quinta-feira, 31 de março de 2016

Afonso Celso 2

No baile

Ontem, ao contemplá-la decotada,
Ao primor do seu colo descoberto,
Senti-me tonto, da vertigem perto,
Fremente o pulso, a vista deslumbrada.

E, como em láctea fonte perfumada,
Sorvi-lhe sonhos mil no seio aberto,
Com a sede de um filho do deserto
Que encontre enfim a linfa suspirada.

Giram em derredor das níveas flores,
Sofregamente, insetos zumbidores...
- Meus desejos então foram assim...

Mas arredei os olhos, de repente,
Pois meu olhar podia, de tão quente,
Crestar-lhe a fina cútis de cetim!

"Poesias Escolhidas", Afonso Celso 

(Afonso Celso nasceu no dia 31 de Março de 1860. Morreu em 1938.)

Lugares-comuns 323

                                                                                   Foto Hernâni Von Doellinger

Fermín Bouza 2

Cruzeiro 

Trivium, encruzilhada
do Infinido.
Cara a Ti vão, Senhor,
os três hirtos caminhos.
Um serpêa os beirales
dos desacougos místicos
que fão do amor um pasmo
e fão do pasmo um rito
e matinam de cote
no Deus Único e Trino.

Outro, rudo, flagela
nosso corpo cativo, arelando se ceive
o esprito.
Eu vou polo vieiro
na terra frolecido
e vejo-te, Senhor,
ao pé de cada esquivo
penedo, percorrendo
o celme em cada pino,
bulindo em cada verme,
choutando em cada ninho,
pinchando-te nos tojos,
bicando logo os pinchos,
pegureiro do monte
c'o armentio,
nas mourenças do mar
marinho,
nos sinos e nas ervas
saudoso e lírico,
na fartura dos vales
trocado em pão e vinho...

Senhor, que bem me amostras
o carreiro alcendido
c'os teus braços de pedra,
tam feridos,
apreixando a campía
neste
trivium!

"Seitura", Fermín Bouza

(Fermín Bouza nasceu no dia 31 de Março de 1901. Morreu em 1973.)

Caminho 81

                                                                                                                 Foto Hernâni Von Doellinger

Pura Vázquez

No convento antigo daba o sol de cheo cando o frade novo chegou, apoucado por a calor, encortido e suoroso. Recurvábaselle o lombo baixo o peso do fato que non quixo darlle a naide, senón rubilo il por o camiño aquel que somentes de cabras semellaba. Como un sacrificio a que se obrigase no seu interior por aquil que tantas veces caíra baixo a pesadume da Cruz, redenzón dos pecadores e aldraxes da contorbada humanidade.
Os ollos baixos, a face cerril, esvaída nos imos pensamentos, non tivo siquera un ollar para paisaxe que se espaiaba lonxe, alá no fondo da estación, entre os outeiros e soutos de castiñeiros, cheos de recendentes candeas e follaxe, en aquel mes de outono grorioso de beleza, con rechouchíos de paxaros e cheiros de resiña, de frolciñas que o adro namoriscado amostraba.
Chegou ao convento. Atopando aberta a porta da irexa, entrou a por ela sen apousar siquera o fato, e foise direito ao altar do Crucificado que naquela sombra os seus deslumeados ollos lle finxía querer saírse da Cruz e arrincar dos cravos as tradeadas maus. Caíu de xoenllos e deu coa testa na pedra fría, como un condenado que arredase misericordia, entrou na santa Casa.
Non quixo falar con ningún dos frades que atopóu por as ringleiras de pasigos, e diulles o saúdo nunha homildosa incrinación e cabeza, turrando para adiante até chegar á cela do Pai Superior. Aló estivo tamén moito tempo. Falaron baixiño coma en confesa, e cando saiu de alí parecía coma se un peso terríbel lle houbese sacodido a alma.
Pasaron días, e nadie sabía de onde o frade podía vir. Os outros, díronse a cavilar e a marmular entre iles de aquil silencio que non adiviñaban se era mudés ou soberbia non vencida. O frade calaba sempre. Ao pasar por unda eles, incrinaba os pálpebros e a cachola, pro os labres seguían pechados e non deixaban fuxir verba algunha.

"O Frade Era Galego e Outros Relatos", Pura Vázquez

(Pura Vázquez nasceu no dia 31 de Março de 1918. Morreu em 2006.)

quarta-feira, 30 de março de 2016

Lugares-(in)comuns 156

                                                                                                              Foto Hernâni Von Doellinger

Adelino Fontoura 2

A mão

Quando meu lábio trêmulo te oscula
A pequenina mão delgada e fina,
Como uma pomba trêmula que arrula
Minha vida, mal sabes! - canta e pula
Na rósea palma dessa mão divina!


Adelino Fontoura

(Adelino Fontoura nasceu no dia 30 de Março de 1859. Morreu em 1884.)

terça-feira, 29 de março de 2016

Lugares-(in)comuns 155

                                                                                                                Foto Hernâni Von Doellinger

Eduardo Prado Coelho 2

Nunca dancei. Vi os outros dançarem, em terraços voltados para o mar, no chão de areia de África ou do Brasil, em clandestinos infernos de bares de marinheiros ou em inflamadas discotecas de praias turísticas, vi-os e julguei-os felizes, esquecidos e voláteis, perdidos e enovelados numa bola de fogo, mesmo se às vezes os pares se rompiam e ela vinha sentar-se a chorar, e então eu pensava que ainda havia palavras que podiam funcionar como carícias, que eu sabia dizê-las, palavras redondas encostadas à face magoada e triste. Também dancei sem que os outros soubessem que eu dançava, mas dancei fora da dança, porque dançava para mostrar que também dançava, e lembrava-me disso em cada passo, e nunca esquecia que era o meu corpo que dançava, e nunca soube dançar sobre o esquecimento do corpo, nunca ninguém dançou sobre o meu corpo como se fosse a areia da praia ou um terraço voltado para o mar, nunca ninguém que eu sentisse os dois esquecidos de mim.
Pouco a pouco, aprendi a olhar a arte da dança, e passei noites inteiras no deslumbramento de os ver, sem palavras úteis que me explicassem o que ali se passava à minha frente. Era apenas ficar sentado com os olhos colados ao vidro de um mundo outro em que os corpos se multiplicavam como estrelas no momento preciso em que ainda se não tinham tocado, mas já começavam a precipitar-se uns para dentro dos outros. Eles dançavam, esplêndidos, gloriosos, e eu ao vê-los sei que nunca dancei.

