sexta-feira, 22 de abril de 2016

Gosto de palavras que são o que não parecem

Vou repetir-me, mas a vida é isto, a vida é feita de repetições. Ao contrário do que as pessoas em geral cuidam, quando as repetições acabam é que é uma chatice: fecham-nos os olhos à força, ajeitam-nos a boca com cola de colar cientistas ao tecto, vestem-nos um velho fato comido pela traça, põem-nos um terço nas mãos, acendem quatro velas, dizem que fomos muito boa pessoa, e realmente nunca mais. Portanto, vou repetir-me.
Eu não sei se já tinha dito que vou repetir-me, mas é essa, com efeito, a minha intenção: vou repetir-me. Gosto de nomes, gosto do falar antigo, gosto das palavras. Já aqui contei, gosto de palavras com piada fina, palavras como parreca, como esbraguilhado, como cachicha. Mas ainda gosto mais de palavras desalinhadas, subversivas, fora-da-lei. Matreiras. Aprecio especialmente as palavras que viram a norma de pernas para o ar e as abusam, como, por exemplo, e estas são cá das minhas, solhão, pontão ou estradão.
Cá está. Solhão, pontão e estradão, palavras rematadas com o famoso sufixo "ão", unanimemente considerado pelos mais reputados gramáticos como um dos sufixos por excelência para a formação de aumentativos. E, no entanto, para quem sabe das coisas, solhão é uma espécie de solha mais pequena, pontão é uma pontinha sobre um ribeiro e estradão é uma estrada estreita e geralmente em terra esburacada, conveniente para ralis. São excepções que confirmam a regra? Não, pelo contrário: são palavras que querem que as regras se fodam.

P.S. - Trouxe ontem para casa três solhões que me saíram uma categoria. Este texto é por isso.

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