sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

José Mauro de Vasconcelos 3

De repente, não existia mais escuro nos meus olhos. O meu coração de onze anos se agitou no peito amedrontado.
- Meu São Jesus do carneirinho nas costas, ajudai-me! A luz crescia mais. E mais. E quanto mais crescia, o medo aumentava a tal ponto que, se eu quisesse gritar, não conseguiria.
Todo mundo dormia calmamente. Todos os quartos fechados respiravam o silêncio.
Sentei-me na cama apoiando minhas costas à parede. Meus olhos arregalavam-se, quase saltando das órbitas.

Queria rezar, invocar todos os meus santos protetores, mas nem sequer o nome de Nossa Senhora de Lourdes escapava dos meus lábios. Devia ser o diabo. O diabo com que me amedrontavam tanto. Mas, se fosse ele, a luz não seria na cor da lâmpada, e sim de fogo e sangue, e haveria por certo o cheiro de enxofre. Nem sequer poderia chamar em socorro o Irmão Feliciano, o Fayolle querido. Fayolle nessa hora deveria estar no terceiro sono, roncando bondade e paz, lá no Colégio Marista.
Uma voz soou macia e humilde:
- Não se assuste, meu filho. Só vim para ajudá-lo.
O coração batia agora contra a parede e a voz saiu fina e medrosa como o canto primeiro de um galinho.
- Quem é você? Alma do outro mundo?
- Não, tolinho.
E uma risada bondosa repercutiu pelo quarto.
- Vou fazer mais luz, mas não se assuste que nada de mal poderá acontecer.
Disse um sim indeciso, mas fechei os olhos.
- Assim não vale, amigo. Pode abri-los.
Arrisquei um, depois o outro. O quarto tinha adquirido uma luz branca tão bonita que pensei ter morrido e me encontrar no paraíso. Mas isso era impossível. Todo mundo em casa dizia que o céu não era para o meu bico. Gente como eu ia direitinho pras caldeiras do inferno virar espetinho.
- Olhe pra mim. Sou feio, mas meus olhos só inspiram confiança e bondade.
- Onde?
- Aqui, ao pé da cama.
Fui-me aproximando da beira e criei coragem para olhar. O que vi me encheu de pânico. Fiquei tão horrorizado que um frio perpassou-me a alma inteira como se fosse um zíper. Retornei tremendo à posição anterior.

- Assim não, meu filho. Eu sei que sou muito feio. Mas, se você tem tanto pavor, vou-me embora sem ajudar.
Sua voz se transmudara numa súplica que resolvi conter-me. Mas foi com bastante vagar que me arrastei para o seu lado.

- Por que esse medo todo?
- Mas você é um sapo?
- E daí? Sou.


"Vamos Aquecer o Sol", José Mauro de Vasconcelos

(José Mauro de Vasconcelos nasceu no dia 26 de Fevereiro de 1920. Morreu em 1980.)

Sem comentários:

Publicar um comentário