quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Festa da Poesia 2016, em Matosinhos


De 7 a 9 de Dezembro, na Biblioteca Municipal Florbela Espanca, em Matosinhos. Leitura de poesia, performances poéticas, lançamentos de livros, oficinas de leitura, poesia e criatividade, versos em stencil nas ruas da cidade, teatro. Convidados, entre outros: Nuno Júdice, Francisco José Viegas, Carlos Alberto Moniz, Manuel Alberto Valente, Maria do Rosário Pedreira, Miguel Guedes, Sónia Balacó, Mundo Segundo, Luca Argel, Mariano Marovatto, Alexandra Gonçalves, Jaime Rocha, Isaque Ferreira, Rui Spranger, Onofre Varela, José Dias Pires e Natália Luiza. Programa completo e toda a informação, aqui.

Vida de cão 172

                                                                                                                 Foto Hernâni Von Doellinger

As dez maiores tangas da História de Portugal 2

2. O sebastianismo. Cuidado! Este é "um mito perigoso", na opinião do professor catedrático e historiador Francisco Ribeiro da Silva. "A expectativa messiânica de um rei (de um ser poderoso) vindo de fora do tempo e que resolverá os problemas do País pode levar à demissão e à desistência de lutar proactivamente pela resolução dos problemas, na esperança de que eles se acabão por resolver", justificava o reputado académico, num texto que publiquei na revista do jornal 24horas sobre "Os 10 maiores mitos da História de Portugal", em Março de 2007.
O Desejado ou Encoberto, o regresso de D. Sebastião, numa manhã de nevoeiro, para salvar a Nação do domínio espanhol de todos os tempos, "é uma ideia muito negativa para o País", alertava também Hélder Pacheco, escritor e historiador portuense. "Desde D. Sebastião que estamos sempre à espera do salvador, quando a salvação nacional está em nós, na nossa energia e no nosso esforço", acrescentava.
A lenda místico-secular cresceu em Portugal na segunda metade do século XVI: D. Sebastião morreu com apenas 24 anos, na Batalha de Alcácer-Quibir, mas o povo não quis acreditar. Virou os olhos para as costas de África e sentou-se à espera do rei morto que haveria de voltar vivo. Até hoje.

Lugares-comuns 451

                                                                                                                  Foto Hernâni Von Doellinger

Guilherme de Azevedo 3

A Cristo

Precisamos, Jesus, se não Te sentes velho,
Que cinjas novamente o resplendor da luz
E venhas explicar a letra do evangelho
A muitos que hoje vês prostrados ante a cruz!


Ainda não cessou, de todo, essa contenda
Que um dia, há muito já, tentaste debelar:
E aqueles que são bons e adoram Tua lenda
Desejavam também ouvir-Te hoje falar.


Apenas ressoasse o Teu verbo indignado,
O látego febril das grandes corrupções,
Iria atrás de Ti um mundo revoltado
Que sente na consciência a luz das redenções.


E embora não houvesse, aqui, outra alma gémea
Da Tua, e tão ungida em bálsamos dos céus,
Havias de encontrar essa alma de boémia
Que sonha uma justiça e sente em si um Deus!


Mas não, não voltes cá: Teu corpo combalido
Não pode suportar os gelos da manhã.
Precisavas de pão, de abrigo e de vestido
E a vida aqui é cara e longo o macadam!


Terias de encontrar, decerto, mil estorvos
No mundo revolvido, e escuta-me, Jesus:
Se não fosses, enfim, comido pelos corvos
Talvez Te fuzilasse um cura Santa-Cruz!


Serias apontado a dedo, muitas vezes,

Como um simples bandido, um agitador feroz,
E haviam de esconder seus ouros os burgueses
Apenas ressoasse, ao longe, a Tua voz!


Depois vinhas achar a par do proletário,
Ao pé do que se inunda em bagas de suor,
Aquele velho Pedro, agora milionário,
E triste por pensar que já esteve melhor!


E perto do ócio vil à sombra do qual medra
O egoísmo feroz que extingue o coração,
Lutando todo o dia o britador de pedra
A quem à noite espera, em casa, um negro pão;


E uns pequenos sem cor; talvez cheios de fome,
Com pouca luz no olhar; atrofiados, nus;
Abrindo os olhos muito à côdea que ele come

E indo-se deitar sem roupas e sem luz!

Assim, deixa-Te estar. O Teu cadáver triste
Recende uma fragrância etérea e divinal,
Enquanto o mundo segue e vai de lança em riste
Sem tréguas combatendo as legiões do Mal!


Tu foste o paladino, o trovador sagrado,
Que falaste do amor, da paz e do perdão,
E o ferro que varou Teu corpo lado a lado
Contudo inda reluz altivo em muita mão!


Nós, hoje, quando em luta erguemos sobre a liça
O gládio vingador das opressões cruéis,
Soltamos, num sorriso, o nome da Justiça,
E há quem saiba morrer sem bênçãos nem lauréis!


Descansa, pois, Jesus! Bem basta que Tu sintas,
Nesse velho sepulcro, o imenso vozear
Dos mineiros sem luz, das legiões famintas,
Que nunca, um dia só, deixaram de lutar,


Mas que hão de enfim vencer, porque a suprema essência
A jorros cai do Céu nas mãos dos Prometeus,
E tanto vai subindo a vaga da consciência
Que um dia há-de abismar-se em nós o próprio Deus!