"Tudo o Que Não Escrevi", Eduardo Prado Coelho 

(Eduardo Prado Coelho nasceu no dia 29 de Março de 1944. Morreu em 2007.)

segunda-feira, 28 de março de 2016

Caminho 80

                                                                                                                Foto Hernâni Von Doellinger

Alexandre Herculano 4

Que somos nós hoje? Uma nação que tende a regenerar-se: diremos mais: que se regenera. Regenera-se, porque se repreende a si própria; porque se revolve no lodaçal onde dormia tranquila; porque se irrita da sua decadência, e já não sorri sem vergonha ao insultar de estranhos; porque principia, enfim, a reconhecer que o trabalho não desonra, e vai esquecendo as visagens senhoris de fidalga. Deixai passar essas paixões pequenas e más que combatem na arena política, deixai flutuar à luz do sol na superfície da sociedade esses corações cancerosos que aí vedes; deixai erguerem-se, tombar, despedaçarem-se essas vagas encontradas e confusas das opiniões! Tudo isto acontece quando se agita o oceano; e o mar do povo agita-se debaixo da sua superfície. O sargaço imundo, a escuma fétida e turva hão-de desparecer. Um dia o oceano popular será grandioso, puro e sereno como saiu das mãos de Deus. A tempestade é a precursora da bonança. O lago asfaltite, o Mar Morto, esse é que não tem procelas.
O nosso estrebuchar, muitas vezes colérico, muitas mais mentecapto e ridículo, prova que a Europa se enganava quando cria que esta nobre terra do último ocidente era o cemitério de uma nação cadáver. Vivemos: e ainda que semelhante viver seja o delírio febril de moribundo, esta situação violenta, aos olhos dos que sabem ver, é uma crise de salvação, posto que dolorosa, e lenta. Confiemos e esperemos: o nome português não foi riscado do livro dos eternos destinos.

"Duas Épocas e Dois Monumentos (Questões Públicas-1843)", Alexandre Herculano 

(Alexandre Herculano nasceu no dia 28 de Março de 1810. Morreu em 1877.)

Rule, Britannia! Britannia rule the waves.

                                                                                      Foto Hernâni Von Doellinger

domingo, 27 de março de 2016

Quem assim fala...

O bem-estar não escolhe idades (anúncio)
Pilates para idosos e Herodos para crianças. Anás para Caifás e Caifás para Anás. Pagamento à vista. Trinta dinheiros.

Sodoma e Gomorra (ou há moralidade ou...)
Os sodomitas, habitantes de Sodoma, ficaram com a pior parte da fama. Os gomorritas safaram-se, vá-se lá saber porquê, e nem constam nos dicionários. A História às vezes é muito injusta.

Para cima e para baixo
Para baixo todos os Santos ajudam. Para cima, são os Antunes.

O pintor de automóveis
Ninguém o levava a sério quando ele dizia - "Estou-me nas tintas". Era pintor de automóveis, mas isso não explica tudo...

O extremoso e o ex-tremoço
Ainda acontece. Há quem confunda o filho extremoso com o filho ex-tremoço. E são muito diferentes um do outro. Distinguem-se evidentemente derivado ao prefixo com hífen, mas sobretudo por causa da casca.

Errare humanum est
Em alta competição os erros pagam-se caros. Em baixa competição são ao preço da uva mijo.
 
Homem que é homem
Homem que é homem chama Patusco ao gato e Piloto ao cão. Nada de nomes abichanados! E, sim, à mulher pode chamar mor.

O Grosso da Coluna e o Maciço Central
A diferença entre o Grosso da Coluna e o Maciço Central pode resumir-se-se assim: o primeiro é corredor de bicicletas e o segundo joga no eixo da defesa, como agora se diz. E o que têm em comum? Fisicamente falando, pertencem ambos à família dos Armários.

Mãe há só uma
Mãe só há uma. Os pais, evidentemente, são diversos e variados.
 
O escritor
Bonifácio de Montalvar é autor impaciente e impulsivo. Publicou o seu primeiro livro sem sequer o ter escrito, e revelou-se o sucesso que se vê: vai na décima sétima edição e já ganhou quatro prémios literários - um, internacional.

A influência dos astros na vida das pessoas
Perguntavam-lhe pelo signo e ele respondia, todo lampeiro: - Sanitário. Efectivamente, passava o dia na retrete.

