segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Herberto Sales 3

Quando, revolvendo as gavetas de velhas cômodas, e os baús e as arcas de guardados da minha família, acumulados com o tempo no depósito do sobrado, comecei a recolher, em Andaraí, muitos anos depois da morte de tio Marcelino, aquele esparso material evocativo da sua vida, a ressurgir do desbotado antigo e grave de fotografias, álbuns, cartas, e dos postais enviados do estrangeiro à minha mãe - considerei, nas boas lembranças suscitadas por aquelas relíquias de intimidade familiar, o sombrio contraste daqueles anos de solidão no palacete, culminados num episódio tão dramático para todos nós. Sim: nunca hei de me esquecer. Estava em aula, absorvido nos meus apontamentos, quando o Professor Costa Pereira irrompeu na sala, transtornado, e me pediu que o acompanhasse sem me deixar sequer recolher os livros e os cadernos:
- Deixe isso aí; depois você apanha. Vamos!
No corredor, andando apressado à minha frente, deixou escapar, nervoso, esta breve frase:
- Seu tio sofreu um acidente.
Quase a correr, transpôs o portão do colégio, e ganhou a rua, sem chapéu, o paletó a descair-lhe dos ombros, desabotoado, e rumou para a Avenida Bastos, que ficava perto. Eu me esforçava por emparelhar-me com ele, ao longo da calçada, sem o conseguir; no meu aturdimento, estranhava que o bom Costa Pereira, homem de morosidades e de estudo, perdido nos seus vagares, se agitasse tanto, naquele ímpeto inusitado. Hoje, compreendo os motivos da sua grande pressa, determinada por uma aflição de espírito que, naquela época, certamente escapava à minha percepção de menino. Ao chegarmos ao palacete, havia alguns curiosos estacionados no passeio; uma ambulância se afastava, branca e veloz. Não era, como as atuais, provida de sirene. Fazia soar uma estridente campainha, a pedir passagem, num alarido de urgência e desespero, amortecido aos poucos na distância, entre o rumor dos bondes, no fim da rua. Ainda com aquele agoniado toque a vibrar nos ouvidos, atravessamos o jardim; e, ao aproximarmo-nos da varanda, senti no ar, como a desprender-se das palmeiras, um cheiro abafado de fumaça. Curioso, lancei os olhos ao recanto onde meu tio habitualmente se entregava ao trato dos seus adubos, na ideia de encontrá-lo ali. O que vi, entretanto, foram uns estranhos sinais de desordem - terra espalhada no chão, vasos quebrados, e em meio àquilo uma peneira chamuscada. Sem dúvida, lavrara no local um começo de incêndio, de que havia vestígios mais evidentes nuns sacos de aniagem enegrecidos pelo fogo. Devia ter sido apagado com a mangueira da rega, a esguichar ainda um fio de água nos ladrilhos, enquanto o velho Alfredo fechava precipitadamente a torneira. Não me foi difícil então localizar o cheiro: todo aquele trecho da varanda cheirava a queimado. E, como primeiro indício de que algo muito mais grave ocorrera no palacete, a cozinheira, trêmula, a um canto, enxugava com o avental os olhos marejados de lágrimas. Um indício mais claro surgiria logo depois: fomos encontrar tia Edite na sala, derreada numa cadeira, chorando, e o Vilela a seu lado, muito pálido, a dar-lhe a beber num copo um calmante. Ia pela casa uma desolação. Havia como um vazio, a indicar, naquela atmosfera pesada, de reposteiros e candelabros, a mudança, o fim de alguma coisa imponderável. Erguendo os braços, na sua aflição, Costa Pereira correu para Vilela:
- Acabo de ser avisado do acidente. Mas que houve?
E Vilela, inda com o copo de remédio na mão:
- Uma desgraça! Uma desgraça! A ambulância acaba de levar Marcelino para o hospital. Vamos para lá agora mesmo.

"Dados Biográficos do Finado Marcelino", Herberto Sales

(Herberto Sales nasceu no dia 21 de Setembro de 1917. Morreu em 1999.)

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