segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Chester, muito mais do que ajudante de xerife


Matt Dillon era o xerife de Dodge City, e Chester o seu leal ajudante. Naquele tempo todos queriam ser Tarzan ou Mandrake, Buck Jones ou Fantasma, Mascarilha ou Cisco Kid. Os "artistas". Mas o Álvaro escolheu modestamente ser Chester, actor secundário, e assim se rebaptizou num involuntário equívoco cheio de ironia: na verdade, Álvaro Moreira Mendes nasceu para ser primeira figura, protagonista. E foi. No seu ofício de indústria, no movimento associativo, na intervenção cívica, na amizade fraterna e íntegra, foi sempre dos melhores, um fafense excelentíssimo, um homem maior do que o próprio nome, maior do que a alcunha sacada dos livrinhos de cobóis, maior do que o lugar que lhe queiram dar os menestréis da história recente de Fafe, tão desperdiçada em umbiguismos e bagatelas, maior do que melhor ou pior pensem dele. Acerca da opinião dos outros a seu respeito, creio, aliás, que o Chester não se coibiria de dizer, alto e bom som: caguei!!! E diria alto e bom som porque não sabia falar de outra maneira...
Onde o Álvaro chegasse, constava. Ele encarregava-se de avisar logo à entrada, por entre raios e coriscos, avançando como um tornado de grau cinco, a enorme mão calejada e aberta desbravando caminho, oferecendo-se para um abraço, para uma palmada nas costas à moda antiga. Ser imperfeito como todos nós, mas menos imperfeito do que a maioria de nós, e muito menos imperfeito do que eu, por exemplo, o Chester tinha um coração enorme, desmesurado, e uma boca do tamanho do coração. Fazia amigos com a mesma facilidade com que fazia inimigos. E também deu alguns pontapés na vida.
O Chester era generoso, impulsivo, excessivo e puro. E amiúde foi a primeira e principal vítima da sua generosidade sem peso nem medida. Era um bom selvagem, uma força da natureza.
Era meu amigo. Forjámos a nossa cumplicidade no tasco, evidentemente. Nas tardadas de Inverno passadas à volta da braseira na cozinha da Dona Isabel, no Toninho Nacor, onde eu, com os bolsos cheios de cotão, ia levado pelo tio Américo. Em 1976, Barcelos acolheu o Campeonato da Europa de Hóquei Patins Sub-21 (juniores, chamavam-se então). O Chester falou do assunto. Comprámos duas assinaturas para o torneiro inteiro, e todas as noites lá íamos de Vauxhall até Barcelos por estrada nacional, que era o que havia, víamos os dois ou três jogos do programa, regressávamos a Fafe e eu chegava a casa já de madrugada. Fomos campeões.
Mais ou menos por essa altura o Grupo Nun'Álvares estava instalado no edifício que fora posto da GNR, em frente à Igreja Matriz, e que hoje é, creio não estar enganado, casa paroquial. Ali foi construído um rinque em cimento e organizado, em 1977, o primeiro torneiro de futebol de salão em Fafe. Salão ao ar livre, é preciso que se note. Nunca falhei um jogo. Um dia vou à bilheteira comprar o bilhete do costume, está lá o Chester (o Chester tinha o seu quê de Deus, também estava em toda a parte) e entregou-me um livre-trânsito passado em meu nome e que dizia "Convidado da Organização - Prémio Assiduidade". Resultado: deixei de pagar para entrar e guardo religiosamente aquele cartão, como se fosse um santinho...
Quando terminei a minha felizmente efémera passagem pela tropa, o Álvaro foi a primeira pessoa a oferecer-me um emprego a sério e até já tinha tratado de tudo para eu tirar a carta de condução. Apareceu-me melhor, o Álvaro incentivou-me a aceitar a outra proposta, e ainda hoje não tenho carta.
O Chester alegrava-se quando me via em Fafe. Fazia questão que se soubesse que gostava muito de mim. E a verdade é que eu também gostava muito dele. E no entanto falhei-lhe miseravelmente na altura da vida em que por certo ele mais precisou dos amigos...
Felizes os ignorantes: quem não conheceu o Chester, não sabe o que perdeu. Trabalhador incansável, empreendedor contumaz, o Chester é uma história extraordinária e isto é um humilde lembrete. Álvaro Moreira Mendes. Uma vida que dava um livro, um nome que merece rua.

P.S. - A peculiar fotografia acima chegou-me às mãos através do Pimenta, outro que tal. Peço desculpa por não identificar o seu autor, mas de momento não sei quem é.

Espero que ao receberes esta 35

Foto Hernâni Von Doellinger

Eneida de Moraes 2

[...]
Operando minhas rugas, eu poderia depois pensar sem que outras rugas nascessem, ou a operação me proibiria, cassaria meu direito a pensar? A quem estaria enganando sem rugas, a mim ou aos outros? E se depois da operação plástica eu ficasse com uma cara imbecil se bem que formosa? Se eu me procurasse e não me encontrasse? Pensei em minha mãe muito jovem ensinando que o importante é ter sempre saúde mental, física e moral. Pensei em George Sand dizendo: - "Quando me examino vejo que as duas químicas paixões de minha vida foram a maternidade e a amizade." Com essas duas paixões quantas rugas terão nascido naquela tão fabulosa mulher?
De qualquer modo, cumprimentemo-nos: dentro em breve, neste país, com as operações plásticas a preço módico - cinquenta mil cruzeiros -, não mais haverá brotinhos, balzacas ou coroas. Infelizmente a divisão de classes continuará por algum tempo, e por isso no Brasil daqui a pouco só serão velhas as mulheres trabalhadoras como eu e centenas de outras, e as mulheres operárias, aos milhares.
Manteremos as rugas: elas contam nosso destino.

 "Aruanda", Eneida de Moraes

(Eneida de Moraes nasceu no dia 23 de Outubro de 1904. Morreu em 1971.)

The Way 411

Foto Hernâni Von Doellinger

Xervasio Paz Lestón

Vinte anos

¡Vinte anos sin xusticia
baixo silentes campas!
¡Na espera, en tanto afoga
tombal silencio o chau da pátrea!…
Catro lustros
na agarda,
rilando nos sartegos
a impodencia dos xustos contra a infamia.
¡Catro lustros clamando
castigo pra canalla!

[...]

Xervasio Paz Lestón

(Xervasio Paz Lestón nasceu no dia 23 de Outubro de 1898. Morreu em 1977.)

Estou mesmo a ver o filme 76

Foto Hernâni Von Doellinger

Domício da Gama 2

Os olhos de Joanita
São pretos como carvão...

Fora ela que lha ensinara, em pequenino. Vinha de tão longe a cantiga do Mineiro da serra! Vinha de antes das tristezas dela... Cerrou-se-lhe a garganta e retomou a estrada.
Já ia pondo a mão à cancela do campo do capitão Rosa, quando um tiro de canhão atroou os ares; depois outro e outro e em seguida um estrondo prolongado, como o de uma casa desabando.
Maria sem Tempo pensou na guerra. Chegara enfim! A artilharia destruía as grossas muralhas da casa da fazenda. Só lhe admirava aquele silêncio depois da catástrofe. Deu a volta para ir espreitar pela outra cancela, e não entendeu mais nada, quando viu a casa em pé, o gado no campo e na lombada do Morro do Cantagalo e o eito de escravos no trabalho, manejado as enxadas, em que o sol faiscava. Ali estava tudo em paz; no céu nem uma nuvem quebrava a dureza do azul implacável: donde vinha então aquele troar de canhões?