"A Alma Nova", Guilherme de Azevedo

(Guilherme de Azevedo nasceu no dia 30 de Novembro de 1839. Morreu em 1882.)

Caminho 281

                                                                                                                 Foto Hernâni Von Doellinger

terça-feira, 29 de novembro de 2016

As dez maiores tangas da História de Portugal

1. O milagre de Ourique. E Deus apareceu a D. Afonso Henriques, o bate-na-mãe, e disse-lhe ao ouvido, no meio daquela confusão deveras desagradável da Batalha de Ourique: "In hoc signo vinces". Que quer dizer: "Com este sinal vencerás", mas tinha de ser em latim, porque naquele tempo era assim que o Senhor falava, até ordem em contrário do Concílio Vaticano II. Deus, que era obviamente por nós, os bons, garantiu ao nosso primeiro rei a vitória sobre os exércitos de cinco-reis-mouros-cinco e prometeu-lhe que Portugal seria eterno. E assim foi e será, até ver...
O chamado milagre de Ourique faz parte de uma curiosa lista de petas da História portuguesa, factos, figuras ou ideias que toda a gente acha que aconteceram ou existiram, mas que afinal não passam de aldrabices, ou que então, vendo melhor, não foram bem assim como se conta. A maioria destas mentiras era (é?) ensinada nos bancos das escolas.
Com a ajuda de um conceituado naipe de especialistas, fiz para a revista de sábado do jornal 24horas uma espécie de ranking dos "10 maiores mitos da História de Portugal". Foi em Março de 2007.
A propósito de Ourique, o professor catedrático e historiador Fernando de Sousa não podia ter sido mais categórico: "Está provado que a Batalha de Ourique é uma fraude e o "milagre" é apócrifo", isto é, foi colado à História mais tarde.
Por seu lado, Joel Cleto, arqueólogo, historiador e actual comunicador televisivo no Porto Canal, considerava a Batalha de Ourique (em 25 de Julho de 1137) como "um episódio histórico fulcral na formação da nacionalidade", se bem que realmente "enriquecido", já no século XIV, com a invenção do "milagre". "Trata-se evidentemente de um mito, criado numa época de alguma incerteza quanto ao futuro do País (por causa, por exemplo, das guerras de D. Fernando contra Castela ou da crise de 1383-1385) e que, por contraponto, vinha justificar não só a independência do reino de Portugal, mas também que a sua existência era inevitável face aos desígnios e vontade divinos", explicava então.

 (Mais sobre Afonso Henriques, num registo completamente diferente, aqui)

Mobiliário urbano (propriamente dito) 19

                                                                                                                Foto Hernâni Von Doellinger

Eia!, as fajãs de São Jorge estão na moda... 7

Aqui ninguém morre. "Telefones há aí uns sete, mas não trabalham". No Posto e na Adega do Ferreira estão lá, mas apenas pintados em paredes de casas periclitantes. "Quando acontece qualquer coisa vou lá fora, subo aos Cubres para telefomar a chamar o médico, mas nunca aconteceu nada de grave", diz-nos o guardador de amêijoas. Quando foi do nascimento da filha, "era para sair para fora mas não houve tempo". Chamou uma tia. Quando a tia chegou, "já a rapariga berrava". Outra vez, uma moça estrangeira "trincou-se na cabeça e foi-se aos Cubres chamar o helicóptero". Estiveram a pé até às cinco da manhã à espera do que não veio, e o médico chegou apenas às seis. E mortes? E o cemitério ao deus-dará? "Não me lembro de alguém ter sido sepultado ali... a não ser um desconhecido que apareceu morto no mar. Do terramoto para cá, não morreu ninguém", presta contas o Senhor Luís.
A Caldeira teve em tempos o seu próprio pároco. Hoje recebe a visita de um padre uma semana em cada ano, a que antecede e prepara a solenidade do Senhor Santo Cristo dos Milagres, no primeiro domingo de Setembro. Então, sim, a fajã enche-se dos naturais, há festa de arromba, "filarmónicas e tudo". Mas estes são católicos dos rijos e de expedientes. Não passam domingo sem missa, e na sua igreja. Um pouco antes das dez, o Senhor Luís pega no rádio e, com a família, cumpre o curto trajecto que o separa do templo. É geralmente acompanhado pelos outros três ou quatro vizinhos, mas já aconteceu muitas vezes estarem ali só os da casa. Sintoniza a RDP-Açores e preparam-se para a missa da Sé de Angra. Tudo ritualmente. "Como se tivéssemos padre à nossa frente, a mesma coisa". As respostas, os silêncios, os gestos, a reverência, a atenção. Justifica: "Gosto de ir à igreja. Nem a televisão me interessa, que dá a missa às três e meia da tarde, vejam lá!, e em casa eu não estou com atenção".

Ao fim da tarde, tempo apertado para mais um cafezinho, "da terra", e uma angélica, "aguardente da terra", que nos anima ao regresso. A hora é de pressas, pretendemos fazer a jornada até aos Cubres, pelo seguro, com a luz do sol. Deixamos para trás, queremos desconfiar que já com saudades, a intrigante Fajã da Caldeira, sítio de memória, do passado, onde a vida corre devagar e a morte parece não ter visto de entrada.

