domingo, 31 de agosto de 2014

Fajãs de São Jorge: as terras esquecidas 2

Isolamento. Mas também aquilo não é para qualquer. Exige força, perseverança, saber estar só. É o valor dos resistentes. Ainda aqui há uns bons anos havia fajãs, como a do Cerrado das Silvas, habitadas todo o tempo por uma única família. Cultivavam as suas precisões, invernavam o gado, vendiam lenha a lapas, ali apanhadas no seu calhau. A ingratidão dos elementos, os frequentes sismos que sucessivamente apequenam o espaço, o isolamento do resto da ilha, puderam mais. E quase todos abalaram para as vilas ou para a serra.
As comunicações também não ajudavam. Sem telefone, com o mar imprevisível como derradeiro recurso de ligação, os caminhos não passavam de trilhos, por rochas, escarpas e ravinas, desenhando a encosta. Em algumas fajãs foi até preciso construir um tipo especial de carro de bois, com um eixo mais curto. Mas nem assim se ultrapassavam vias constantemente cortadas por terras e pedras deslocadas. Hoje, de estradas melhoradas, há fajãs que servem às gentes serranas como casa de Verão, onde são passados os domingos e dias santos, ou sazões agrícolas, principalmente no Inverno.
As mais típicas e ainda activas fajãs de São Jorge pertencem ao concelho da Calheta, na parte oriental da ilha açoriana. Vamos conhecê-las. E, porque a jornada é dura, comecemos, para ambientar, pelo mais fácil, mesmo à beira, a Fajã Grande, no mesmo plano e a continuação natural da pacata e bonita vila. Uma fajã urbana, sem os exotismo que iremos encontrar lá mais para diante, do lado de lá da sede concelhia. Por isso - pensou a Câmara - aqui haveria que criar condições de chamamento, inventar o turismo. E vai de construir, encostado ao mar, um parque de campismo com todas as condições tidas por necessárias e servido, como bónus, por uma piscina natural e uma visão ideal do Pico, "o ponto mais alto de Portugal", e do Faial.
Uma carrinha apetrechada para a venda, minimercado ambulante aparelhado de potentes altifalantes, distribui música, engodando os habituais clientes: tornámos à vila. E enquando vamos ouvindo as lamentações do povo da terra, por via do porto - que as obras do Governo Regional melhoraram para pior, tornando o cais quase inoperacional e impedindo por sistema a acostagem do Cruzeiro do Canal ou do Cruzeiro das Ilhas -, aprestamo-nos para o ataque às histórias das fajãs dos Vimes e de São João, ainda a sul, a caminho da ponta do Topo. Vamos de automóvel e subimos a serra por boa estrada alcatroada. À nossa direita vemos e ouvimos o mar, batendo, lá muito ao fundo, numa pequena fajã desabitada, abandonada em ruínas: a da Fragueira. Estão lá, marcados pelo tempo, os restos da casa onde nasceu o maestro Francisco de Lacerda, talento que prestigiou o País pela Europa e pela América.

(Os Açores vão candidatar as fajãs de São Jorge a Reserva da Biosfera da UNESCO. Fazem bem e já vão tarde. Tive a sorte de palmilhar as fajãs há coisa de vinte anos, e contei o que vi e senti na revista Tempo Livre (n.º 30, Junho de 1993). Estou a repetir o texto então publicado. Amanhã há mais.)

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