"Histórias Curtas", Domício da Gama

(Domício da Gama nasceu no dia 23 de Outubro de 1862. Morreu em 1925.)

A cidade das traseiras 45

Foto Hernâni Von Doellinger

Firmino Rodrigues da Silva 2

[...]
Ainda ontem pendente do meu seio
Com sorrisos aos beijos respondias
Que amor de mãe nos lábios te arroiava.
De mil aromas perfumada a brisa
Embalava teu berço na palmeira,
E as rosas das campinas desfolhavam-se,
Porque teu vímeo leito amaciassem:
Oh! de meus filhos, filho o mais prezado;
Oh! meu anjo, por que me abandonaste?...
[...]

"Nénia", Firmino Rodrigues da Silva 

(Firmino Rodrigues da Silva nasceu no dia 23 de Outubro de 1816. Morreu em 1879.)

domingo, 22 de outubro de 2017

Globetrotter 6

Foto Hernâni Von Doellinger

Xoán Vicente Viqueira

Galegos, amade a vosa língua, porque ela é un rico tesouro oculto! Amádea, faládea, cultivádea: desenterrade o tesouro que garda o gigante alarbio da tiranía.
Fonte da fraternidade universal, únenos cos pobos de raza afin, co'os que teñen os mesmos verbes e a mesma historia, co'os que se espallaron pol-os mares en linda coroa.

"A Nosa Língua", Xoán Vicente Viqueira

(Xoán Vicente Viqueira nasceu no dia 22 de Outubro de 1886. Morreu em 1924.)

Caminho 410

Foto Hernâni Von Doellinger

Mário Faustino

O mundo que eu venci deu-me um amor

O mundo que eu venci deu-me um amor,
Um troféu perigoso, este cavalo
Carregado de infantes couraçados.
O mundo que venci deu-me um amor
Alado galopando em céus irados,
Por cima de qualquer muro de credo.
Por cima de qualquer fosso de sexo.
O mundo que venci deu-me um amor
Amor feito de insulto e pranto e riso,
Amor que força as portas dos infernos,
Amor que galga o cume ao paraíso.
Amor que dorme e treme. Que desperta
E torna contra mim, e me devora
E me rumina em cantos de vitória...

Mário Faustino

(Mário Faustino nasceu no dia 22 de Outubro de 1930. Morreu em 1962.)

Lugares-(in)comuns 286

Foto Hernâni Von Doellinger

Abílio Barreto 2

Por que me negas um beijo,
usurária de meiguices?
Se fosse teu meu desejo,
dar-te-ia quanto pedisses...


Ser feliz... Em que consiste
da vida o anelado bem?
Acaso existiu ou existe
feliz, na verdade, alguém?


Duas pérolas - teus seios -
com dois rubis engastados.
Num desvario de anseios,
hei de possuí-los, roubados...


Abílio Barreto 

(Abílio Barreto nasceu no dia 22 de Outubro de 1883. Morreu em 1957.)

Estou mesmo a ver o filme 75

Foto Hernâni Von Doellinger

José Duro 5

Doente

Escrevo e choro; dói-me a alma; tenho febre
Não sei a quantos graus - calor insuportável;
- moderno Lázaro - oh que vida miserável
Eu vivo aqui, doente e só, no meu casebre.

Agora compreendo a dor de não terlar
E a dor de viver só - desventura tamanha!
É ser mais triste do que os cardos da montanha,
As urzes do caminho e as noites sem luar...

Meus tempos de criança! e fui fadado assim!
A minha mocidade é como que um deserto;
Não creio que haja alguém que possa amar-me, enfim
E Deus, se Deus existe, odeia-me decerto...

Confesso que estou pronto, e, se me vejo ao espelho,
Descerra-se-me a boca em risos de desdém...
Imagem do que fui - eu nunca fui ninguém -,
E, ó má fatalidade, encontro-me hoje um velho.

Cavou-me a dor na face as rugas do desgosto,
Meus olhos de chorar vão-se tornando cegos,
E quando os chamo, a ver aquilo que dá gosto,
Escondem-se na treva assim como os morcegos...

Dilui-se-me o pulmão e sai-me pela goela
À força de tossir bastante enrouquecida,
E se inda vivo assim é porque a minha vida,
Amarga como é, não posso dispor dela.

Porque a verdade é esta: a vida que se arrasta
Do nada até à flor, do verme até à pedra,
É sempre a mesma vida incómoda, nefasta...
Que a dor do universo em toda a parte medra.

Assim, talvez um dia, eu, que prefiro a Lua
A tudo quanto é bom, a tudo quanto é são,
Me torne por destino em pedra duma rua,
Que a multidão acalque, a doida multidão.

Talvez eu venha a ser a flor dum cemitério;
A estrela do azul, areia do oceano;
A vida não tem fim como o destino humano,
E, se o não-ser é tudo, o nada é um mistério...

E eu que era, noutro tempo, enérgico, robusto,
Quando no meu jardim floriam as roseiras,
Padeço horrivelmente, já respiro a custo,
E a minha tosse lembra a reza das caveiras...

Quem sabe lá! talvez nas grutas do meu ser
A morte agora esteja abrindo algum jazigo...
E os vermes por desgraça escutem o que eu digo,
Vivendo dentro de mim sem eu os perceber.

Que negro mal o meu! estou cada vez mais rouco!
Fogem de mim com asco as virgens de olhar cálido...
E os velhos, quando passo, vendo-me tão pálido,
Comentam entre si: - coitado, está por pouco!...

Por isso tenho ódio a quem tiver saúde,
Por isso tenho raiva a quem viver ditoso,
E, odiando toda a gente, eu amo o tuberculoso.
E só estou contente ouvindo um alaúde.

Cada vez que me estudo encontro-me diferente,
Quando olham para mim é certo que estremeço;
E vai, pensando bem, sou, como toda a gente,
O contrário talvez daquilo que pareço...

Espírito irrequieto, fantasia ardente,
Adoro como Poe as doidas criações,
E se não bebo absinto é porque estou doente,
Que eu tenho como ele horror às multidões.

E amando doidamente as formas incompletas
Que às vezes não consigo, enfim, realizar,
Eu sinto-me banal ao pé dos mais poetas,
E, achando-me incapaz, deixo de trabalhar...

São filhos do meu tédio e duma dor qualquer
Meus sonhos de nevrose horrivelmente histéricos...
Como as larvas ruins dos corpos cadavéricos,
Ou como a aspiração de Charles Baudelaire.

Apraz-me o simbolismo ingénito das coisas...
E aos lábios da mulher, a desfazer-se em beijos,
Prefiro os lábios maus das negregadas loisas,
Abrindo num ansiar de mórbidos desejos.