A ver navios 113

                                                                                                                  Foto Hernâni Von Doellinger

António Ferreira

Dos mais formosos olhos

Dos mais formosos olhos, mais formoso
Rosto, que entre nós há, do mais divino
Lume, mais branca neve, ouro mais fino,
Mais doce fala, riso mais gracioso,

De um angélico ar, de um amoroso
Meneio, de um espírito peregrino,
Se acendeu em mim o fogo, de que indigno
Me sinto, e tanto mais assim ditoso.

Não cabe em mim tal bem-aventurança.
É pouco uma alma só, pouco uma vida,
Quem tivesse que dar mais a tal fogo!

Contente, a alma dos olhos água lança
Pelo em si mais deter, mas é vencida
Do doce ardor, que não obedece a rogo. 


"Poemas Lusitanos", António Ferreira

(António Ferreira nasceu em 1952. Morreu no dia 29 de Novembro de 1569.)

Olha o rei!

                                                                                                                  Foto Hernâni Von Doellinger

Humberto Lyrio

Alma livre

Sou cigano e não sei se a minha caravana
Ainda uma vez terá o sol de tua aldeia,
Disco de ouro e rubi, esse sol incendeia
Teu sangue de mulher amorosa e tirana.

Para o filho da Boêmia é a sorte soberana;
Tem, no Acaso, seu deus; no Amor, que inspira e enleia,
O universo resume, e à noite, à lua cheia,
À angústia do violino a sua angústia irmana.

Traz no fogo do olhar a imagem das distâncias,
O eco das solidões em seu peito soluça,
Como soluça o mar, na concha, as próprias ânsias.

Sabe que a vida é breve e vã a angústia humana,
Tem um código seu. Nele, estóico, se embuça.
Se a alegria findou, que siga a caravana
.


"Almas no Espelho", Humberto Lyrio

(Humberto Lyrio nasceu no dia 29 de Novembro de 1918)

Vida de cão 171

                                                                                                                Foto Hernâni Von Doellinger

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Eu também renuncio ao meu cargo na Caixa

Eu não tinha nenhum cargo na Caixa Geral de Depósitos, mas também renuncio, demito-me, bato com a porta. Porém. Não alinho com o António Domingues nem com os outros meus seis colegas de ex-administração, que, para mostrarem que a questão não era essa, dizem agora que até vão enviar as suas declarações de rendimentos ao Tribunal Constitucional.
Eu demito-me, mas não envio. Eu tenho vergonha da minha declaração de rendimentos e não a mostro a ninguém. São muitos zeros, com efeito, mas são só zeros...

Lugares-comuns 450

                                                                                                                  Foto Hernâni Von Doellinger

Eia!, as fajãs de São Jorge estão na moda... 6

No meu tempo havia escola. Já foi uma grande aldeia, vê-se. Mil novecentos e oitenta, o terramoto de 1 de Janeiro, foi o tempo da viragem: teve já cerca de três centenas de habitantes regulares, e por ocasião do cataclismo aqui moravam para cima de cem pessoas. Mas esta foi uma das zonas mais flageladas, e o que hoje se vê, se sente, é uma fajã-fantasma. "Casas por consertar, caminhos por amanhar", mostra o nosso cicerone, o cemitério abandonado às silvas e às ervas, ruelas - muitas, ao contrário dos Vimes e de São João - desertas. São somente três as casas ocupadas durantes todo o ano e haverá aí mais uma dúzia em condições de habitabilidade. O resto é ruína.
Fica o cenário, belo, esmagador - a serra, luxuriante, disfarçada de tropical, caindo das nuvens a pique e apertando aquele espaço mínimo contra o mar. A unir as duas paredes, grossos fios de arame, espécie de teleféricos, por onde as lenhas, as mondas para estrumes e as ervagens ou folhagens eram lançadas em molhos, presas a um gancho, da montanha para a fajã.
Por causa das dificuldades de acesso, aqui não há permuta de Inverno com os de cima. Quem está, está; quem não está, não vem. São seis ou sete os habitantes a tempo inteiro, todos idosos, à excepção da casa do Senhor Luís. Passamos por dois deles: absortos, tristes, resignados.
O guarda da lagoa, nos quarenta, é casado e tem uma filha, Suzete Maria, a fazer dez anos. Cada segunda-feira leva-a "lá fora" à escola e vai por ela à sexta. Mas nem esta separação o impele a desertar. Só a tropa o arrancou da fajã onde nasceu, fez a escola - "no meu tempo havia escola!" - e cresceu. "Por ora não quero sair. Eu gosto de estar aqui, isto é um sossego. Se não gostasse - e remata, pragmático -, já tinha ido".
Luís tem o seu gerador privativo e outros apetrechos da civilização. Para além da função pública, governa-se também com as suas trinta, quarenta cabeças de gado. As provisões vai buscá-las à Calheta ou à Ribeira Seca. Tem dois barquitos, mas raramente são hipótese de transporte. É que, "mesmo quando o mar deixa, não há marinheiros, há pouca gente". Por isso abala com dois cavalos, inteligentemente alinhados e atentos, pelo perigoso caminho que horas antes percorrêramos, até à Fajã dos Cubres. Deixa ali os animais e segue viagem de camioneta. Regressa às vezes pela noite, ele e as bestas carregados. E repete todas as semanas.

