terça-feira, 25 de novembro de 2014

Eça de Queirós 2

Havia certamente duas horas que assim dormia, denso e estirado no catre, quando me pareceu que uma claridade trémula, como a de uma tocha fumegante, penetrava na tenda - e através dela uma voz me chamava, lamentosa e dolente:
- Teodorico, Teodorico, ergue-te, e parte para Jerusalém!
Arrojei a manta, assustado: - e vi o doutíssimo Topsius, que, à luz mortal de uma vela, bruxuleando sobre a mesa onde jaziam as garrafas de champanhe, afivelava no pé rapidamente uma velha espora de ferro. Era ele que me despertava, açodado, fervoroso:
- A pé, Teodorico, a pé! As éguas estão seladas! Amanhã é Páscoa! Ao alvorecer devemos chegar às portas de Jerusalém!
Arredando os cabelos, considerei com pasmo o sisudo, ponderado doutor:
- Oh Topsius! Pois nós partimos assim, bruscamente, sem os nossos alforges, e deixando as tendas adormecidas, como quem foge espavorido?
O erudito homem alçou os seus oculos de ouro, que resplandeciam com uma desusada, irresistível intelectualidade. Uma capa branca, que eu nunca lhe vira, envolvia-lhe a douta magreza em pregas graves e puras de toga latina: e lento, esguio, abrindo os braços, disse, com labios que pareciam clássicos e de mármore:
- D. Raposo! Esta aurora que vai nascer, e em pouco tocar os cimos do Hébron, é a de quinze do mês de Nizam; e não houve em toda a história de Israel, desde que as tribos voltaram de Babilónia, nem haverá, até que Tito venha pôr o ultimo cerco ao Templo, um dia mais interessante! Eu preciso estar em Jerusalém para ver, viva e rumorejando, esta página do Evangelho! Vamos pois fazer a santa Páscoa a casa de Gamaliel, que é um amigo de Hillel, e um amigo meu, um conhecedor das letras gregas, patriota forte e membro do Sanedrim. Foi ele que disse: "Para te livrares do tormento da dúvida, impõe-te uma auctoridade." Portanto, a pé, D. Raposo!

"A Relíquia", Eça de Queirós

(Eça de Queirós nasceu no dia 25 de Novembro de 1845. Morreu em 1900.) 

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