domingo, 8 de maio de 2016

Sem condições para que a poesia aconteça

Olho pela janela e está sol.
Choveu que Deus a deu
durante
quase toda a manhã,
mas agora não. Está sol.

Olho pela janela e vejo
telhados vermelhos e cinzentos,
cinzentos suspeito que de lusalite,
e quase me dá uma himoptise.
Tusso e desisto.

Vejo cinco telhados, cinco
o resto são paredes, paredes
de prédios de doze andares, doze
cheios de janelas e marquises, marquises.

Paredes prédios a precisarem pelo menos de pintura.
Pintura.

Nos telhados, nem um gato
nem uma gaivota, um melro sequer.
Estão cá sempre, menos o melro, e hoje
agora
não sei o que lhes deu.

Estou sem gatos,
sem pássaros,
sem chuva.

Assim não há condições
para fazer poesia,
condições
para que a poesia aconteça.

Acho que vou
escrever um livro.

(P.S. - A puta da gaivota chegou agoríssima, são as 15h12, mas não me vai escangalhar o brilharete. Fica tudo como estava, em respeito pela verdade da literatura em particular e da arte em geral.)

(P.S. 2 - E agora apareceu o caralho do gato, são as 15h33. É o que eu digo: a poesia é o momento. E entretanto tornou a chuva...)

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