Caminho 79

                                                                                                           Foto Hernâni Von Doellinger

sexta-feira, 25 de março de 2016

Vida de cão 138

                                                                                         Foto Hernâni Von Doellinger

Mário Peixoto

De repente, distinguindo-o mais adiante, debruçado, dei por mim disfarçando:
- É você, César? Que é que está fazendo aí?
Ele aprumou-se e, segurando a cerca, considerou distraidamente olhando para o céu:
- Boa noite para um passeio!...
Vestira roupa de montar.
Cavalgávamos lado a lado, por entre as rochas a pique, penetrando lentamente o nevoeiro que subia.
Os picos da Bocaina, no fundo quase azul do céu, seguiam-se em pente pelo nordeste em fora; a carranca dos desfiladeiros quietos projetando-me sombra maior. As árvores, estorcidas nas ribanceiras, premiam-me, assim como a certeza que à primeira palavra seguir-se-ia um ponto. Continha os passos do animal, que se adiantava ao de César, calcando crostas ressequidas que se esbarrondavam. Tinha as mãos vincadas pelas rédeas e placas de ar frio sugando-me a pele. Se encarasse César, receava sentir-me de repente culpado. Conhecia-o desde alguns anos, mas era como se o visse pela primeira vez. E a frase de Adriana ressoou-me aos ouvidos:
- "Pergunto a mim mesma se vocês são de fato amigos"...
Havia respondido que sim, que naturalmente - quando no íntimo duvidava. A duvida persistira, apenas hoje mais desafogada.


"O Inútil de Cada Um", Mário Peixoto

(Mário Peixoto nasceu no dia 25 de Março de 1908. Morreu em 1992.)

quinta-feira, 24 de março de 2016

Crime, digo eu

Antes:
                                                                                Foto Hernâni Von Doellinger

Agora:
                                                                                       Foto Hernâni Von Doellinger

Não é um crime?

Olegário Mariano

Paganismo

Sinto às vezes horror do modo diferente
Com que em louca emoção voluptuoso te espio,
Meu suave amor que tens a figura inocente
De um lírio muito branco, um lírio muito frio.

Ao meu olfato chega o perfume doentio
Do teu corpo mudado em corpo de serpente:
E através desse aspecto anêmico e sombrio
Meu desejo passeia alucinadamente.

Fauno, os olhos boiando em volúpias bizarras,
Quem me dera que tu viesses, na noite escura,
Minha fronte adornar de crótons e de parras,

E na calma do bosque onde o meu sonho medra,
Unisses para sempre, entre o amor e a loucura,
Os teus lábios de sangue aos meus lábios de pedra.


"Angelus", Olegário Mariano

(Olegário Mariano nasceu no dia 24 de Março de 1889. Morreu em 1958.)

Lugares-comuns 322

                                                                                      Foto Hernâni Von Doellinger

Gonzalo López Abente 2


No balcón do infindo

Se me poño ao balcón do infindo espazo
e ouzo o duro rumor do alto silenzo,
sinto no corazón tal baticazo
que o pánico mortal xa non o venzo.

Medos a tremelar polo baldeiro
vestidos de negror ¡tétrica estampa!
na espera do Xuez, do verdadeiro,
que obrigue a se enterraren baixo a campa.

Choerei o balcón do espazo infindo
e buscarei descanso no meu leito...
¡Que desexo de cote estar dormindo
co corazón tranquilo no meu peito! 

Gonzalo López Abente 

(Gonzalo López Abente nasceu no dia 24 de Março de 1878. Morreu em 1963.)

Caminho 78

                                                                                                              Foto Hernâni Von Doellinger

quarta-feira, 23 de março de 2016

Para cima e para baixo

Para baixo todos os Santos ajudam. Para cima, são os Antunes.

Lugares-comuns 321

                                                                                                               Foto Hernâni Von Doellinger

Moacyr Scliar 3

- Este que passou agora foi um Volkswagen 1962, não é, amigo Gedeão?
- Não, Cego. Foi um Simca Tufão.
- Um Simca Tufão?... Ah, sim, é verdade. Um Simca potente. E muito econômico. Conheço o Simca Tufão de longe. Conheço qualquer carro pelo barulho da máquina.
Este que passou agora não foi um Ford?
- Não, Cego. Foi um caminhão Mercedinho.
- Um caminhão Mercedinho! Quem diria! Faz tempo que não passa por aqui um caminhão Mercedinho. Grande caminhão. Forte. Estável nas curvas. Conheço o Mercedinho de longe... Conheço qualquer carro. Sabe há quanto tempo sento à beira desta estrada ouvindo os motores, amigo Gedeão? Doze anos, amigo Gedeão. Doze anos.
É um bocado de tempo, não é, amigo Gedeão? Deu para aprender muita coisa. A respeito de carros, digo. Este que passou não foi um Gordini Teimoso?
- Não, Cego. Foi uma lambreta.
- Uma lambreta... Enganam a gente, estas lambretas. Principalmente quando eles deixam a descarga aberta.
Mas como eu ia dizendo, se há coisa que eu sei fazer é reconhecer automóvel pelo barulho do motor. Também, não é para menos: anos e anos ouvindo!
Esta habilidade de muito me valeu, em certa ocasião... Este que passou não foi um Mercedinho?
- Não, Cego. Foi o ônibus.
- Eu sabia: nunca passam dois Mercedinhos seguidos. Disse só pra chatear. Mas onde é que eu estava? Ah, sim.
Minha habilidade já me foi útil. Quer que eu conte, amigo Gedeão? Pois então conto. Ajuda a matar o tempo, não é? Assim o dia termina mais ligeiro. Gosto mais da noite: é fresquinha, nesta época. Mas como eu ia dizendo: há uns anos atrás mataram um homem a uns dois quilômetros daqui. Um fazendeiro muito rico. Mataram com quinze balaços. Este que passou não foi um Galaxie?
- Não. Foi um Volkswagen 1964.
 
"Cego e amigo Gedeão à beira da estrada", Moacyr Scliar 

(Moacyr Scliar nasceu no dia 23 de Março de 1937. Morreu em 2011.)

