sábado, 23 de maio de 2015

Quantas pranas tem uma rana?

                                         Foto Hernâni Von Doellinger

O meu avô Bernardino Neques, que nunca aceitou copo dado e levava tudo à frente na hora da pancadaria, tinha o seu lado musical. Desunhava-se satisfatoriamente com a concertina e o acordeão, e já velhinho veio-lhe a mania do violão, lembro-me que com alguma falta de jeito, Deus me perdoe se estou a ser injusto. Esqueçamos, porém, o violão, o acordeão e a concertina, que foram só para meter conversa. Tornemos aos bombos, à caixaria.
O Neques do meu avô Bernardino não era de baptismo. O verdadeiro nome do meu avô de Basto era Amigo Pereira - assim lhe chamava toda a gente, e suponho que não é preciso dizer mais nada para que se perceba de que marca era o homem. A alcunha que ficou famosa veio-lhe do tempo de moço, contava-se, quando rufava a bom rufar na caixa, honesto instrumento por onde começou na arte. E tocava naquele ritmo que ele gostava de explicar como neque-neque-neque, neque-neque, neque-pum. Neques, pois.
O meu avô era apaixonante. Obviamente Revelhe, por causa do meu pai e por bom gosto natural. E o toque de caixa, para o Amigo Pereira, tinha ciência, solfejo. Gostava de perguntar-me, por exemplo, Quantas pranas tem uma rana?, como se estivéssemos a elaborar sobre fusas e semifusas. Eu dizia que não sabia, que era o que o velho Neques queria ouvir, para logo a seguir me ensinar, matreiro e mais uma vez, Conta-as, rapaz: rana-catrapana-catrapana-pana-pum; quantas são?
Já não há bernardinos assim. E faz-me diferença. Pum.

(Texto escrito e publicado no dia 2 de Abril de 2014. Junto-lhe hoje fotografia, aproveitando a amostra do Senhor de Matosinhos que me passou há bocado à porta de casa.)

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