Lugares-comuns 449

                                                                                                                  Foto Hernâni Von Doellinger

Antero de Figueiredo 3

Que é a vida senão uma viagem? Que são as viagens senão temas de recordação?
Recordar!
O presente é inconsciente como a juventude - só na idade reflectida se mede o prazer que passou. O prazer é vivaz e efémero; a recordação vem esmorecida, mas pousa e fica. A alegria vale, sobretudo, pelo fio de doçura que deixa na saudade nevoenta... Quando fruímos um prazer, com a ardência do sol em chamas, estamos a preparar o luar desse gozo: o deleite brando e demorado de o relembrar.
É como o sonho do amor, que se desdobra na ilusão solar de construir e na ilusão lunar de recordar. Tudo ilusão! Mas a ilusão é a mentira fecunda da vida. É a própria vida. A ilusão é a maior verdade, porque é a mais cons-tante; é a maior beleza, porque universalmente, eternamente atrai e seduz. O prazer vale um pouco pelo que é, e muito pelo que será. Quem goza, semeia saudade. O mais delicado perfume é o perfume do que foi perfume...
Recordar é acordar. Só acordados somos vivos. No presente somos mortos. Recordando, ressuscitamos. E então vivemos conscientemente a vida inconsciente que por nós correu.
Recordar é poetizar. Tão nobre é o valor da recordação que, às vezes, recordar uma viagem comum é desvulga- rizá-la, é engrandecê-la. Da realidade ficou apenas uma imagem depurada - a essência da verdade que existiu. A recordação superioriza, porque espiritualiza. O tempo é o poeta da saudade.

"Jornadas em Portugal", Antero de Figueiredo
 
(Antero de Figueiredo nasceu no dia 28 de Novembro de 1866. Morreu em 1953.)

Estou mesmo a ver o filme 26

                                                                                                                Foto Hernâni Von Doellinger

Antísthenes Pinto

Antecipo minhas rugas no espelho.
A sombra hirta que foi vejo curvada.
Piso fundo no chão que silencia
E vou contar estrelas na vidraça.

A ave do desejo pousa em livro.
(Não há no vácuo acústica às palavras)
Liberto já do sonho que não tive
Fujo de mim e só de mim fugindo

Sem dar um passo além do que pensara
Quando fui velho sem chegar a ser.
O meu patético olhar engole o longe:

- Escuro limitando com escuro
E quanto ao perto: cinza no cinzeiro
E o negro cão do tempo me mordendo.

"Sombra e Asfalto", Antísthenes Pinto

(Antísthenes Pinto nasceu no dia 28 de Novembro de 1929. Morreu em 2000.)

Lugares-comuns 448

                                                                                                                 Foto Hernâni Von Doellinger

Luiz Ruas

O porto é o relógio

O relógio está parado
Doce vestígio encalhado
Não marca o tempo de aqui.
Que o tempo já foi, já fui.
Nesta praia, apenas,
Sou:

Concha morta, azul vazio,
Róseo inútil,
Morto ser.

Mas quando sinto que o mar
- Ó esperança em azul -
Vem despertar esta praia,
Então, fabrico o meu barco
E parto - o porto é o relógio -
E volto pro mar fecundo
Eu, ressurgida criança,
Em palavras verde-azul.

"Poemeu", Luiz Ruas

(Luiz Ruas basceu no dia 28 de Novembro de 1931. Morreu em 2000.)

domingo, 27 de novembro de 2016

O Código comando e o Código do jornalista

                                                                                                                 Foto Hernâni Von Doellinger

Código comando
O comando ama devotadamente a sua Pátria, estando sempre pronto a fazer por ela todos os sacrifícios. Constante exemplo de energia, de amor ao trabalho, de dedicação e de lealdade aos chefes, não discute as ordens que recebe, não admite nem conhece embaraços ou resistências à sua integral execução.
Remove todos os obstáculos ao fiel e exacto cumprimento dos seus deveres, sejam quais forem as dificuldades a que tenha de se sujeitar, sem procurar que outrem tome à sua conta o que lhe incumbe fazer.
O comando pratica a camaradagem e procura assegurar a solidariedade moral entre todos os seus irmãos de armas; mas não aceita a indignidade, nem a desobediência, nem o desrespeito pelas regras da disciplina e da honra. Sempre disposto a auxiliar quem precisa do seu apoio material ou do seu amparo moral, quer na paz. quer na guerra, e em frente do inimigo, afirma-se constantemente pessoa de carácter.
O comando ama as responsabilidades. Sempre pronto a comandar e disposto a obedecer, não admite a suspeita de haver nos seus superiores a intenção de oprimi-lo ou de, por qualquer forma, o diminuir. Porque é sua constante preocupação agir como verdadeiro comando, tem nos seus chefes ou comandantes a mais segura confiança e a mais acrisolada fé.
Sempre generoso na vitória e paciente na adversidade, o verdadeiro comando trata com solicitude, acarinha e estimula aqueles que lutam e sabem vencer todos os obstáculos. Não admite a mentira mas respeita os estóicos e abnegados que servem sem preocupação de paga ou de satisfação de interesses de qualquer natureza.
O carácter, a lealdade, a fidelidade, a obediência e a determinação são virtudes inalienáveis do comando. Sejam quais forem os seus dotes de saber, o comando que as não possua ou as despreze deve ser inexoravelmente privado do seu título.
O comando não foge ao perigo, não evita as situações que possam acarretar-lhe incómodos. Incumbido de uma missão, põe no cumprimento dela todas as suas possibilidades de actuação, todas as suas forças físicas, intelectuais e morais.

