sábado, 20 de fevereiro de 2016

Alexandrina

Foto Hernâni Von Doellinger

Tenho na ideia escrever um livro sobre a minha mãe. E sei que, ao contrário do que é uso, são muito poucas as pessoas que merecem que se lhes escreva um livro sobre. Mas a minha mãe é diferente, justifica, é uma mulher extraordinária, no sentido literal do termo, e não por ser minha mãe. Nesta história, eu sou o menos.
Eu ia agora escrever que a minha mãe teve uma infância muito difícil, mas dei fé a tempo de que estaria a mentir: a minha mãe não teve infância, não foi à escola, a vida mandou-a para criada de servir aos sete anos de idade. A minha mãe ficou viúva e com quatro filhos aos 33 anos. Tempo do fascismo - sim, do fascismo -, da pobreza sufocante e do opróbio, da reprovação pública, porque a má-língua sobre vizinhos ou conhecidos era o passatempo que havia antes dos reality shows da TVI. Naquele tempo de cinza, ser-se nova e viúva era uma desgraça, mas também, socialmente, um defeito, uma marca na testa. A minha mãe era a Viúva da Bomba. E no entanto, sozinha, fez de nós quatro, à sua imagem e semelhança, as pessoas que somos, vertebrados e honrados, gente digna e séria, respeitadora e respeitada, menos eu, que sou um bocado palhaço.
Como é que a minha mãe conseguiu? Com muito muita canseira, com camisolinhas e casaquinhos de lã feitos para fora, e lágrimas que eu bem as via, com os tostões contados sete vezes ao dia, com os meus irmãos mais velhos - a Nanda e o Nelo - a irem ainda crianças para o trabalho para que eu e o Lando, os mais novos, pudéssemos "estudar e ser alguém na vida". Sermos alguém na vida em nome deles, de todos, porque nós os cinco éramos apenas um, assim é que a nossa mãe nos queria, como os mosqueteiros, ainda nem fazíamos ideia do Intermarché. Evidentemente, só eu dei para o torto.
A minha mãe fazia das tripas coração e da massa com fressura um pitéu. O dinheiro não chegava e então passou a tomar conta de crianças. Isso, a minha mãe tomava conta dos meninos dos outros, era "ama" disputada, metiam-se empenhos para que ela aceitasse as crianças. Lembro-me do Miguel, da Guidinha, do André, da Xaninha, da Susana, do Ginho, do Miguelinho, e esqueço-me indesculpavelmente de outros, e os meninos chamavam à minha mãe, cada qual à sua maneira, "mãe Xandrina", "mãe minha" (haverá forma mais bonita de chamar alguém?) ou simplesmente "bozinha", que os netos também lhe passaram pelas mãos. A querida Guidinha, casada e também mãe, ainda hoje chama "mãe Xandrina" à minha mãe e a mim chama-me "tio". E eu gosto. Na Rua do Assento, na casinha de pedra - minúscula, imensa e mágica -, uma casa que então podia ser a dos sete anões ou a do João do pé de feijão, conforme, a minha mãe chegou a olhar por nove meninos ao mesmo tempo. Olhava por eles para olhar por nós. Era severa e amorosa, dava-lhes, de acordo com a cartilha que lhe corria no sangue, o pão e a educação, tinha ali uma espécie de infantário, restrito e de alta qualidade, e se fosse hoje se calhar ia presa.
Já viram a importância das mães como a minha, que, repito, para além dos seus, tomava conta dos filhos dos outros? Olhem para as últimas notícias, vejam aí os pais que não sabem tomar conta dos próprios filhos...


A minha mãe comeu o pão que o diabo amassou e diz que o 25 de Abril foi o melhor que aconteceu em Portugal. Isso e as vitórias do FC Porto. Dei voltas e voltas à cabeça e finalmente encontrei um título excelentíssimo para o livro que tenho na ideia escrever sobre a minha mãe. Não se deve partir do título para o texto, tomem nota, mas desta vez até calhou bem. "Alexandrina" é o meu título, depois de muito muito trabalhado, e é uma categoria, não é?
Mas a minha mãe é extraordinariamente maior do que a minha habilidade para a escrita. Eu sei que nunca na vida vou saber escrever um livro sobre a minha mãe - na verdade, eu não sei escrever livro nenhum -, portanto, descendo à terra, a partir deste momento (são as 16h21 de sábado, dia 20 de Fevereiro de 2016, e o meu cunhado Álvaro faz hoje anos), mudo o tempo do verbo e falo apenas do livro que tinha na ideia escrever sobre a minha mãe. Tinha. Para os arquivos, ainda assim, faço questão que fique registado o título do livro que eu nunca vou escrever: "Alexandrina", que já diz muito...

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