E é vão que medito e é em vão que sonho!
Meu coração morreu, minha alma é quase morta...
Já sinto emurchecer no crânio a flor do sonho,
E oiço a morte bater, sinistra, à minha porta...

Estou farto de sofrer, o sofrimento cansa,
E, por maior desgraça e por maior tormento,
Chego a julgar que tenho - estúpida lembrança -
Uma alma de poeta e um pouco de talento!

A doença que me mata é moral e física!
De que me serve a mim agora ter esperanças,
Se eu não posso beijar as tímidas crianças,
Porque ao meu lábio aflui o tóxico da tísica?

E morro assim tão novo! Ainda não há um mês,
Perguntei ao Doutor: - Então?... - Hei-de curá-lo...
Porém já não me importo, é bom morrer, deixá-lo!
Que morrer - é dormir... dormir... sonhar talvez...

Por isso irei sonhar debaixo dum cipreste
Alheio à sedução dos ideais perversos...
O poeta nunca morre embora seja agreste
A sua aspiração e tristes os seus versos!

"Fel", José Duro

(José Duro nasceu no dia 22 de Outubro de 1875. Morreu em 1899.)

sábado, 21 de outubro de 2017

Estou mesmo a ver o filme 74

Foto Hernâni Von Doellinger

Microcontos & outras miudezas 52

Procuro animal de estimação que me adopte
Os esfomeados, os rotos e os nus, os desempregados de curta, média e longa duração, os tesos por nascimento e os falidos, os velhos mijados e demenciados, os desdentados, as úlceras varicosas, os bêbados e os violentos, os sós, os caloteiros certificados, as prostitutas evidentes, os mendigos profissionais ou simpatizantes, os sem-abrigo, os sem-reforma e os sem-nada, os pretos de todas as cores e os ciganos de uma forma geral vão finalmente poder entrar nos restaurantes se forem levados por animais de estimação. É de lei. Ficou resolvido na Assembleia da República

 Falar pouco e bem, quase não há quem
"Atenção: devido a um erro de sinalização, o metro foi obrigado a fazer uma paragem brusca. Se alguém se magoou, é favor entrar em contacto com o agente de condução". O "agente de condução" da Metro do Porto que assim falava pelos altifalantes internos para os passageiros da viagem Matosinhos Sul-Estádio do Dragão, aqui atrasado, era uma mulher, e não cuide o Sr. Arroja que eu estou no gozo. Não estou.
Em trinta palavras exactas, a senhora condutora disse tudo o que era necessário ser dito naquele momento, com objectividade, sem eufemismos nem semânticas, num português escorreito, directo, universalmente compreensível, eficaz. Responsável. A assunção do "erro de sinalização" e da "paragem brusca", a preocupação imediata com os passageiros. Mas ninguém se magoou.
Pensei: que exemplo extraordinário para os nossos comunicadores de merda, em tempos de fogo e cinza - governantes, ex-governantes, candidatos a governantes, candidatos a candidatos a governantes, políticos de uma forma geral, altos irresponsáveis, baixos responsáveis, autoridades civis, militares e religiosas, minhas senhoras e meus senhores, telecomentadores, radiofloricultores, trolhas conversadores, politólogos, vendedores de retroescavadoras com luzinhas, enchedores de chouriços, especialistas em sarrabulho e fumeiro, jornalistas folcloristas e endrominadores para todo o serviço, que falam, falam, falam, não fazem nada (como diria o Ricardo Araújo Pereira), e eu nunca sei o que é que eles dizem...

Há males que vêm por mal
Atropelado pela porta giratória do hospital, partiu o braço direito. E é para o lado que ele dorme melhor. Infelizmente.

Combustão espontânea... e organizada
Os incêndios por combustão espontânea acontecem, mas, ao contrário do que o próprio nome indica, às vezes dão algum trabalho a organizar. Lembram-se ou já ouviram falar das populares manifestações espontâneas de apoio ao Senhor Presidente do Conselho no tempo de Salazar? Manifestações espontâneas, exactamente. Imaginam o que esse teatro a preto e branco implicava de preparação e logística, de aluguer de camionetas e distribuição de letreiros a bem da Nação, de farnéis e garrafões de vinho a encomendar, de reuniões nos grémios e nas corporações, de noites sem dormir por parte de presidentes de junta, regedores, párocos fascistas, presidentes de câmara, governadores civis, comandantes locais da Legião Portuguesa e dos Bombeiros, chefes da Polícia e sargentos da Guarda, bufos da Pide, patrões da indústria e caciques de outras marcas?...
Pois com os incêndios é o mesmo. Para que aconteçam espontaneamente, e acontecem, é regra geral preciso que alguém acenda um fósforo. Há coisa de duas semanas fomos dar uma voltinha de mata-saudades pelo Alto Minho. De Esposende para cima, passámos por queimada atrás de queimada com ninguém à vista e à volta. Eu abro a janela, porque gosto daquele cheirinho a Natal antecipado, mas a minha mulher ficou aflita, disse-me que ainda não estávamos na época, que aquilo era ilegal e perigoso, muito perigoso. E se calhar a minha mulher tinha razão...

Lugares-(in)comuns 285

Foto Hernâni Von Doellinger

Américo Facó 2

Os sátiros
 
De corpos nus, por entre a espessa mata, o bando
Dos sátiros se interna em constante procura:
Ora um se adianta, além, na intrincada espessura,
E ora outro mais se afasta - olhos fitos, buscando...


Esse, que tem no lábio o rubescente e brando
E esplêndido frescor de uma fruta madura,
Abre o lábio a sorrir. Vendo aquele a frescura
De uma corrente, bebe a água que vai rolando...


Soa ao longe um rumor! O ardente bando, à espreita,
Aquieta-se. E por fim, loiras, nuas, aflantes,
Vêm as ninfas, a rir, descuidosas, sem vê-los...


E os sátiros, que à sombra esperavam na estreita
Passagem, de repente erguem-se - e os mais amantes
As prendem, lhes cingindo a cintura e os cabelos...

Américo Facó 

(Américo Facó nasceu no dia 21 de Outubro de 1885. Morreu em 1953.)

Der Weg 409

Foto Hernâni Von Doellinger

Lindanor Celina 2

A prima Dominga me levava, ela não podia deixar de comparecer no arraial, tinha quinze vestidos para vestir, para isso trabalhara ano inteirinho.
Mamãe, as tias da Rosa, dona Santinha, iam sentar junto ao leilão. Onde ficavam as senhoras, as moças pendendo para tias. As jovens saíam, em grupo, ou com os noivos ou namorados, já comprometidos, a dar voltas no passeio. Pessoas de respeito, autoridades, grandes cidadãos, não tomavam garapa nem corriam no carrossel. Isto era para o povo do sítio, os rapazes do campo, da Estrada de Ferro. Era quem se divertia no arraial, os colonos, e nós, crianças. 

"Menina que Vem de Itaiara", Lindanor Celina 

(Lindanor Celina nasceu no dia 21 de Outubro de 1917. Morreu em 2003.)

De baixa...