O meu Minho 21

                                                                                                                                 Foto Hernâni Von Doellinger

terça-feira, 22 de março de 2016

O Dia De 2

Hoje é o Dia da Água. Amanhã volto ao vinho.

Caminho 77

                                                                                                                 Foto Hernâni Von Doellinger

Guimarães Passos 2

... Depois

Para mim, pouco importa a recompensa
Dos meus carinhos, quando te procuro;
Dirão que tens um coração tão duro,
Que pedra alguma há que em rijeza o vença.


Dirão que a calculada indiferença
Com que tu me recebes, é seguro
Condão que tens, de todo o meu futuro
Trocar, sorrindo, em desventura imensa.


Dirão... Que importa a mim? Dá-me o teu leito,
Dá-me o teu corpo, fecha-me nos braços,
Une os lábios aos meus, o peito ao peito,


Que eu nem saiba qual seja de nós dois...
Mentem teus beijos? mentem teus abraços?
Será tudo mentira... mas depois.


"Horas Mortas", Guimarães Passos

(Guimarães Passos nasceu no dia 22 de Março de 1867. Morreu em 1909.)

Caminho 76

                                                                                                            Foto Hernâni Von Doellinger

Guilherme Braga

Amor

Olha estas velhas árvores frondosas
Que enchem de sombra a solitária rua,
E esse chão de verduras, e aquelas rosas
Que dos muros se pendem curiosas
Para verem passar a imagem tua.

Não te diz tudo amor? Ouves? Suspende!
Lá derramam as aves pela selva
As doces notas que tua alma entende:
Vês? Mais pálido um raio a lua estende
Para beijar-te os pés na escura relva.

Quando sabem que vens, tudo prepara
Recepção festival, como se fosse
Cousa do céu que por aqui passara;
Então a luz dos astros é mais clara,
Das florinhas o hálito mais doce.

Gorjeia o rouxinol já de mais perto,
Gemem as auras melodioso idílio,
Em tudo há um som de cânticos incerto,
E do livro das árvores aberto
Chovem rimas de Horácio e de Virgílio.

Eu pela tua mão, calcando a alfombra
Do verde musgo, absorto em sonhos vagos,
Cismo no teu amor que esta alma assombra,
E julgo que nos céus por entre a sombra
Nos está rindo a estrela dos Reis Magos.

É que, se a natureza, que te admira,
O musgo e o cedro, as rosas e o perfume,
Formam, para cantar-te, ignota lira,
Nos seios de minha alma outra suspira
Que mais poesia e mais amor resume.

"Heras e Violetas", Guilherme Braga

(Guilherme Braga nasceu no dia 22 de Março de 1845. Morreu em 1874.)

Lugares-comuns 320

                                                                                                                                             Foto Hernâni Von Doellinger

João Francisco Lisboa

Já um mês ou mais antes do dia da milagrosa senhora, começa a azáfama da sua festa; as belas e os elegantes perdem o sono, imaginando nos meios de melhor ataviar-se. Que receios, sobressaltos e angústias nesta amável classe de consumidores, e sobretudo na classe embezerrada dos fornecedores, pela só demora de alguns dias na chegada dos navios que trazem no seu bojo os chapéus, as luvas, os vestidos, as quinzenas, as cassas, as sedas, as plumas, as rendas, as fitas, as flores, as pomadas, os cheiros, e todos os mais gêneros enfim que dão vida e saúde às lojas, e entisicam as algibeiras dos fregueses! Como discorrem em todos os sentidos pelas ruas e travessas, como invadem todas as lojas, as pretas, as cafuzas, as mulatas, sobraçando peças, livros de amostras, e caixas e mais caixas de dourado papelão, com que vão incessantes de um lado para outro, sem conseguirem satisfazer o gosto esquisito ou requintado das caprichosas senhoritas, a quem a emulação e a competência tornam mais difíceis e impertinentes! Os sapateiros, alfaiates, costureiras, e modistas não têm mãos a medir; e a urgente e pesada tarefa abrange ordinariamente todo o curso das novenas, e só expira com o último dia da festa. O leitor sisudo e imparcial, mormente o que tem família, terá sem dúvida e por muitas vezes feito sérias reflexões sobre esta deliciosa calamidade, e sobre as suas imediatas conseqüências em relação à economia pública e privada.

"A Festa de Nossa Senhora dos Remédios", João Francisco Lisboa

(João Francisco Lisboa nasceu no dia 22 de Março de 1812. Morreu em 1863.)

Lugares-(in)comuns 154

                                                                                       Foto Hernâni Von Doellinger

segunda-feira, 21 de março de 2016

Poema em linha recta, de Álvaro de Campos, hoje

Poema em linha recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possiblidade do soco;
Eu que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu um enxovalho,
Nunca foi senão princípe - todos eles princípes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Quem contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó princípes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.


