quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Eça de Queirós 3

A estação de Ovar, no caminho-de-ferro do Norte, estava muito silenciosa pelas seis horas da tarde, antes da chegada do comboio do Porto.
A uma extremidade da plataforma, um rapaz magro, de olhos grandes e melancólicos, a face toda branca da frialdade fina de Outubro, com uma das mãos metida no bolso dum velho paletó cor de pinhão, a outra vergando contra o chão uma bengalinha envernizada, examinava o céu; de manhã chovera; mas a tarde ia caindo clara e pura; nas alturas laivos rosados estendiam-se como pinceladas de carmim muito diluído em água e, longe, sobre o mar, para além duma linha escura de pinheirais, por trás de grossas nuvens tocadas ao centro de tons de sanguínea e orladas de ouro vivo, subiam quatro fortes raios de sol, divergentes e decorativos - que o rapaz magro comparava às flechas ricamente dispostas de um troféu luminoso.
Na estação havia apenas um passageiro esperando o comboio: era um mocetão do campo, que não se movia, encostado à parede, com as mãos nos bolsos, os olhos inchados de ter chorado duramente cravados no chão, e ao lado, sentadas sobre uma arca de pinho nova, estavam duas mulheres, uma velha, e uma rapariga grossa e sardenta, ambas muito desconsoladas, tendo aos pés, entre si, um saco de chita e um pequeno farnel de onde saía o gargalo negro de uma garrafa.
O chefe da estação, um gordo com os queixos amarrados num lenço de seda preta, o boné de galão sujo muito posto ao lado, apareceu então à porta da sala das bagagens, de charuto nos dentes. O rapaz magro dirigiu-se timidamente para ele, disse:
- Creio que o comboio vem atrasado...
O chefe afirmou silenciosamente com a cabeça; e depois de uma fumaça:
- Vem sempre atrasado aos sábados... É a demora em Espinho.


"A Capital", Eça de Queirós

(Eça de Queirós nasceu no dia 25 de Novembro de 1845. Morreu em 1900.)

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