Foto Hernâni Von Doellinger

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Luís Bernardo fala finalmente do que sabe

A guerra dos e-mails FC Porto-Benfica não me interessa nada. Gosto de futebol, embora cada vez menos, sou portista, mas, como já aqui escrevi, o jogo para mim só tem 90 minutos mais os descontos, não dura a semana inteira. Torno, porém, ao assunto por causa de uma inesperada ironia. Luís Bernardo, director de comunicação do Benfica, tem sido muito criticado, sobretudo no interior do universo benfiquista, por vir da política e não perceber nada de bola. Pois bem: o bom do Bernardo, ex-assessor do ex-primeiro-ministro José Sócrates, falou hoje à Rádio Renascença do que realmente sabe: "crime organizado"...

Sardinha luso-espanhola mete ano sabático

Foto Hernâni Von Doellinger

A ameaça era de quinze anos de nem vê-la, mas, vá lá, os cientistas do mar que aconselham a Comissão Europeia afinal exigem apenas que Portugal e Espanha deixem de pescar sardinha, nem uma!, durante um ano. Da maneira que as sardinhas andam, realmente uma merda, trinta anos se calhar também não estaria mal...
Mas depois há outro assunto: e os pescadores?...

Os meus cromos 34

Foto Hernâni Von Doellinger

Nuno de Sampaio 2

Hermetismo
 
Aquela que vem, flor, diadema, pássaro,
E a balança das mãos e as asas dos poemas.


E a neve mais amada quando ela vem, tardia,
E os flocos - pâmpanos de de uma angústia de cristal,
E os passos da morte estalando na areia fina.


Ó flor, penacho de insecto,
Ó neve, diadema do tecto,
Opacas paredes.


E a tesoura do anjo recortando a flor da morte
Na sua exacta ambiguidade.

"O Eterno Instante", Nuno de Sampaio

(Nuno de Sampaio nasceu no dia 20 de Outubro de 1925. Morreu em 2005.)

Globetrotter 5

Foto Hernâni Von Doellinger

Cláudio de Sousa 4

Sentamo-nos num banco de jardim público, ainda sob a influência das palavras quentes de Bedford. Arrisquei-me a lembrar a Nunes o que me dissera de Paris, de suas orgias, de sua bacanal desenfreada. E, entretanto, é onde, justamente, a civilização latina tem seu auge, ao passo que em outros países, como a Itália, a Espanha, Portugal, da repressão dos costumes não resultou progresso algum. O Portugal das conquistas, o Portugal glorioso que, pequenino, conseguira dominar a vastidão de oceanos inexplorados, faleceu beatamente encapuchado num hábito fradesco à porta de uma catedral. A Espanha, a Espanha ferrabrás, contra cujo escudo inamolgável se quebrara a lança do infiel, fenecia nas vielas escuras junto ao nicho dos santos.

"As Mulheres Fatais", Cláudio de Sousa

(Cláudio de Sousa nasceu no dia 20 de Outubro de 1876. Morreu em 1954.)

I want to ride my bicycle 27

Foto Hernâni Von Doellinger

Calane da Silva

Dádiva de palavra

Deram-me água e fogo 
para fazer vida. 
Deram-me a palavra  
para construir o sonho.

"Lírica do Imponderável e Outros Poemas do Ser e do Estar", Calane da Silva

(Calane da Silva nasceu no dia 20 de Outubro de 1945)

Coração com vista para o mar

Foto Hernâni Von Doellinger

Francisco Gaspar 2

Desilusão

Esta é a terceira vez que sobre a mesa
Coloco tira de papel almaço,
Para lembrar do amor toda a fereza,
Escrevo sempre, mas não sei que faço...

Leio um verso, outro leito: que tristeza!
A Musa não me acode! Invoco Tasso!
Parece-me que o Mal tem mais defesa,
E o Bem, ao invés, me tolhe e prende o braço!

Mas, resoluto e cheio de coragem,
Consegui esquecer-te e pôr-te à margem...
Por mais que te arrependas, eu não mudo!

O amor que me deixou desiludido

É como o Lethes, "do torpente olvido:
Quem dele bebe, logo esquece tudo"!


"Calvário do Sonho", Francisco Gaspar

(Francisco Gaspar nasceu no dia 20 de Outubro de 1869. Morreu em 1921.)

Lugares-(in)comuns 284

Foto Hernâni Von Doellinger

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Caro Amigo

Caro Amigo,
Lembrei-me de te escrever hoje. Há que tempos, não é? Andei a mexer nas gavetas, faço isso uma vez por ano, sei lá porquê, e no meio da papelada encontrei meia dúzia de abraços antigos mas ainda em razoável estado de conservação. É o que me resta. Acho que é uma pena deitá-los fora. Vou mandar-te um. Espero que te sirva.
Melhores cumprimentos,
Haniceto.

Só destes, tenho sete 12

Foto Hernâni Von Doellinger

Vinicius de Moraes 5

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos -
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.


Assim será nossa vida:

Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos -
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.


Não há muito o que dizer:

Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai -
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.


Pois para isso fomos feitos:

Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte -
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.


"Poemas, Sonetos e Baladas", Vinicius de Moraes

(Vinicius de Moraes nasceu no dia 19 de Outubro de 1913. Morreu em 1980.)

As meninas... dançam?

Foto Hernâni Von Doellinger

Álvaro Guerra 2

Lave mais branco!

[...]
Comunicamos o que podemos e estamos nisso, outros e inteiros, a caminho da morte em carne viva, com poesia, sexo e sonho. Sobre outro papel ejaculamos nossas potências e impotências e ficamos aliviados até logo, a afirmar que estamos vivos e que ninguém nos engana, a nós, os heróis capazes de aguentar a nossa cobardia.
"... vem mui respeitosamente rogar a Vossa Excelência se digne mandar passar a respectiva autorização. Pede deferimento. Lisboa, tantos do tal."
Recebemos o que imploramos. "Muito agradecidos a Vossa Excelência por já nos ser possível limpar o cu a papel vermelho; somos muitos a agradecer e estamos a pensar numa manifestação espontânea para, publicamente, demonstrarmos a nossa gratidão, se Vossa Excelência autorizar."
O Sol é fonte que brota nesta permanente fotossíntese em nós que andamos debaixo dele em cumpridora compostura, cheia de formas e cores. Mas nunca esquecemos a melhor forma e a melhor cor:
"Dê a volta ao Mundo!"
"Lave mais branco!"
Mas sim, claro, evidentemente, estamos tecnicamente bem preparados para:
"Coma o seu pão todos os dias! Se não tiver com que comprá-lo, roube!"
E assim vamos vivendo. Bem, muito obrigado.
 
"Memória", Álvaro Guerra

(Álvaro Guerra nasceu no dia 19 de Outubro de 1936. Morreu em 2002.)

I want to ride my bicycle 26

Foto Hernâni Von Doellinger

Pedro Rabelo 2

País distante
 
Doido, talvez, se o sol que me alumia
Claro, e belo, e brilhante,
Rompe, a treva a espancar desta noite sem dia;


Fico a sonhar um lúcido e distante
País, onde serena
Fosse toda a existência e todo o amor constante,


Onde, de alegre e tímida camena,
Docemente tranquila,
Pudesse a voz ouvir em meio à noite amena.


