sexta-feira, 27 de maio de 2016

Manuel Teixeira Gomes 2

Rompeu, por fim, o sol, apressado e quente, sem que tivéssemos prestado atenção ao seu glorioso aparecimento, e começou a concertada faina de levantar o céu da armação. Logo aos primeiros movimentos a superfície da água, no recinto da armação, começou também de se encrespar, aqui e ali, de rolos de prata viva; eram pequenos cardumes de sardinha, que fugiam à voracidade do atum. Acudiu-se-lhe com umas redes triangulares, dobradiças, chamadas "muletas", que facilmente a apanhavam e distribuíam pelos convidados. Nós já tínhamos o nosso fogareiro de barro preparado, à espera, com a lata sobre as brasas; ali, em poucos minutos, ficava a sardinha assada, e logo era comida mesmo na ponta da unha, com pão de toda a farinha, minheiro e ainda quente do forno, e regado com um "tinto" áspero de surdo flavor, trazido adrede para aquela função já certa.
Apenas a água principiou a ferver, com a revolução do peixe que se aproximava da superfície, rompeu a mais tremenda gritaria e algazarra de que tenho memória, e que ainda redobrou ao aparecimento dos primeiros atuns. Começou então a toirada.
Sucedeu que o primeiro atum arpoado se escapou, e caído à água com tal velocidade parecia voar, jorrando sangue que o acompanhava de um rasto de púrpura. A assuada ao marujo infeliz foi medonha, e vi jeitos de o atirarem à água. Mas é que os primeiros atuns que apareciam, tendo ainda campo para nadar, fugiam das barcas, enquanto os marujos, abrindo os braços, e com grandes pancadas no costado das lanchas, os incitavam às sortes, como se fossem bois.
Isso, porém, durou pouco. Entre borbolhões de espuma assomou logo uma densa camada de peixe, e tão apertada pelo costado das barcas, que os marujos quase lhe davam às cegas, levantando uma cabeça de cada arpoada.
Viu-se então que o atum era de bom calibre e muito. Ao meu lado, um perito amador, mas de reconhecida autoridade, ia-o contando, e quando chegou aos quinhentos verificou-se que não fazia falta no copo, onde continuava a afluir em camadas igualmente densas.O sangue e a água, misturados, soltavam-se aos cachões, envolvendo os peixes em línguas de púrpura cristalina, e ao centro da rede faziam remoinho, abrindo um poço fundo e largo, por cujas paredes transparentes giravam, desvairados, os grandes bichos cintilantes.

"Uma copejada de atum", Manuel Teixeira Gomes

(Manuel Teixeira Gomes nasceu no dia 27 de Maio de 1860. Morreu em 1925.)

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