Código deontológico do jornalisra
1. O jornalista deve relatar os factos com rigor e exactidão e interpretá-los com honestidade. Os factos devem ser comprovados, ouvindo as partes com interesses atendíveis no caso. A distinção entre notícia e opinião deve ficar bem clara aos olhos do público
2. O jornalista deve combater a censura e o sensacionalismo e considerar a acusação sem provas e o plágio como graves faltas profissionais.
3. O jornalista deve lutar contra as restrições no acesso às fontes de informação e as tentativas de limitar a liberdade de expressão e o direito de informar. É obrigação do jornalista divulgar as ofensas a estes direitos.
4. O jornalista deve utilizar meios legais para obter informações, imagens ou documentos e proibir-se de abusar da boa-fé de quem quer que seja. A identificação como jornalista é a regra e outros processos só podem justificar-se por razões de incontestável interesse público.
5. O jornalista deve assumir a responsabilidade por todos os seus trabalhos e actos profissionais, assim como promover a pronta rectificação das informações que se revelem inexactas ou falsas. O jornalista deve também recusar actos que violentem a sua consciência.
6. O jornalista deve usar como critério fundamental a identificação das fontes. O jornalista não deve revelar, mesmo em juízo, as suas fontes confidenciais de informação, nem desrespeitar os compromissos assumidos, excepto se o tentarem usar para canalizar informações falsas. As opiniões devem ser sempre atribuídas.
7. O jornalista deve salvaguardar a presunção de inocência dos arguidos até a sentença transitar em julgado. O jornalista não deve identificar, directa ou indirectamente, as vítimas de crimes sexuais e os delinquentes menores de idade, assim como deve proibir-se de humilhar as pessoas ou perturbar a sua dor.
8. O jornalista deve rejeitar o tratamento discriminatório das pessoas em função da cor, raça, credos, nacionalidade, ou sexo.
9. O jornalista deve respeitar a privacidade dos cidadãos excepto quando estiver em causa o interesse público ou a conduta do indivíduo contradiga, manifestamente, valores e princípios que publicamente defende. O jornalista obriga-se, antes de recolher declarações e imagens, a atender às condições de serenidade, liberdade e responsabilidade das pessoas envolvidas.
10. O jornalista deve recusar funções, tarefas e benefícios susceptíveis de comprometer o seu estatuto de independência e a sua integridade profissional. O jornalista não deve valer-se da sua condição profissional para noticiar assuntos em que tenha interesse.

P.S. - Dois códigos, duas belas tretas. O Código comando era lido todas as manhãs, o mais grunhamente possível, na parada para "amélias" do Regimento de Comandos da Amadora ou no terreiro do Destacamento de Santa Margarida. E depois muita pancada, obviamente por acrisolado amor à Pátria. Não sei como é agora.
O Código deontológico do jornalista quase ninguém na profissão sabe dele. Eu trago-o sempre junto à carteira profissional, ao passe do metro e ao coração.

Vida de cão 170

                                                                                                                Foto Hernâni Von Doellinger

As minhas frases favoritas 94

Leitura da primeira epístola de São Paulo aos Tessalonicenses...

Onomástica, toponímia & outros nomes esquisitos 9

                                                                                                                             Foto Hernâni Von Doellinger

Vai chamar Abenedego a outro! Um casal italiano foi proibido pelo tribunal de dar o nome de Sexta-Feira ao seu filho, mas na China há 5.659 pessoas que se chamam Ano Novo. Em Portugal, país de brandos costumes, parece que ainda ninguém foi tão longe, mas apenas porque não deixam. No Ministério da Justiça há uma lista negra de mais de 2.500 nomes próprios esquisitos que já foram pedidos e recusados.
E alguns deles nem lembrariam ao diabo: como, vejam lá, Jesus Cristo, Deusa, Adoração, Imaculada, Cristão, Cristo ou Maria da Aleluia. A sério (à séria, se lido em Lisboa). São pérolas que constam na lista de "Vocábulos Não Admitidos como Nomes Próprios" do Instituto dos Registos e do Notariado (IRN) e que estão lá porque exactamente houve pais que tiveram a peregrina ideia de assim baptizarem os respectivos filhos.
Os pais italianos queriam ser "originais", disseram aos jornais, mas os juízes, na sua sábia decisão, consideraram que Sexta-Feira traria uma carga de "vergonha" e de "ridículo" à criança que fosse marcada para toda a vida com semelhante nome.
Ora, se os portugueses têm muitos defeitos, um deles não será certamente a falta de originalidade. E também aqui, no ramo dos nomes que são de partir a moca, não ficamos a dever nada a ninguém.
Duvidam? Tomem então nota dos seguintes: Abenedego, Brilhantina, Consolino, Divinando, Estaline, Girina, Ismanuel, Jacquelino, Magnífica, Maxfredo, Ovnis, Paliologo, Romã, Sete, Togarma, Viking ou Zuzidine. Tudo nomes que alguém quis pôr aos filhos, mas que o bom senso da lei proibiu.
Mas há mais, muito mais! Com efeito, a lista de nomes sem jeito nenhum, e portanto não admitidos pelo IRN, publicita apenas os despachos proferidos face aos pedidos apresentados, tem mais de 2.500 nomes interditos e não é actualizada desde Julho de 2006.
Escrevi esta treta em Janeiro de 2008, no jornal 24horas, depois de pedir algumas explicações ao IRN. O IRN esclareceu-me, cheio de a propósito, que o nome próprio das "crianças nascidas em Portugal que sejam portuguesas" deve ser "português, de entre os constantes da onomástica nacional ou adaptados graficamente à língua portuguesa, não devendo suscitar dúvidas quanto ao sexo". Filhos de jogadores de futebol e de artistas da televisão são casos à parte, concluí eu.
Quanto ao nome completo das pessoas - mais me informei no IRN -, deve compor-se, no máximo, de seis vocábulos. Como, por exemplo, Duarte Nuno Fernando Maria Miguel Gabriel Rafael Francisco Xavier Raimundo António de Bragança.