Enquanto que também lúcido, a ouvi-la,
Do azul em cada fresta,
Brilhasse um sol assim como o outro sol rutila.


- Um país onde nunca a atra e funesta
Mágoa fosse, enfadonha,
De pranto encher o olhar que o contemplasse em festa.


Lá, julgado feliz como quem sonha,
Por certo que invocara
Tua imagem feliz, e adorada, e risonha.


E se àquela de gozos fonte rara
Tu chegasses ainda.
E se ainda a tua alma esses gozos achara;


Por certo o nome dessa estranha e infinda
Fonte de primaveras,
Tu pediras, e então eu te dissera, Linda:
- "Chama-se este país, o país das quimeras!"


Pedro Rabelo

(Pedro Rabelo nasceu no dia 19 de Outubro de 1868. Morreu em 1905.)

Caminho 408

Foto Hernâni Von Doellinger

Antonio Noriega Varela 2

Ternura
 
Viste os cardos de flores, viste de hedra
as informes paredes dos muíños,
e nos cruceiros de groseira pedra,
suspirando, pendura faroliños...
 
¡Sempre á par da rudeza, esta xoíña
que Jesús nos deixou!: sorrindo, a medo,
fai relucir un astro en cada espiña,
i agasalla con musgo ermo penedo.
 
¡Alma da nosa Terra!, ¡irmá da aurora!,
tu brindas (de bo grado, i en boa hora
pra que hastra as nubes meu fervor te eleve)
 
á onda montuosa, ¡airón de escumas!,
ó tosco berce de guiciños, ¡plumas!,
á hostil ramaxe dos acivros, ¡neve!

"Do Ermo", Antonio Noriega Varela

(Antonio Noriega Varela nasceu no dia 19 de Outubro de 1869. Morreu em 1947.)

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Offshore, se fashavore 47

Foto Hernâni Von Doellinger

Há males que vêm por mal

Atropelado pela porta giratória do hospital, partiu o braço direito. E é para o lado que ele dorme melhor. Infelizmente.

Aqui há gato 40

Foto Hernâni Von Doellinger

Silvio Santiago 2

Era unha inmensa barbaridade o que me acontecía en comparanza coa miña miúda significación. Sen razón algunha estaba no cárcere; sen razón algunha tíñanme incomunicado; sen razón algunha falábanme da morte. E estas senrazóns anguriábanme, porque, certamente, polas mesmas senrazóns podían matarme en calquera intre, como me dixera o tal Alcázar: "Se se comproba que es sindicalista, estás listo". E era fácil a comprobación, dado que eu mesmo o declarara cando me prenderan. Dixen que era sindicalista de Pestaña con igual sentimento de inculpabilidade que diría os anos que tiña, se mo preguntasen. Eu fixérame sindicalista cando calquera podía selo legalmente; e agora resultaba que aquel poder se-lo que un quixera non era máis que unha trampa maliciosamente consentida para logo pedirlle contas ós que nela caesen.
Con este discernimento, sentín nun repente esvaírenseme as resistencias. Fraqueáronme as pernas, os brazos e o espírito.

"O Silencio Redimido", Silvio Santiago

(Silvio Santiago nasceu no dia 18 de Outubro de 1903. Morreu em 1974.)

Triq 407

Foto Hernâni Von Doellinger

Eugénio Tavares

Exilado

Pensa no que há de mais sombrio e triste;
terás destes meus dias vaga imagem;
soturnos céus - como tu nunca viste -
nunca os doirou o halo de uma miragem.

O sol - um sol que só de nome existe -
envolto na algidez e na brumagem
dum frio como tu nunca sentiste,
do nosso sol parece a morta imagem.

Imerge o retransido pensamento
nas noites mais escuras, mais glaciais,
prenhes de raios e vendavais;

verás que anos de dor esse momento
passado na saudade e no penar,
longe do sol vital do teu olhar!

Eugénio Tavares

(Eugénio Tavares nasceu no dia 18 de Outubro de 1867. Morreu em 1930.)

Arrastando a asa

Foto Hernâni Von Doellinger

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Combustão espontânea... e organizada

Os incêndios por combustão espontânea acontecem, mas, ao contrário do que o próprio nome indica, às vezes dão algum trabalho a organizar. Lembram-se ou já ouviram falar das populares manifestações espontâneas de apoio ao Senhor Presidente do Conselho no tempo de Salazar? Manifestações espontâneas, exactamente. Imaginam o que esse teatro a preto e branco implicava de preparação e logística, de aluguer de camionetas e distribuição de letreiros a bem da Nação, de farnéis e garrafões de vinho a encomendar, de reuniões nos grémios e nas corporações, de noites sem dormir por parte de presidentes de junta, regedores, párocos fascistas, presidentes de câmara, governadores civis, comandantes locais da Legião Portuguesa e dos Bombeiros, chefes da Polícia e sargentos da Guarda, bufos da Pide, patrões da indústria e caciques de outras marcas?...
Pois com os incêndios é o mesmo. Para que aconteçam espontaneamente, e acontecem, é regra geral preciso que alguém acenda um fósforo. Há coisa de duas semanas fomos dar uma voltinha de mata-saudades pelo Alto Minho. De Esposende para cima, passámos por queimada atrás de queimada com ninguém à volta e à vista. Eu abro a janela, porque gosto daquele cheirinho a Natal antecipado, mas a minha mulher ficou aflita, disse-me que ainda não estávamos na época, que aquilo era ilegal e perigoso, muito perigoso. E se calhar a minha mulher tinha razão...

Falar pouco e bem, quase não há quem

Foto Hernâni Von Doellinger

"Atenção: devido a um erro de sinalização, o metro foi obrigado a fazer uma paragem brusca. Se alguém se magoou, é favor entrar em contacto com o agente de condução". O "agente de condução" da Metro do Porto que assim falava pelos altifalantes internos para os passageiros da viagem Matosinhos Sul-Estádio do Dragão, aqui atrasado, era uma mulher, e não cuide o Sr. Arroja que eu estou no gozo. Não estou.
Em trinta palavras exactas, a senhora condutora disse tudo o que era necessário ser dito naquele momento, com objectividade, sem eufemismos nem semânticas, num português escorreito, directo, universalmente compreensível, eficaz. Responsável. A assunção do "erro de sinalização" e da "paragem brusca", a preocupação imediata com os passageiros. Mas ninguém se magoou.
Pensei: que exemplo extraordinário para os nossos comunicadores de merda, em tempos de fogo e cinza - governantes, ex-governantes, candidatos a governantes, candidatos a candidatos a governantes, políticos de uma forma geral, altos irresponsáveis, baixos responsáveis, autoridades civis, militares e religiosas, minhas senhoras e meus senhores, telecomentadores, radiofloricultores, trolhas conversadores, politólogos, vendedores de retroescavadoras com luzinhas, enchedores de chouriços, especialistas em sarrabulho e fumeiro, jornalistas tremendistas e endrominadores para todo o serviço, que falam, falam, falam, não fazem nada (como diria o Ricardo Araújo Pereira), e eu nunca sei o que é que eles dizem...