Álvaro de Campos, aliás Fernando Pessoa

Vida de cão 137

                                                                                                                 Foto Hernâni Von Doellinger

Dinis Machado 4

Uma das primeiras grandes revelações da minha infância, ao surpreender as coisas, foi verificar que me interrogava, invariavelmente, assim: qual é o lado mais cómico disto? Os desfiles militares, as cerimónias religiosas, os cumprimentos obsequiosos e constrangedores, os adereços excessivos da autoridade, as exigências rígidas da hierarquia, os compromissos artificiosos. E eu: qual é o lado mais cómico disto? Daí a fazer esta pergunta interior em qualquer situação dramática, foi um passo. A doença, a brutalidade, a estupidez, a intolerância, a maldade pura, a alucinação despótica - até o leito de sofrimento, o leito da morte. E eu: qual é o lado mais cómico disto?
Andava nessa altura a rir-me muito com as caras burlescas do cinema, não sabia que Shakespeare e Bergman existiam, ainda não tinha lido alguns livros trágicos e patéticos - e se soubesse que devia ter a faculdade de me rir de mim próprio, sabia-o sem o saber. Quando uma vez caí, a patinar no passeio com botas cardadas, e parti o dente da frente, fiz a pergunta calada e sacramental, enquanto as pessoas olhavam para mim: - Qual é o lado mais cómico disto?
Quando a infância começou a ser perturbada por desentendimentos mais amplos com o real, insisti na defesa da minha alegria, do meu prazer de viver. E até na dor que retirava dos que amava (dos meus avós, das minhas velhas tias, por exemplo), e até na morte, que sempre me surpreendia, protegia-me com essa frase defensiva, essa armadura de sol, de chuva e de subir a escada a quatro e quatro.
Creio que os cómicos do cinema me compreendiam melhor que ninguém. Habitavam o coração do desastre com a desenvoltura e a paciência evangélica dos grandes missionários da naturalidade.


"Reduto Quase Final", Dinis Machado

(Dinis Machado nasceu no dia 21 de Março de 1930. Morreu em 2008.)

Caminho 75

                                                                                                                 Foto Hernâni Von Doellinger

domingo, 20 de março de 2016

Ilse Losa 3

O meu avô, homem alto e magro, de cara larga, ossuda e um tanto avermelhada, olhos claros e quase sempre tristes, tinha o costume de levantar as sobrancelhas espessas quando dizia alguma coisa importante. Isso fascinava-me e por isso me desgostava ver-lhe, por vezes, as pingas de sopa presas no bigode pendente para cada lado da boca. Não ligava com ele, sempre tão apurado, como cabelo farto, penteado cuidadosamente. "Limpa a boca, avô", dizia eu. "Ora, ora", respondia ele, um bocado embaraçado.
A avó contrastava com a figura esguia e imponente do avô. Baixa, muito baixa mesmo, tinha a cara miúda sulcada de rugas e usava o cabelo branco rigidamente penteado para cima da cabeça, onde o juntava num puxo redondo, apertado. Preferia vestidos escuros, que protegia nas lidas domésticas com um avental cor de cinza.
Eu, a julgar pelas fotografias, não passava duma menina frágil, de cabelo louro, de feições infantilmente lisas. Nada mais descubro que valha a pena destacar.
Vivíamos os três numa pequena casa com uma varanda deitada sobre a rua, coberta com vinha. Ali minha avó passava as tardes de verão a fazer meia ou a costurar. Ao certo não me recordo se costurava, mas suponho que sim, pois não me lembro de costureira alguma que a tivesse substitutído nesse serviço. Mas seja como for: que fazia meia nunca o poderei esquecer.

"O Mundo em que Vivi", Ilse Losa

(Ilse Losa nasceu no dia 20 de Março de 1913. Morreu em 2006.)

Onde o Minho se entrega ao Atlântico

                                                                                      Foto Hernâni Von Doellinger

Menotti del Picchia 2

Chuva de pedra

O granizo salpica o chão como se as mãos das nuvens
quebrassem com estrondo um pedaço de gelo
para a salada de fruta dos pomares...

O cafezal, numa carreira alucinada,
grimpa as lombas de ocre
apedrejada matilha de cães verdes...

fremem, gotejam eriçadas suas copas
como pêlos de um animal todo molhado.

O céu é uma pedreira cor de zinco
onde estoura dinamite dos coriscos.

Rola de fraga em fraga a lasca retumbante
de um trovão.

Os riachos
correm com seus pés invisíveis e líquidos
para o abrigo das furnas. No terreiro,
as roupas penduradas nos varais
dançam, funambulescas, com as pedradas,
numa fila macabra de enforcados!


"Chuva de Pedra", Menotti del Picchia

(Menotti del Picchia nasceu no dia 20 de Março de 1892. Morreu em 1988.)

Lugares-comuns 319

                                                                                                                                              Foto Hernâni Von Doellinger

Mansueto Bernardi

Mors-amor

Quisera ser o teu caixão, rainha!
Abrir-me, receber-te e, após, fechado,
Guardar numa eça, a glória, linha a linha,
Do teu divino corpo amortalhado.

E em meio à pompa do ritual sagrado,
Eu, tronco vil de condição mesquinha,
Contigo celebrar o meu noivado...
Saber-te minha, inteiramente minha!

Sentir-te! Amar-te sempre! E, face a face,
Que o nosso estranho amor, fria consorte,
Onde tudo termina, principiasse!

E, ó volúpia sem fim! No último abrigo,
Na quieta alcova conjugal da morte,
A pouco e pouco me fundir contigo!

Mansueto Bernardi 

(Mansueto Bernardi nasceu no dia 20 de Março de 1888. Morreu em 1966.)

Caminho 74

                                                                                                                Foto Hernâni Von Doellinger

sábado, 19 de março de 2016

Fectivamente escuto as conversas

- Vamos lá ver: quando você diz ralmente, o que é que realmente quer dizer?
- Ralmente.
- Quê?
- Quero dizer ralmente, o que é que havia de ser? Ralmente...
- Se bem percebo: quando diz ralmente, quer dizer realmente. É?
- Zatamente.
- Portanto: quando diz zatamente, quer dizer exactamente?
- Tomaticamente.
- Já sei: e quando diz tomaticamente, quer dizer automaticamente, não é?
- Fectivamente.

O meu pai gostava muito de fazer rir a minha mãe

sexta-feira, 18 de março de 2016

A propósito do Dia do Pai, que é só amanhã. E só!

