plantas nas feridas
que costumas abrir no âmago das vidas
a semente de luz que diviniza o pranto.

És brancura lirial divinizando o mangue,
és vampiro infernal, e bebes o meu sangue,
e por isso te odeio e te idolatro tanto.

Zeno Cardoso Nunes

(Zeno Cardoso Nunes nasceu no dia 15 de Agosto de 1917. Morreu em 2011.)

Domus Municipalis 2

Foto Hernâni Von Doellinger

João Ribeiro de Oliveira

Última flor do jasmineiro

Não te queixes, querida, deixa o mundo
subjugado ao torvo preconceito:
maldizer nosso amor que é tão profundo,
tão grande, tão sincero, tão perfeito.

Contra este amor que canta em nosso peito
não pode triunfar o ódio iracundo,
o torpe sentimento que é oriundo
da inveja, do egoísmo e do despeito.

Olha em tomo de ti: vê que alegria.
A nossa estória é como um jasmineiro
em floração perene, dia a dia.

Foi linda a flor que despontou primeiro.
Depois, uma outra flor já lhe seguia.
E, agora, a última flor do jasmineiro.


João Ribeiro de Oliveira 

(João Ribeiro de Oliveira nasceu no dia 15 de Agosto de 1993.)

Lugares-(in)comuns 271

Foto Hernâni Von Doellinger

Bernardo Guimarães 3

Elixir do pajé

Que tens, caralho, que pesar te oprime
que assim te vejo murcho e cabisbaixo
sumido entre essa basta pentelheira,
mole, caindo pela perna abaixo?

Nessa postura merencória e triste
para trás tanto vergas o focinho,
que eu cuido vais beijar, lá no traseiro,
teu sórdido vizinho!

Que é feito desses tempos gloriosos
em que erguias as guelras inflamadas,
na barriga me dando de contínuo
tremendas cabeçadas?

Qual hidra furiosa, o colo alçando,
co'a sanguinosa crista açoita os mares,
e sustos derramando
por terras e por mares,
aqui e além atira mortais botes,
dando co'a cauda horríveis piparotes,
assim tu, ó caralho,
erguendo o teu vermelho cabeçalho,
faminto e arquejante,
dando em vão rabanadas pelo espaço,
pedias um cabaço!

Um cabaço! Que era este o único esforço,
única empresa digna de teus brios;
porque surradas conas e punhetas
são ilusões, são petas,
só dignas de caralhos doentios.
Quem extinguiu-te assim o entusiasmo?
Quem sepultou-te nesse vil marasmo?
Acaso, pra teu tormento,
indefluxou-te algum esquentamento?
Ou em pívias estéreis te cansaste,
ficando reduzido a inútil traste?
Porventura do tempo a destra irada
quebrou-te as forças, envergou-te o colo,
e assim deixou-te pálido e pendente,
olhando para o solo,
bem como inútil lâmpada apagada
entre duas colunas pendurada?

Caralho sem tesão é fruta chocha,
sem gosto nem chorume,
linguiça com bolor, banana podre,
é lampião sem lume
teta que não dá leite,
balão sem gás, candeia sem azeite.

Porém não é tempo ainda
de esmorecer,
pois que teu mal ainda pode
alívio ter.

Sus, ó caralho meu, não desanimes,
que ainda novos combates e vitórias
e mil brilhantes glórias
a ti reserva o fornicante Marte,
que tudo vencer pode co'engenho e arte.

Eis um santo elixir miraculoso
que vem de longes terras,
transpondo montes, serras,
e a mim chegou por modo misterioso.

Um pajé sem tesão, um nigromante
das matas de Goiás,
sentindo-se incapaz
de bem cumprir a lei do matrimônio,
foi ter com o demônio,
a lhe pedir conselho
para dar-lhe vigor ao aparelho,
que, já de encarquilhado,
de velho e de cansado,
quase se lhe sumia entre o pentelho.
À meia-noite, à luz da lua nova,
co'os manitós falando em uma cova,
ao som de atroz conjuro e negra praga, 
compôs esta triaga
de plantas cabalísticas colhidas,
por sua próprias mãos às escondidas.