Também faço isto muito bem 5

Foto Hernâni Von Doellinger

Microcontos & outras miudezas 51

Para cus quadrados
Saía muito pouco de casa. Uma dia levaram-no ao restaurante da moda e ele ia morrendo de susto quando precisou de ir à casa de banho e descobriu a sanita rectangular. Pensou aflito, ensarilhado nas calças, antes de fugir pela janela, redonda por sinal: - Será que os cus mudaram de feitio e o meu não foi informado?...

Peso na consciência
A revista contava que a jovem senhora, "28 anos e mãe de duas crianças", "perdeu 20 quilos e está óptima!". Pois Quitério perdeu uma vez a chave da porta de casa, coisa de meia dúzia de gramas se tanto, e só sabe que andou mais de ano e meio com o coração nas mãos... 

É tudo um questão de perspectiva
"Visto de fora, Portugal é moderadamente corrupto", dizia o jornal de referência. Mas visto por dentro está podre, contrapunha Quitério, que, por outro lado, gostou muito da palavra escolhida - moderadamente. "Quer-se dizer - explicava -, para quem nos vê ao longe, somos um país de razoáveis vigaristas, uma pátria de trafulhas assim-assim. Até é amoroso, não é?..."

Os jornais às vezes parecem tolos...
"Cada carro que passa na A24 custa 79 euros ao País", revelava o influente semanário, em título, na sua primeira página. Portanto, é só fazer as contas, um carro custa 79 euros, dois carros custam 158 euros e 200 carros custam 15.800 euros. Ao País. Isto é: quantos mais carros passarem na A24, maior é o prejuízo. Se não passar nenhum, fica ela por ela... 

Lições de História 17: Shakespeare
Nasceu em Stratford-upon-Avon, era o ano de 1564. Depois de ter cumprido uma razoável carreira como poeta, dramaturgo e actor, morreu em 1616 para dedicar-se por inteiro ao sonho de toda a vida: o futebol profissional. Jogou no Walsall, no Sheffield Wednesday, no West Bromwich Albion, no Grimsby Town, no Scunthorpe United, no Telford United e no Hednesford Town. É actualmente treinador do Leicester City, na primeira divisão inglesa.

Música para unhas encravadas
- Isso é música para os meus ouvidos...
- Com efeito, são as Variações Goldberg, de Bach, tocadas pelo András Schiff...

As mulheres de Pedro Arroja
Passa das nove e um quarto. Quatro mulheres esperam junto aos portões fechados do palacete-escritório de Pedro Arroja no número 282 da Avenida de Montevideu, na Foz selecta, Porto rico com vista para o mar. Espanto-me. Penso. Não pode ser, não acredito que o Sr. Arroja tenha mulheres ao seu serviço. A escangalharem o quê?, as mulheres. Na empresa do Sr. Arroja até as senhoras da limpeza devem ser homens, tenho a certeza. Continuo a pensar. As mulheres enganaram-se, foi o que foi, e logo as quatro, porque quando se ajuntam ainda é pior. Perderam-se. Querem entrar noutro palacete qualquer, uns números à frente ou atrás, mas não sabem. Bem o observara o Sr. Arroja, famoso economista e comentador televisivo: as mulheres padecem deveras dessa idiossincrasia tão incorrigivelmente feminil que é a total ausência de sentido de orientação. Pois se não têm pénis nem testículos...  

Vida de cão 249

Foto Hernâni Von Doellinger

António Ramos Rosa 6

[Mas agora estou no intervalo em que]

Mas agora estou no intervalo em que
toda a sombra é fria e todo o sangue é pobre.
Escrevo para não viver sem espaço,
para que o corpo não morra na sombra fria.


Sou a pobreza ilimitada de uma página.
Sou um campo abandonado. A margem
sem respiração.


Mas o corpo jamais cessa, o corpo sabe
a ciência certa da navegação no espaço,
o corpo abre-se ao dia, circula no próprio dia,
o corpo pode vencer a fria sombra do dia.


Todas as palavras se iluminam
ao lume certo do corpo que se despe,
todas as palavras ficam nuas
na tua sombra ardente.


"A Construção do Corpo", António Ramos Rosa 

(António Ramos Rosa nasceu no dia 17 de Outubro de 1924. Morreu em 2013.)

A ponte é uma passagem 26

Foto Hernâni Von Doellinger

Carlos Fernando Filgueiras de Magalhães 2

Mau dito

Amor imperfeito
em teu peito 
finco minha bandeira 
eu que não tenho 
eira nem beira

"Quarks", Carlos Fernando Filgueiras de Magalhães

(Carlos Fernando Filgueiras de Magalhães nasceu no dia 17 de Outubro de 1940. Morreu em 2009.)

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

No tempo em que o SIRESP vinha de motorizada e o fogo ainda não era um negócio

Foto Hernâni Von Doellinger

O mal dos incêndios dominados é que não gostam que lhes chamem isso: dominados. É uma questão de orgulho macho. E então arrebitam e continuam a arder lampeiramente uma semana depois de terem sido decretados dominados aos microfones da CMTV, e a CMTV fica toda contente, porque a CMTV é do ramo do sarrabulho e do fumeiro - disso vive, em lume brando. Os oficiais da Protecção Civil, doutores da mula ruça porém pessoas muito honradas e de boina, que antes deste rico emprego nunca tinham posto os pés num incêndio, tiraram um curso relâmpago de Teatro de Operações, Forças no Terreno, Frentes Activas, Meios Aéreos & Pontos de Ignição e gostam de dar na televisão: o mais que dizem é que os incêndios de manhã, se não estão já dominados, vão entregar-se às autoridades a meio da tarde. Os oficiais da Protecção Civil e os políticos que os pariram inventaram um novo dicionário, especializaram-se em semântica, graduaram-se em eufemística e falam muito do que sabem nada...
Os bombeiros estão lá no centro do vulcão a derreter, mas a eles agora ninguém lhes pode perguntar. E ainda bem, porque lá dentro faz muito calor e o calor dilata os copos. O senhor da boina no camião de Fórmula 1 com ar condicionado é que sabe, e bebe águas das pedras. Geladas. E há briefings bidiários com groselha.

Quando o monte ardia, os bombeiros iam. Os bombeiros voluntários. Naquele tempo ninguém sequer sonhava ganhar dinheiro por fazer de conta que apaga incêndios - eram uns tolos. Não havia rede, satélites, parabólicas ou fibra óptica, ainda não havia radiotelefones ao serviço, os telemóveis ainda não tinham sido inventados e nem sequer havia cabinas telefónicas nos montes. Parece impossível, mas lá em cima, no meio da penedia e das giestas, no Portugal das cabras e dos cabrões, não havia telefone de espécie nenhuma. E não havia SIRESP, graças a Deus. Que se segue: se eram precisos reforços, alguém vinha de motorizada dar o recado ao quartel...

