terça-feira, 22 de novembro de 2016

Onomástica, toponímia & outros nomes esquisitos 4

                                                                                      Foto Hernâni Von Doellinger

Quando o futebol não era para cátias vanessas
Era uma bola a pinchar e onze contra onze numa luta brava em campo pelado. Naquela altura eu acreditava no futebol. Era o jogo da bola, só isso, mais uma que outra coça aos árbitros, profilaxia que se impunha. Lembro-me dos jogadores com camisas de botões e das chuteiras remendadas e de travessas. O meu coração era amarelo e preto, todo branco de vez em quando, com o azul e branco ainda guardado para segundas núpcias. Lembro-me dos jogadores que nasciam e morriam no clube onde nasceram. Lembro-me de jogadores que verdadeiramente morreriam em campo pelo seu clube, era só dizerem-lhes que era preciso. Lembro-me de jogadores que corriam como se treinassem todos os dias e só treinavam durante o jogo. Lembro-me de jogadores que fugiam da tropa obrigatória para jogar e depois iam presos. Lembro-me de jogadores que chegavam da guerra carregados de paludismo e queriam lá saber. Lembro-me de jogadores que choravam nas derrotas e embebedavam-se nas vitórias, porque era assim. Lembro-me e gosto. Sou um bocado velho, o que se há-de fazer?

Os palavrões futebolísticos com nada dentro não nasceram agora com Luís de Freitas Lobo, neste tempo insosso cheio de periodizações tácticas, champôs, passes de ruptura e espaços entre linhas. Há mestres antes do mestre. E nem vou falar dos estimáveis Gabriel Alves e Rui Tovar. Mas do consagrado Alves dos Santos, que nos deu a "pertinácia" e o "arreganho", e viu um golo "exactamente igual ao golo anterior", quando a Eurovisão estreou as repetições (que era só uma, com um inesperado e mal amanhado R no canto superior direito do ecrã da televisão do Peludo) e ele não sabia. Ou do bom do Mário Wilson, então treinador do Boavista, quando perdeu nas Antas e queixou-se dos golos de "bola parada". José Maria Pedroto, então treinador do FC Porto, disse que não podia ser: bola parada não anda, logo não entra, explicou.

Sou, portanto, antigo. Gosto de futebol. Dos noventa e tal minutos que se jogam em campo, porque para mim um jogo não dura uma semana.

Porém: na bola como na vida, os nomes interessam-me muito. "Diz-me o teu nome, dir-te-ei quem és" - acredito neste ancestral provérbio chinês que acabo de inventar agora mesmo, e não no outro, bem intencionado e de autor incerto, "Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és". Millôr Fernandes explicava bem melhor do que eu o meu ponto de vista: "Judas andava com Cristo. E Cristo andava com Judas"..., ensinava o sábio brasileiro. Estamos então percebidos?
Portanto, dou-me ao trabalho dos nomes. Quando eu era miúdo marcava no jornal os nomes dos jogadores de futebol que me pareciam esquisitos. Ainda não tínhamos chegado à babel que agora é, mas o Marreca, o Camelo, o Cansado, o Repolho, o Chouriça, o Torto, o Maneta, o Sacristão, o Mouco e o Aguardente enchiam-me de alegria as segundas-feiras. Também gostava muito do Araponga, do Alhinho e do Manaca, que uma vez vi em Guimarães a marcar um magnífico autogolo que não tem nada que se lhe aponte. O Penteado, o Careca, o Metralha e o Cascavel já me apareceram fora de tempo, mas isto é tudo nomes só por exemplo.
Com os nomes sublinhados eu fazia equipas que jogavam umas contra as outras, num campeonato de partir a moca, porque eu imaginava os jogadores exactamente conforme o nome, não sei se estão a ver o Marreca a driblar o Sacristão e o Repolho a entrar de pé em riste ao Camelo.

(Não é preciso ir mais longe: sou de Fafe, uma terra que deu ao futebol e ao mundo nomes tão extraordinários como Ricoca, Riga, Piré, Rates, Estafete, Mulato, Zebras, Caganito, Trolas, Feira Velha, Machica, Esparrinhento, Pescoça, Ferradeira ou Mofo. Nomes que são uma primeirinha, do tempo em que o futebol era desporto e jogado por gente de carne e osso.)

Sempre apreciei particularmente os jogadores de um nome só. Mas nome de barba rija, se me faço entender. O Freitas, o Gomes, o Antunes, o Meneses, o Martins, o Ferreira, o Oliveira, o Marques, o Almeida, o Lopes, o Carvalho - eram nomes que me punham em sentido. E se os nomes tivessem bigode farfalhudo, inclusive nas sobrancelhas, então ainda melhor. Nomes assim davam-me segurança, transpiravam autoridade, infundiam Respect. O agente Freitas, o chefe Gomes, o comissário Antunes, o nosso cabo Martins, o sargento Almeida, o capitão Carvalho... - estão a acompanhar-me?

Mas já não há nomes assim da boa e velha casca-grossa, e os bigodes de antanho foram de momento substituídos por falsas barbas jihadistas em caras de sobrancelhas depiladas. Temos agora em campo o Rúben Micael, o Emídio Rafael, o Rui Pedro, o Nuno Henrique, o Mário Rui, o Rui Miguel, o João Mário, o João Paulo, o Paulo Jorge, o Cristiano Ronaldo. Enfim, cátias vanessas...

Onomástico 4
Josué do lavatório,
bebedor retardatário,
por causa do falatório
entrou para o seminário.

Do Brilhante Dias ao António Chora
Peço desculpa. Eu ligo pouco à política, que é o eufemismo que tenho mais à mão para dizer que não ligo à política. Portanto demorei muito a saber que o PS tem um deputado e "secretário nacional" que se chama Eurico Brilhante Dias. Repito: Eurico Brilhante Dias. Primeiro pensei que era a gozar, tipo Jacinto Leite Capelo Rego, mas depois percebi que era a sério (à séria, se lido em Lisboa), e não compreendo o PS.
Onde é que estava escondido este nome e porquê? Porque é que o PS nunca o pôs a render? Este nome vale mais do que duas dúzias de antónios costas, por mais largas que elas sejam e não são. Este nome é um achado, é bom demais para ser verdade e é verdade, é uma bomba, é puxá-lo para cima, upa, upa! Ministrozinho é que era: finalmente no Governo um ministro Brilhante. Brilhante Dias...

E o António Chora, do Bloco de Esquerda e coordenador da Comissão de Trabalhadores da Volkswagen Autoeuropa? Um nome seminalmente talhado para a reivindicação sindical. Porque quem não Chora...

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