1.
O Dia do Pai tal qual ele é

- Tcharam! Feliz Dia do Pai!... (apitos, confetes e serpentinas)
- Boa noite.
- É dia, pai. Dia do Pai, pai! Parabéns!
- Igualmente. Você quem é?
- Eu? Então não sabe quem eu sou, pai?
- Sei.
- Quem é que eu sou, pai?
- Não sei.
- Sou o seu filho, pai!
- Que horas são?
- Sou o seu filho, pai. Lembra-se? O Tó! Tó!!
- Totó?
- O Tó, pai, o seu filho...
- Eu não tenho filhos...
- Tem, pai. Eu sou o Tó!
- Tó?
- António, pai. António!
- O meu filho chamava-se António.
- Sou eu, pai. Sou o António...
- Que horas são?
- E esta é a Lu, pai, a minha mulher, a sua nora.
- Agora vou dormir.
- Olhe para a sua nora, porra! É todos os anos a mesma merda, pai...
- Que horas são?
- Ó pai, olhe para os seus netos, caralho! Ó Bi, dá o desenho ao bu.
- Boa noite.
- É dia, pai, são onze da manhã.
- Onde é que eu estou?
- Está no lar, pai.
- No nosso lar?
- No seu lar, pai. Já lhe expliquei mil vezes que eu e a Lu não podemos, temos a nossa vida, e a vida é assim. Mas este lar é bom. Custa-nos a sua reforma quase toda, mas é muito bom...
- És o António?
- Sou, pai. Sou o António.
- Chama a tua mãe, que eu preciso de urinar.
- A mãe já morreu, pai. Quantas vezes já lhe disse? A mãe morreu...
- Quero ir para casa.
- O pai está aqui muito bem, não está, Lu?

(ouve-se um soluço)

- Está a chorar porquê, pai?
- A mãe morreu...
- Foi há vinte anos, pai. Há vinte anos que não saímos disto, sempre a mesma choradeira. Deixe lá a mãe em paz. Hoje é Dia do Pai...
- A mãe morreu...
- Nunca se pode falar consigo, pai.
- Boa noite.
- Estraga sempre o ambiente, pai.
- Que horas são?
- Olhe, nós vamos mas é embora, pai. Eu e a Lu temos mais que fazer e os meninos precisam de apanhar ar. Para o ano voltamos cá, se Deus quiser, mas agora vamos, pai...
- Ide, ide, meus filhos. Da puta. Ide chamar pai a outro... (cai o pano)

(Escrito e publicado no dia 19 de Março de 2015)
  

2.
"Pai só há um"

lamentou-se o professor-ensaiador, espreitando pela cortina a plateia esgotada do teatrinho escolar. "O resto é tudo mães. Galinhas"...

(Escrito e publicado no dia 19 de Março de 2013)


3.                                                           
Dia do pai

Que dirão os nossos filhos quando, daqui a uns anos, lhes perguntarem?
Talvez: "O meu pai? Lembro-me que era um desempregado que andava lá por casa. Era um tipo esquisito..."

(Escrito e publicado no dia 19 de Março de 2012)

Davides contra Golias

                                                                                                                Foto Hernâni Von Doellinger

Fectivamente escuto as conversas

- Vamos lá ver: quando você diz ralmente, o que é que realmente quer dizer?
- Ralmente.
- Quê?
- Quero dizer ralmente, o que é que havia de ser? Ralmente...
- Se bem percebo: quando diz ralmente, quer dizer realmente?
- Zatamente.
- Portanto: quando diz zatamente, quer dizer exactamente?
- Tomaticamente.
- Já sei: e quando diz tomaticamente, quer dizer automaticamente, não é?
- Fectivamente.

Caminho 73

                                                                                                          Foto Hernâni Von Doellinger

Augusto Abelaira 3

A tua boa acção diária... E respondo ao Justino Soares que se vá embora descansado, que estou quase a acabar a crónica sobre política internacional (uns pozinhos do Monde, outros do Nouvel Observateur, deste, daquele), mas puxando a coisa bem mais para a esquerda, por descargo de consciência, aliás inútil, dado que a censura se encarregará de tosquiar esse "para a esquerda", um "para a esquerda" difícil, de resto: o conflito sino-soviético, como poderíamos imaginar possível, há vinte anos, um conflito assim entre irmãos - mas que mundo é este em que somos obrigados a julgar as coisas nas bases postas pelos outros e não por nós, a aceitar dilemas que talvez sejam simplesmente problemas mal postos? Pois, que não se preocupe, eu trato da necrologia. "- tinha-me ele dito -, combinei um encontro com uma gaja bestial e já estou atrasado..." Sim, a minha boa acção diária para que no exame de consciência, que aliás não farei logo à noite (falta-me o tempo!), possa sentir-me de bem comigo próprio, possa dizer-me que não sou um puro egoísta - muito antes pelo contrário, sou capaz de sacrifícios (quais?) pelos outros: adio, neste caso, por quinze minutos (e quinze minutos, a brincar a brincar, são um nonagésimo sexto do dia), a minha saída deste antro detestado - mas como aproveitaria eu esses quinze minutos se não tenho como tu, Justino Soares, uma gaja bestial à minha espera (que nem estará à tua espera, pois acabará certamente por chegar ainda mais atrasada do que tu)? E, ao mesmo tempo que nas paredes brancas das casas do outro lado da rua a luz do Sol me obriga a desviar os olhos da janela, pergunto-me se tu, mulher que vais chegar atrasada, saberás que ele te trata por gaja, pergunto-me como te falará ele, como falarás tu - se nesse encontro não porão vocês um pouco de sonho, de palavras grandiloquentemente romanescas, a ilusão de que estão a viver um momento único, jamais vivido sobre a Terra, inesquecível, um momento que irá prolongar-se por muitos anos, que fará do mundo, de todas as coisas, uma doçura verde de erva molhada (sim, uma doçura verde de erva molhada) ou se terão somente a lúcida consciência de colherem da vida o resíduo mais imediato e provisório - resíduo sem memória futura, tão identificado com o presente que até já passou.