O mal dos incêndios dominados é que não gostam que lhes chamem isso: dominados. Freud explicaria muito melhor do que eu, mas eu, de momento, não tenho o Freud aqui à mão e, com isto do desemprego, perdi-lhe o número do telemóvel. Por outro lado, os incêndios estão desgostosos por lhes terem trocado o nome e mudado o objecto social. Objecto social, sim: o fogo é hoje em dia um negócio como outro qualquer - como a guerra, como a droga ou como a cirurgia plástica, por exemplo -, com múltiplas plataformas de exploração e sinergias que não param de exponenciar-se, a jusante e a montante, um extraordinário negócio que distribui transversalmente milhões e milhões e milhões de euros ou dólares consoante o paraíso, uma indústria em que todos ganham e em que apenas Portugal e os portugueses do rés-do-chão ficamos a perder.

Chamavam-se fogos antigamente e eram para apagar. Exactamente, fogos. E para apagar. Velhos tempos, coisas simples: Portugal ardia menos e não havia tanto teatro... de operações.

P.S. - Minúsculo esclarecimento, provavelmente desnecessário: Teatro de Operações, vulgo TO.

I want to ride my bicycle 25

Foto Hernâni Von Doellinger

Ricardo Guilherme Dicke

À beira do ouvido a música
à beira da cama o sono
à beira do silêncio as palavras
à beira do abismo Deus:
que mais queres além de música sono palavras Deus?

"A Chave do Abismo", Ricardo Guilherme Dicke

(Ricardo Guilherme Dicke nasceu no dia 16 de Outubro de 1936. Morreu em 2008.)

Lugares-(in)comuns 283

Foto Hernâni Von Doellinger

José da Cruz Filho 2

Soneto a Vulda

Viverei! Voltarei, belo Sol que me douras,
Inda a viver aqui, sobre o solo em que vivo:
Meu ser reintegrar-se-á reposto e redivivo,
Com cambiantes feições, pelas eras vindouras.

O cérebro, onde, ó Sol, flâmeos dons entesouras
É que em mim faz radiar o mundo subjetivo,
Inda após ter tornado ao telúrico arquivo,
Há de à luz ressurgir em pulcras fontes louras.

Hei de eterno vibrar na Natureza eterna.
Sempre a despir inquieto a forma transitória
E sempre a renascer, como a serpe de Lerna.

Mas, entre mutações, eclipses e lampejos,
Comigo levarei, ó Vulda, na memória,
Teus olhos, teu amor, teus espasmos, teus beijos...

José da Cruz Filho

(José da Cruz Filho nasceu no dia 16 de Outubro de 1894. Morreu em 1974.)

A cidade das traseiras 44

Foto Hernâni Von Doellinger

Jaime de Altavila 2

Teia de oiro

Imperturbável, cauta, entre os ramos, a aranha
Atentamente vai a fina teia urdindo,
Teia enorme que o Sol, em cheio, de oiro banha
E que se ostenta no alto, assim, tremeluzindo.

Ah! nesse seu labor que paciência tamanha!
Vezes em cada fio, em cada, um tempo infindo!
Mas, que prodígio após! Em rendas da Bretanha
Nada se viu mais delicado, nem mais lindo!

Em redor, nada vê, sempre, a sós, trabalhando...
Pode tudo ser triste, ou ser tudo risonho,
Ela, o fio sutil continua enredando...

Ó Poeta! - Indiferente à vida humana, estranha,
Perfeita, urdes também, uma trama de sonho,
Mas, frágil, talvez, como a teia da aranha!
 
"Poemas de Jaime de Altavila", Jaime de Altavila 

(Jaime de Altavila nasceu no dia 16 de Outubro de 1895. Morreu em 1970.)

domingo, 15 de outubro de 2017

Amor é... 2

Foto Hernâni Von Doellinger

Manuel da Fonseca 5

Fustigado pelas revoadas, o rosto do Palma encrespa-se, o latejar impetuoso do sangue ressoa-lhe nas fontes. E, ao rés da terra, a nortada estrebucha, furiosa. Por toda a parte, das moitas, dos cardo e dos pedregulhos, soltam-se lamentos abafados e terríveis.

"Seara de Vento", Manuel da Fonseca 

(Manuel da Fonseca nasceu no dia 15 de Outubro de 1911. Morreu em 1993.)

I want to ride my bicycle 24

Foto Hernâni Von Doellinger

Agustina Bessa-Luís

João Gomes, conhecido por "Trovador", que casou no Funchal com a filha dum companheiro de Gonçalves Zarco, foi o homem de cuidados e suspiros. Além de vereador da Câmara em 1472, entrou na abundante polémica do Cancioneiro Geral acerca de quem melhor ama: se o que cuida ou o que suspira. Isto não impressionava se não fosse a elegância das trovas, dignas dum pajem do Livro do Infante D. Henrique, que, pelo que se dizia, ele foi. João Gomes da Ilha teve a sorte de produzir bons versos, decerto antes que o cargo de juiz ordinário lhe embotasse a veia poética. "Da lembrança do passado / com desejo de futuro / em o tear do cuidado / se tece mui esforçado / terçopelo verde escuro."

"A Corte do Norte", Agustina Bessa-Luís

(Agustina Bessa-Luís nasceu no dia 15 de Outubro de 1922)

Lugares-(in)comuns 282

Foto Hernâni Von Doellinger

Alcides Maia 2

Iam carnear. A rês, vaquilhona osca de uns dois anos, boa de carnes, comprada ao Bento, já estava presa pelas aspas; escolheram o Jango para matá-la; porém os cinchadores não conseguiam esticar convenientemente os laços e a cena, complicada pelos acidentes do terreno, ia além da expectativa, impacientando a todos, gulosos de carne fresca a chiar ao fogo.
Embolada, a cabeça gacha, de um lado, a língua pêndula, a babar-se em longos fios prateados, ela berrava escornando desajeitadamente o ar. Jango Sousa, que a rodeava, de mangas arregaçadas e de faca em punho, a bainha de couro preto tenteado a bater contra o tirador de vaqueta, reluzente ao sol a folha bem afiada, tinha no rosto, não obstante o hábito, um ligeiro rictus desmentindo-lhe a fleugma. E não se ajeitava, adiantando-se, retrocedendo, passando por debaixo das tranças do couro, indo a ferir e fugindo, à espera de momento oportuno para bem golpear. A uma ordem sua, um dos laçadores passou a trama ao tronco de uma árvore; o outro paleteou o cavalo: as duas cordas vibraram, tensas, no espaço, e a novilha parou, firmando as patas na grama revolta. Decorreu um instante de suprema imobilidade e apenas leves frêmitos percorriam os laços, animando-os de ondulações serpentinas. Queda, a terneira deu azo a que se lhe conchegasse o gaúcho, desgarronando-a, seguro à ponta da cola. Um dos cavalos, arisco, desviando-se, suxou o laço e a osca, apoiada na perna sã, de pelo desenrugado sobre a giba, à arqueadura da espinha, atirou uma violenta marrada, e só depois do cavaleiro dominar a besta foi possível a sangria. Mas, se o homem medira com certeza o jarrete, errou no golpe ao pescoço: ferida, a vaca ainda se manteve em pé, balouçando os cornos entre os laços remitidos e tentando escoucear com a perna retalhada, cujos músculos vãmente retesava; e só ao tirão seco de um dos ginetes abateu, escabujando, um jorro de sangue borbulhante.