Esse velho pajé de piça mole,
com uma gota desse feitiço,
sentiu de novo renascer os brios
de seu velho chouriço!

E ao som das inúbias,
ao som do boré,
na taba ou na brenha,
deitado ou de pé,
no macho ou na fêmea
de noite ou de dia,
fodendo se via
o velho pajé!

Se acaso ecoando
na mata sombria,
medonho se ouvia
o som do boré
dizendo: "Guerreiros,
ó vinde ligeiros,
que à guerra vos chama
feroz aimoré",
- assim respondia
o velho pajé,
brandindo o caralho,
batendo co'o pé:
- Mas neste trabalho,
dizei, minha gente,
quem é mais valente,
mais forte quem é?
Quem vibra o marzapo
com mais valentia?
Quem conas enfia
com tanta destreza?
Quem fura cabaços
com mais gentileza?"

E ao som das inúbias,
ao som do boré,
na taba ou na brenha,
deitado ou de pé,
no macho ou na fêmea,
fodia o pajé.

Se a inúbia soando
por vales e outeiros,
à deusa sagrada
chamava os guerreiros,
de noite ou de dia,
ninguém jamais via
o velho pajé,
que sempre fodia
na taba na brenha,
no macho ou na fêmea,
deitando ou de pé,
e o duro marzapo,
que sempre fodia,
qual rijo tacape
a nada cedia!

Vassoura terrível
dos cus indianos,
por anos e anos,
fodendo passou,
levando de rojo
donzelas e putas,
no seio das grutas
fodendo acabou!
E com sua morte
milhares de gretas
fazendo punhetas
saudosas deixou...

Feliz caralho meu, exulta, exulta!
Tu que aos conos fizeste guerra viva,
e nas guerras de amor criaste calos,
eleva a fronte altiva;
em triunfo sacode hoje os badalos;
alimpa esse bolor, lava essa cara,
que a Deusa dos amores,
já pródiga em favores
hoje novos triunfos te prepara,
graças ao santo elixir
que herdei do pajé bandalho,
vai hoje ficar em pé
o meu cansado caralho!

Vinde, ó putas e donzelas,
vinde abrir as vossas pernas
ao meu tremendo marzapo,
que a todas, feias ou belas,
com caralhadas eternas
porei as cricas em trapo...
Graças ao santo elixir
que herdei do pajé bandalho,
vai hoje ficar em pé
o meu cansado caralho!

Sus, caralho! Este elixir
ao combate hoje tem chama
e de novo ardor te inflama
para as campanhas do amor!
Não mais ficará à toa,
nesta indolência tamanha,
criando teias de aranha,
cobrindo-te de bolor...

Este elixir milagroso,
o maior mimo na terra,
em uma só gota encerra
quinze dias de tesão...
Do macróbio centenário
ao esquecido mazarpo,
que, já mole como um trapo,
nas pernas balança em vão,
dá tal força e valentia
que só com uma estocada
põe a porta escancarada
do mais rebelde cabaço,
e pode em cento de fêmeas
foder de fio a pavio,
sem nunca sentir cansaço...

Eu te adoro, água divina,
santo elixir da tesão,
eu te dou meu coração,
eu te entrego a minha porra!
Faze que ela, sempre tesa,
e em tesão sempre crescendo,
sem cessar viva fodendo,
até que fodendo morra!

Sim, faze que este caralho,
por tua santa influência,
a todos vença em potência,
e, com gloriosos abonos,
seja logo proclamado
vencedor de cem mil conos...
E seja em todas as rodas,
d'hoje em diante respeitado
como herói de cem mil fodas,
por seus heróicos trabalhos,
eleito rei dos caralhos!

"Elixir do Pajé - A Origem do Mênstruo - A Orgia dos Duendes", Bernardo Guimarães 

(Bernardo Guimarães nasceu no dia 15 de Agosto de 1825. Morreu em 1884.)