Os passarinhos, tão engraçados 4

                                                                                                                 Foto Hernâni Von Doellinger

Soares dos Passos 4

Amor e eternidade

Repara, doce amiga, olha esta lousa,
E junto aquela que lhe fica unida:
Aqui dum terno amor, aqui repousa
O despojo mortal, sem luz, sem vida.
Esgotando talvez o fel da sorte,
Ponderam ambos descansar tranquilos;
Amaram-se na vida, e inda na morte
Não pôde a fria tumba desuni-los.
Oh! quão saudosa a viração murmura
No cipreste virente
Que lhes protege as urnas funerárias!
E o sol, ao descair lá no ocidente,
Quão belo lhes fulgura
Nas campas solitárias!

Assim, anjo adorado, assim um dia
De nossas vidas murcharão flores...
Assim ao menos sob a campa fria
Se reúnam também nossos amores!
Mas que vejo! estremeces, e teu rosto,
Teu belo rosto no meu seio inclinas,
Pálido como o lírio que ao sol posto
Desmaia nas campinas?
Oh? vem, não perturbemos a ventura
Do coração, que jubiloso anceia...
Vem, gozemos da vida enquanto dura;
Desterremos da morte a negra ideia!
Longe, longe de nós essa lembrança!
Mas não receies o funesto corte...
Doce amiga, descansa:
Quem ama como nós, sorri à morte.
Vês estas sepulturas?
Aqui cinzas escuras,
Sem vida, sem vigor, jazem agora;  
Mas esse ardor que as animou outrora,
Voou nas asas de imortal aurora
A regiões mais puras.

Não, a chama que o peito ao peito envia
Não morre extinta no funéreo gelo.
O coração é imenso: a campa fria
É pequena demais para contê-lo.
Nada receies, pois: a tumba encerra
Um breve espaço e uma breve idade.
É o amor tem por pátria o céu e a terra,
Por vida a eternidade!

Soares dos Passos

(Soares dos Passos nasceu no dia 27 de Novembro de 1826. Morreu em 1860.)

Lugares-comuns 447

                                                                                                                  Foto Hernâni Von Doellinger

Adonias Filho 3

Meu pai, que Deus o tenha no céu, morrendo, deixou-me a sua pequena fazenda. Vivia deslumbrado, sem nenhum amargor, amigo de todo mundo. Ali, esquecido naqueles ermos, aprendi a esmiuçar as coisas, decifrar os mistérios, o campo me ensinava, ajudava-me a compreender a vida. Tudo possuía um aspecto de alegria eterna, o sol ou o vento, a noite ou a água. Gostava de ficar deitado sobre a “barcaça” aberta, sonhando, contando indefinidamente as estrelas do céu. Idealizava, naquelas noites de solidão, o céu nos meus olhos como um desenho mágico, idealizava grandes aventuras, exóticas histórias de amor e guerra. Sentia-me inocente como a ave de ninho feito na cumeeira da casa. Assim - como é triste lembrar! - decorreram anos, muitos anos da minha vida. Uma tarde, porém, voltando do rio, encontrei um homem, uma pessoa estranha. Chamava-se Manuel Pedro.
Quer saber quem era Manuel Pedro? Como era Manuel Pedro? Olhos vivos de gato em uma fisionomia parada de estátua. Dir-se-ia não haver sangue, sangue e nervos, no rosto chato. Apenas um bloco de carne, sem pêlos, nariz acurvado como bico, testa ampla, boca pequena, sempre fechada, escondendo os dentes de animal carnívoro.

"Os Servos da Morte", Adonias Filho

(Adonias Filho nasceu no dia 27 de Novembro de 1915. Morreu em 1990.)

sábado, 26 de novembro de 2016

Eia!, as fajãs de São Jorge estão na moda... 5


Luís, o guardador de amêijoas. É do outro lado da ilha, no norte. Atravessamos a serra de costa a costa e iniciamos a descida pela Ponta Norte Pequena, deslocando-nos para leste. Passamos ao de longe pela Fajã do Ouvidor e, apontados ao destino, obrigamo-nos à paragem para, por momentos, gozarmos uma paisagem verdadeiramente de postal ilustrado: à nossa frente, muito ao fundo, agasalhada pelo leve manto da transpiração da terra, a visão magnífica das fajãs dos Cubres, em primeiro plano, e da Caldeira, ao longe, adornadas pelas suas lagoas. O automóvel desce-nos até aos Cubres e por aí se fica.
A vista alcança a Graciosa e a Terceira, do lado de lá do canal, enquanto desafiamos - encosta acima, encosta abaixo - uma marcha forçada por carreiro tortuoso, íngreme, pedras soltas e traiçoeiras, lajedos puídos, um pé de cada vez. Penedia e mar espreitam perigosamente do abismo, numa companhia incómoda, quase até ao fim do percurso. Na fase terminal, então já ao nível do oceano, vistoriamos as ruínas das fajãs do Belo e dos Tijolos e, num pulo, pomo-nos na Fajã da Caldeira do Santo Cristo.
Fora uma bem suada hora de caminhada. Paramos e respiramos. Vemos, ouvimos, um espaço breve, belo, esquecido.
Passamos pelo exterior de uma lagoa subterrânea, dentro de uma furna abobadada, com acesso por um estreito corredor, também subterrâneo, dizem-nos, mas andamos é para a lagoa de água salgada, onde se reproduzem as célebres amêijoas da fajã. Pelo seu sabor, pelo seu tamanho, são prémio de excelência para o esforço da viagem. Ali nos encontramos com o Senhor Luís, o homem que há sete anos guarda a lagoa. Será o nosso guia e quem nos vai contar as singularidades da mais diferente, típica e misteriosa de todas as fajãs.