"Ruínas Vivas", Alcides Maia

(Alcides Maia nasceu no dia 15 de Outubro de 1878. Morreu em 1944.)

sábado, 14 de outubro de 2017

Também faço isto muito bem 4

Foto Hernâni Von Doellinger

Música para unhas encravadas

- Isso é música para os meus ouvidos...
- Com efeito, são as Variações Goldberg, de Bach, tocadas pelo András Schiff...

Ia-se à Póvoa como quem vai ao Brasil

Foto Hernâni Von Doellinger

O meu avô da Bomba jurava que nunca pôs nem nunca na vida poria pé na praia. Que era muito sol ao desamparo, areia demais para a sua camioneta. Queixava-se: a água estava constantemente molhada e, ainda por cima, salgada. O meu querido avô era "uma pessoa muito doente" e precatada quanto ao sal. Portanto, o sol e o sal. "Se ainda ao menos houvesse a sombrinha de uma árvore", dizia, molageiro, aí que contassem com ele nem que fosse só para a soneca da tarde. Mas o meu avô era um exagerado, um mentirosinho sem tenção de ofensa - e aquela jura eu sabia que era a mangar...
Para o avô da Bomba, como para todo o fafense que então se prezasse, a palavra praia queria dizer Póvoa de Varzim. Exactamente. Ir à praia e ou ir para a praia (conceitos que importa diferençar), era ir à Póvoa ou ir para a Póvoa, via Famalicão. E no entanto o meu avô conhecia também satisfatoriamente os longínquos areais de Ofir, da Figueira da Foz e da Nazaré, o que já não era brincadeira! E de onde é que lhe vinha esta extraordinária mundivivência, este cosmopolitismo fafense tão antes do tempo? Pois bem: o meu avô organizava excursões - dois dias ao Alto Minho, com pernoita em Viana do Castelo, dentro do autocarro, no Largo da Agonia a esbordar de camionetas e parolos como nós, e umas senhoras cá fora a fazerem café de cafeteira em máquinas a petróleo, à luz do petromax até que o sol nascesse; três dias a Fátima. Ano sim, ano não. Partida e chegada no quartel dos Bombeiros, sempre, então na Rua José Cardoso Vieira de Castro, ao lado da garagem do Zé Bastos e entre os dois palacetes. Com as estradas que tinha, Portugal era naquele tempo um país imenso. Ir de Fafe aos Arcos de Valdevez, por aquela altura, era como embarcar por engano numa expedição ao fim do mundo...

O meu avô era um videirinho, já aqui contei. Tinha casa e salário de quarteleiro dos Bombeiros, não sei se era muito ou pouco, mas não perdia oportunidade de fazer dinheiro extra no que lhe estivesse mais à mão: o tasquinho na cave do quartel, os tremoços, os bolinhos de bacalhau e o vinho na Festa da Bomba, a aguardente e o vinho, sempre o vinho, nas sessões nocturnas do cinema ao ar livre na parada das traseiras, muito antes de a sétima arte descer ao campo de futebol, a banca de sapateiro por baixo das escadas que subiam para o salão de festas, umas refeições especiais encomendadas por um certo grupo de amigos, respeitosos admiradores das mãos de ouro da minha avó para a cozinha. Uma vez há cinquenta anos o papa Paulo VI veio a Fátima e pouca gente tinha televisão em casa. No salão dos Bombeiros foram montados um projector e uma tela para a transmissão em directo e em "ecrã gigante", com entradas a pagar. A sala encheu, o dinheiro da receita revertia naturalmente para a Associação Humanitária, mas de certeza que o avô também conseguiu sacar dali algum, nem que fosse a vender rebuçados para a tosse ou cascas de amendois...
Ora é aqui que encaixam as excursões, que os candidatos a excursionistas pagavam em suaves prestações semanais desarriscadas nuns cartõezinhos que o meu avô mandava fazer na tipografia. Isto para aí durante um ano. O avô da Bomba fazia a cobrança aos sábados ou domingos de manhã, não sei precisar. Ia de motorizada e às vezes levava-me, primeiro numa Florett e depois na Lambreta, uma Vespa azul, antes e depois de haver sentidos proibidos nas ruas de Fafe. Para o meu avô nunca houve, o caminho foi sempre o mesmo e tinha sempre razão quando lhe apitavam ou gritavam para não ir por ali. Eu, nem pio...

(A Florett tem muito que se lhe diga em Fafe, era um veículo de pecado, mas por ser verdade aqui declaro que o meu avô nunca foi dado a essas actividades por assim dizer extracurriculares. A Florett calhou-lhe, e só isso...)

Mas as excursões. Eram viagens épicas, cheias de cheirinho bom a merendeiro e muitas paragens para "mudar a água às azeitonas", enjoos e borracheiras de caixão à cova. Cheiravam também a gomitado, a  naftalina, a sapatos novos, a botas ensebadas de fresco, a chulé, a urina, a tabaco, a suor, a desodorizante Lander, a perfume barato, a brilhantina, a laca, a mundo. A coberto da noite soltavam-se uns traques enfeitados com risinhos solertes que ajudavam à festa. A camioneta avariava, pessoas perdiam-se. Cantava-se o "Treze de Maio", o "Queremos Deus" e "O carrapito da Dona Aurora". Rezava-se o terço ao passar a Ponte de Fão, sobre o rio Cávado, porque constava que a estrutura estava a cair de podre. Morreríamos todos muito bem. Na Póvoa as mulheres arregaçavam as saias, os homens arregaçavam as calças e os miúdos ficavam em cuecas ou em pelote, consoante a idade, e todos se agarravam com quanta força tinham à grossa corda que ligava o mar ao areal, brincando aos sustinhos e trambolhões de felicidade histérica ali no sítio onde o mar enrola na areia, que também se cantava.
Sei disto tudo porque estive lá. Que me lembre, fui uma vez a Fátima e outra ao Alto Minho, esta ainda com o meu pai. O meu irmão Lando ainda não tinha nascido. Eu, o Nelo e a Nanda queríamos ir sempre, mas não podia ser. O meu avô não dava borlas, nem aos netos. (Na verdade, o meu avô não dava nada a ninguém. Isto é: dava os bons-dias mas pedia recibo.) Ia portante só um, e no colo da mãe, mais do que isso seria prejuízo...
O meu pai, que gostava de fazer rir a minha mãe, dizia aos dois que ficavam: "Não é preciso chorar, vós também ides. Na sombra..."

Tanto relambório para chegar aqui: herdei do meu avô o horror à praia em dias de sol e gente, mas tenho a árvore que ele reclamava. Encontrei-a em Matosinhos, mesmo ao pé da porta, encostada à esplanada do Lais de Guia. Passo por lá todos os dias e vejo o avô à sombrinha, com os pés mansamente enfiados na areia morna. Gosto de o ver assim, peço-lhe a bênção e beijo-lhe a mão. Sossego as saudades. O avô da Bomba era molageiro e videirinho, forreta do piorio, mas é meu.