sexta-feira, 25 de março de 2016

Mário Peixoto

De repente, distinguindo-o mais adiante, debruçado, dei por mim disfarçando:
- É você, César? Que é que está fazendo aí?
Ele aprumou-se e, segurando a cerca, considerou distraidamente olhando para o céu:
- Boa noite para um passeio!...
Vestira roupa de montar.
Cavalgávamos lado a lado, por entre as rochas a pique, penetrando lentamente o nevoeiro que subia.
Os picos da Bocaina, no fundo quase azul do céu, seguiam-se em pente pelo nordeste em fora; a carranca dos desfiladeiros quietos projetando-me sombra maior. As árvores, estorcidas nas ribanceiras, premiam-me, assim como a certeza que à primeira palavra seguir-se-ia um ponto. Continha os passos do animal, que se adiantava ao de César, calcando crostas ressequidas que se esbarrondavam. Tinha as mãos vincadas pelas rédeas e placas de ar frio sugando-me a pele. Se encarasse César, receava sentir-me de repente culpado. Conhecia-o desde alguns anos, mas era como se o visse pela primeira vez. E a frase de Adriana ressoou-me aos ouvidos:
- "Pergunto a mim mesma se vocês são de fato amigos"...
Havia respondido que sim, que naturalmente - quando no íntimo duvidava. A duvida persistira, apenas hoje mais desafogada.


"O Inútil de Cada Um", Mário Peixoto

(Mário Peixoto nasceu no dia 25 de Março de 1908. Morreu em 1992.)

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