"O Arquimortes", Augusto Abelaira

(Augusto Abelaira nasceu no dia 18 de Março de 1926. Morreu em 2003.)

Passei o dia ouvindo o que o mar dizia

                                                                                                                                    Foto Hernâni Von Doellinger

Ronaldo Cunha Lima

Poema do desencontro

Era segunda, imaginei domingo.
Era de noite, imaginei manhã.
Chovia muito e eu imaginava sol.
As pessoas se comprimiam e eu não via nada.
Havia multidão, eu me sentia só.

Você não estava, mas eu a fiz presente.
Você chegava sem saber se estava.
Você falou sem saber o que disse
e disse coisas sem dizer palavras...

Você estava perto sem saber se estava.
E até me beijou sem se sentir beijada
Era segunda, mas imaginei domingo.

Chegou o sol e se fez manhã,
chegou o dia e se fez domingo.
Houve palavras, mas não eram suas.
Houve presença, mas sem ser você.
Houve multidão e agitação profunda...

Então era manhã, mas eu quis a noite.
Fazia sol e eu queria chuva.
Era domingo e desejei segunda.


Ronaldo Cunha Lima

(Ronaldo Cunha Lima nasceu no dia 18 de Março de 1936. Morreu em 2012.)

Vida de cão 136

                                                                                                                Foto Hernâni Von Doellinger

Roberto Blanco Torres

Loitador...

Loitador, non te deteñas!
Ten cada hora novo alento,
sigue a luz que te ilumiña,
mira a cotío pró ceo.

A lado e outro do camiño
toparás pinchos e rebos,
e da estulticia e a envexa
ladraranche os cans famentos.
 

Loitador, non te deteñas!
Levas a verdá no peito,
e a estrela que te guía
ten resplandores eternos!


"Orballo da Media Noite", Roberto Blanco Torres

(Roberto Blanco Torres nasceu no dia 18 de Março de 1891. Morreu em 1936.)

Caminho 72

                                                     Foto Hernâni Von Doellinger

Tatiana Belinky

Você sabe o que é Cocanha?
Cocanha é uma terra estranha,
País que se esconde
Ninguém sabe onde -
Lugar misterioso, a Cocanha.

A vida ali é um deleite
Suave tal qual puro azeite -
Na bela Cocanha
O povo se banha
Em rios de mel e de leite.

Cocanha é o país que enfeitiça,
Atrai pela santa preguiça
Da tal vida airada
Do "não fazer nada",
Do "nada importa" por premissa.

Agora, responda ligeiro,
Não leve um dia inteiro
Para decidir
Se quer residir
Naquele país, tão maneiro!

Então eu respondo ao assédio:
Se não houver outro remédio
Eu vou desistir
De lá residir -
Pois lá morreria... De tédio!


"Limeriques da Cocanha", Tatiana Belinky

(Tatiana Belinky nasceu no dia 18 de Março de 1919. Morreu em 2013.)

quinta-feira, 17 de março de 2016

A ver navios 68

                                                                                                                 Foto Hernâni Von Doellinger

Antônio Maria

Soneira e preguiça

Não sei, mas com esse tempo assim, essas nuvens pesadas, meu peito opresso, daria um conto e seiscentos para ser Augusto Frederico Schmidt e não precisar trabalhar. Falar nisso, onde anda Augusto, que nunca mais me telefonou? Comunistizou-se, na certa. Sempre achei que Augusto daria um militante da Quinta Casa.
Com esse tempo assim, se pudesse, subiria a Petrópolis (uma Petrópolis, é claro, avant les roses), pegaria um Simenon, protagonizado por Maigret, e não sairia da cama. Sinto uma soneira, uma preguiça! Por que será que não tenho coragem de enriquecer? Quase todos os meus colegas de imprensa enriqueceram, acordando cedo, indo à cidade e vendendo suas palavrinhas, a um conto e quinhentos. O jornalismo, bem administrado, é tão bom negócio quanto a especulação imobiliária e o jogo da bolsa. Querendo, a gente vende bem aquilo que publica e, melhor ainda, aquilo que não publica.
Outro negócio que eu poderia fazer, sem grandes canseiras, era agiotagem. Ah, daria um grande agiota! Às vezes me olho no espelho e vejo o agiota. Eu tenho os olhos pequenos do agiota magnífico. A matéria-prima da agiotagem, como sabeis, é o dinheiro... e dinheiro, com as amizades que tenho, seria canja conseguir. Tomaria, nos bancos, a 1% e emprestaria a 7%. Com o físico que Deus me deu (e quase tira), exigiria bons avalistas - do gabarito de Walter Moreira Salles para cima.
Deixa de besteira, Antônio. Vai trabalhar. Teu combustível é a preguiça. O "autêntico real, o cerne da tua filosofia", como disse Novalis. Não fosses tão preguiçoso, estarias ainda botando esterco, com as mãos, nos canteiros de cana da usina Cachoeira Lisa. Escreve, Antônio. Escreve sobre o Nada, suas causas e conseqüências. No Nada, por exemplo, há uma senhora nua, tocando cavaquinho. Um menino montado num leão. Uma cobra de salto alto. Fazer poesia é mais fácil do que carregar um piano - do que tocá-lo, como os dedos de Leon Fleisher. Para que chegues à poesia, basta que te aprisiones em ti mesmo e cuspas vigorosamente a face dos outros. O poeta tem que ignorar o próximo e odiar a si mesmo. (Palavra de honra, jamais escrevi frases tão estúpidas. Mas vão ficar, porque se retirá-las a crônica ficará menor.).
Passando do Nada ao Tudo. Isto é, voltando à realidade, telefonei para a rádio, a televisão, e soube que estava em greve. Eu estou em greve, meus amigos. Meus companheiros se batem por salários que não irão aumentar os meus e por um aumento de programação ao vivo, que só aumentará, em muito, minhas obrigações. És um homem lamentável, Antônio. Viva a greve!