Onomástica, toponímia & outros nomes esquisitos 8

Foto Hernâni Von Doellinger

Histórias de cónegos
1. Há coisa de quarenta anos, os cónegos não eram uma classe respeitada por aí além, mesmo ou principalmente no interior da Igreja. Naquele tempo, cónegos eram anedotas contadas por padres que não eram cónegos. Inveja? Sei lá eu. Parece que o tique vinha de trás e atiravam a culpa ao Eça.
Os cónegos que então conheci afiguravam-se-me criaturas patuscas, isso é certo. Geralmente baixinhos, barrigudos e corados, sebentos às vezes, os cónegos eram uns cromos, caricaturas deles próprios. Também não sei se ficaram assim depois e por causa de terem ido para cónegos ou se aqueles é que eram os critérios de selecção.
Uma vez, um padre recém-ordenado, mestre e amigo, ensinou-me que a classe dos cónegos se dividia em três categorias: "os cónegos de merda, a merda de cónegos e os cónegos a sério" - que seriam os da sé propriamente dita, eventualmente os cónegos com cargo no cabido. O meu mestre e amigo suponho que actualmente é cónego, mas não sei de que categoria.
Como é agora com os cónegos, confesso que desconheço. Mas acredito nisto: quarenta anos não dão para nada na Igreja instituição, não dão sequer para meter a chave à porta - quanto mais para puxar o autoclismo.

2. O Secónego era uma sumidade arqueológica. Um sábio. Sabia das lendas, da História, das pedras, das palavras, dos nomes e dos sítios, dos livros. Sabia das origens todas. Sabia. Estão a ver o José Hermano Saraiva na televisão? Pronto, o Secónego era a mesma coisa, mas sem televisão e a sério. Ainda por cima, tinha piada fina. O Secónego comprazia-se em explicar aos seus alunos porque é que a terra de cada um se chamava como se chamava e porque é que uns eram Silva e outros eram Lopes. Explicou-me porque é que Fafe é Fafe e eu expliquei-lhe que não tenho culpa de ser Von Doellinger.
Quando me chegou às mãos, o Secónego já era um sábio intermitente, com apagões. Era um homem precocemente envelhecido e debilitado. De vez em quando desligava e isso fazia-me uma enorme impressão. Lembro-me que nessas alturas me apetecia chorar. Que injustiça para uma cabeça assim. Filhadaputice que ele não merecia, era o que eu achava e depois ia confessar-me, porque achar filhadaputice, fosse de que espécie fosse, era pecado no seminário.
Por falar em filhadaputice (e vão três), havia umas "brincadeiras" institucionalizadas para as aulas do Secónego. E os coninhas, que, borrados de medo, só respiravam pelas orelhas frente aos outros professores, pintavam a manta com o Secónego, numa coragem cobarde que ainda hoje me mete nojo. Eu também não era nenhum santo - e certamente por isso (e por achar filhadaputices a torto e a direito) é que me mandaram dar uma volta -, mas, para mim, as aulas do Secónego eram sagradas. Eram as únicas em que eu não mijava fora do penico. Por pena. Quem me dera que tivesse sido por respeito.
Um dia o Secónego desligou-se o interruptor em plena aula. De repente ficou ali, sentado à secretária, olhando o nada, obviamente esquecido de nós e dele, e dizia apenas "Leia, menino", apontando para ninguém. E nós lemos, mandei eu, e mandei também chamar quem o tirasse dali. Lemos: três ou quatro de nós, uns atrás dos outros, passando a Selecta de mão em mão, Vaiamos, irmana, vaiamos dormir nas ribas do lago, u eu andar vi a las aves meu amigo. E lemos a cantiga até ao fim e voltámos ao princípio, uma e outra vez, numa lengalenga interminável, e tanto fazia quem lesse, eram as minhas ordens, porque eu sentia que o som das nossas vozes apaziguava a alma cansada e ausente do velho professor. E isso era preciso.
Depois levaram-no.

3. O Secónego tinha uma casa creio que à borda da estrada que sobe da cidade de Braga para o Bom Jesus. Padres mais novos diziam-lhe, no gozo: "Ó Secónego, que pena, quem por ali passa de carro só vê o cume da sua casa". E ele: "Pois, mas isso é à ida, menino. À vinda nem o cume vê"...