"Com Vocês, Antônio Maria", Antônio Maria

(Antônio Maria nasceu no dia 17 de Março de 1921. Morreu em 1964.)

quarta-feira, 16 de março de 2016

Ferra aqui a ver se eu deixo

                                                 Foto Hernâni Von Doellinger

Isso, prova a Felicidade. Prova também a Clementina, a Adelaide, a Iracema, a Adosinda, a Felisberta, a Miquelina, a Leocádia, a Emerenciana, a Umbelina, a Hortênsia e a Perpétua. Depois fica com a que te soube melhor.

Lugares-(in)comuns 153

                                                                                       Foto Hernâni Von Doellinger

Augusto Boal

- Você é marxista, Jane?!
- Deus meu livre! - Foi a resposta imediata.
- Então por que é que você diz essas coisas?! - Era Jay, entrando na conversa. - Isso que você está dizendo são lugares-comuns marxistas...
- Eu li Marx de cabo a rabo. Engels, Lênin, Mao, todos eles. Li tudo. E creio firmemente que eles têm razão: o capitalismo é uma das formas sociais mais cruéis e desumanizadoras que a humanidade já conheceu! Creio firmemente na luta de classes!
- Então, meu bem, você é marxista - disse Jelly, um pouco mais aparvalhado que o seu natural. - Teremos que prendê-la. Conduzi-la à delegacia mais próxima.
- Creio na luta de classes, creio que existem exploradores e explorados, mas estou decididamente ao lado dos exploradores! Sou capitalista!
- Ah, então está bem. Pra mim tanto faz…- resmungou Jelly, como sempre mais interessado em apalpar as coxas da jovem loira.


"A Deliciosa e Sangrenta Aventura Latina de Jane Spitfire", Augusto Boal 

(Augusto Boal nasceu no dia 16 de Março de 1931. Morreu em 2009.)

O meu Minho 20

                                                                                                                                              Foto Hernâni Von Doellinger

Lupe Cotrim Garaude

De pedra

- Eu sou de pedra, me dizias,
a defender tua distância.


E esquecias o musgo,
essa tua epiderme de ternura,
e o teu corpo de carinhos,
num horizonte de água e terra,
a te envolver na vida.


- Eu sou de pedra - insistias.
- Pesado. Denso. Inalterável.
De estofo eterno.
Apenas estou, não sofro;
se algum gesto me ferir,
eu sou duro;
quebrarei o gesto sem sentir.


E esquecias
que és pouso de borboletas,
alicerce de flores,
abraço de raízes,
vulnerável em tudo
do que em ti pertence
e minha mão possui, acaricia.


- Eu sou de pedra.
E esquecias, esquecias.


"Entre a Flor e o Tempo", Lupe Cotrim Garaude

(Lupe Cotrim Garaude nasceu no dia 16 de Março de 1933. Morreu em 1970.)

Lugares-comuns 318

                                                                                      Foto Hernâni Von Doellinger

Xosé Lesta Meis

Nunha pequena aldea que hai cerca da Cruña vivía unha familia que lle chamaban "a da rúa". Non sei por qué. Na aldea non había rúas , como as non hai en ningunha aldea. Sitios por alí que tiveran este nome tampouco sei de ningún. O caso é que para referir-se a calquera dos da familia, despois de nomeá-lo, encanabamos: "a da rúa", ou "o da rúa", según que fose muller ou home. Compoñía-se dun matrimonio e catro fillos. El chamaba-se Xaquín, ela Xuana. El era alto, delgado e ben feito. Inda que vello, vía-selle que no seu tempo fora bo mozo. Aínda me parece está-lo vendo comer na broa sentado á porta da casa, recollendo cunha man as frangullas que lle caían da outra. Despois de peneirá-las un pouquiño pra que se lle xuntaran, metí'-as na boca dun pulo. Ela era unha muller pequena pero feituca como un carto e moida súa casa. Nunca se vía máis que da casa ó curral ou á eira. Sempre, dendes das dez hastra as doce da mañán, andaba cun carabullode toxo na man, queimado polo bico. Debía de facé-lo lume con el.
Non recordo -la sentada nunca nin leriando con ninguén. As galiñas, o gato e o cocho conocía-na como unha persoa á outra que se visen arreo, entendía-na tamén. Podo xurá-lo. Ela falaba-lles o mesmo que á xente: con agarimo unhas veces e con carraxe outras; según estivera. Pero cáseque sempre con agarimo.
- Ide-vos d'aí - decía-lle ás galiñas cando a seguían pra que lles dera de comer - ; inda non é hora, inda non é hora. Peteirade por aí un pouco máis. Boh! Xa cho creo! Vou-vos estar dando sempre! Así, era a nai! Non teño cousas de máis présa! Agardade que agora!...
E metía-se na casa. As galiñas quedaban-se á porta un pouco. Despois encomezaban o seu coróoo cocococó! Pero nun istantiño calaban. Tiña-as afeitas a se conformaren co que lles dixera e iban-se arredando pouco a pouco, bicando aquí e alí, como ela decía-lles.

"Manecho o da Rúa", Xosé Lesta Meis 

(Xosé Lesta Meis nasceu no dia 16 de Março de 1887. Morreu em 1930.)