Lugares-comuns 446

                                                                                                                    Foto Hernâni Von Doellinger

Mário Lago 4

Tudo como antigamente

Somei noite mais noite olhando a lua
Decorei cada estrela que brilhava
Morri mais de uma vez em cada rua
E sempre a cada vez ressuscitava


Pobre do tempo que não me alcançava
Nunca se alcança aquilo que flutua
Cama após cama a carne se gastava
E a alma devassa andava seminua


Fui Deus e rei, poeta e vagabundo
Vivi mais de mil vidas por segundo
Ultrapassando sempre o mais em frente


Hoje deixo que o tempo me ultrapasse
Morri de vez mas se ressuscitasse
Faria tudo como antigamente


Mário Lago 

(Mário Lago nasceu no dia 26 de Novembro de 1911. Morreu em 2002.) 

Vamos ao circo

                                                                                                                 Foto Hernâni Von Doellinger

Dario Veloso

No reino das sombras

Plenilúnio. O luar molha as colunas dóricas...
junto ao pronau medito, evocando o teu rosto,
Que saudade de ti, dessa tarde de Agosto,
De tintas outonais e visões alegóricas!

Saudade!... O coração lembra idades históricas...
Na Atlântida eras tu pitonisa... Ao sol posto,
Dizias da alma irmã os arcanos... Teu rosto
Banhava-se na luz das estrelas simbólicas...

Tantas vezes perdida! Imerso em luz ou treva,
De vida em vida, à flor do céu, te procurava,
Na dor da solidão... E, quando a Lua eleva

A lâmpada votiva, eu te procuro ainda,
- Alma branca, alma irmã, alma em flor, alma eslava -,
Na poeira de sóis da solitude infinda.


Dario Veloso

(Dario Veloso nasceu no dia 26 de Novembro de 1869. Morreu em 1937.)

Lugares-comuns 445

                                                                                                                Foto Hernâni Von Doellinger

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Eia!, as fajãs de São Jorge estão na moda... 4

Já aqui foram curadas muitas tuberculoses. Era a hora da subida. Próxima paragem na Fajã de São João. Muito mais afastada da estrada principal, alcatroada, para lá chegarmos teremos de percorrer uma considerável distância pelo pó de uma via em terra barrenta, mas ainda assim de carro. O pior é a descida propriamente dita. Íngreme de meter medo e, ainda por cima, escangalhada por uma das habituais derrocadas. Restava o velho caminho alternativo, que, logo no seu início, avisava em letreiro artístico: "Descidas: às horas. Subidas: às meias". Esperámos pela hora e descemos, obrigados a complicadas manobras e ao recurso à mais eficiente das perícias. E outra vez encontrámos o mesmo silêncio, o recolhimento de um templo.
A fajã já teve escola e padre, mas hoje não vivem aqui permanentemente mais do que vinte pessoas, velhas quase todas e sobreviventes de pensões e da agricultura. Uma parte importante das cerca de duzentas casas e respectivas propriedades pertence a famílias da freguesia de Santo Antão, da zona alta da ilha, que descem com tudo, haveres e gado, para se guardarem dos rigores de janeiros e fevereiros, ou no Verão para as vindimas. É que - explica-nos o Senhor Libório, conhecedor do que diz - "lá em cima o tempo mata tudo e cá em baixo é o melhor que há para as coisas do cedo".
É assim, divididos entre a fajã e a serra, que vivem os dos Vimes e de São João. Na serra do Topo têm a sua cooperativa de lacticínios, onde é produzido o excelente queijo de São Jorge, de características originais e famoso pela sua qualidade invulgar e sabor único. E cá em baixo estão as sua vinhas - designação genérica para os quintais em socalcos -, ricas em hortícolas e frutos temporãos. Mostra-nos, na Fajã de São João, o Senhor Libório: banana, vinho, tomate, tangerina, trigo, figo e, claro, café.
Terá vindo do Brasil, "há-de haver cem anos", diz-nos a Tia Maricas, que nos vai ensinar tudo sobre o café das fajãs. Num discurso simples mas fluente, inteligente, filosófico às vezes, quase sempre sábio. "O café há que apanhá-lo quando as bagas estão vermelhas, a caminhar para o castanho. É descascado à mão, mas antes disso, quando está bem seco, esfrega-se em cima de uma soleta". Depois vai a queimar, com todo o cuidado, porque não pode ficar "nem muito encruado nem muito torrado". Esta operação é geralmente feita numa meia esfera em ferro, serrada de uma das muitas bóias que vão dando à costa. "Leva-se um ou dois dias ao sol, a secar, senão amarga, e então pode-se relar". A seguir é bebê-lo e - mais pelo paladar do que pela cor ou pelo aroma - apreciá-lo como merece, calmamente, repetindo, enquando vamos aprendendo a vida com a Tia Maricas.
Também ela desce de "lá fora", Santo Antão, para as suas temporadas de fajã, porque "isto é melhor que um sanatório: já aqui foram curadas muitas tuberculoses". E passa às provas. Por exemplo, a história de "duas raparigas, rapariguinhas de 18 anos, tísicas, mal-enganadas pelo médico, que, ciente da falta de cura, as mandou por descargo" para a Fajã de São João. "O caso é que, tratadas pelo sol e pelos ares, bem comidas e resguardadas, ali ganharam cores e saúde e se apresentaram, tempos mais tarde e sem mancha de doença, ao doutor, que afinal já não as esperava ver vivas". A certidão do que diz atesta-a Tia Maricas com os seus bem vividos e lúcios 92 anos.
São horas e meia, tempo exacto para a subida e o regresso à Calheta. O dia seguinte está guardado para a Fajã da Caldeira do Santo Cristo, empreitada que nos reclama bem descansados.