quinta-feira, 6 de março de 2014

Silva Ramos

Astros e lampiões

Nas noites de Veneza, quando a lua nova envolve numa cúpula de luz o zimbório de Santa Maria dela Salute, e as proas recurvas das gôndolas vão cortando o cinto de lhama bordado no azul do Adriático, podem ouvir-se, acompanhados a mandolim, cantos como este:

Amici, la notte é bella,
La luna va spontare;
Di cá, di lá, per la cittá
Andiamo a franottare.


Aqui, nesta Veneza americana, quem quiser divagar, por noites de luar, o instrumento de que se deve munir não é o mandolim, é o apito. E isto porque os legisladores provinciais têm da lua esta elevada compreensão: que ela foi criada com o fim meramente econômico de evitar aos municípios grandes dispêndios de luz, e, em virtude desta idéia conspícua, estabelecem e determinam que a cidade se abstenha de dar-se ao luxo de uma iluminação, em noites de luar.
Mas, meus senhores, é necessário que se atenda a que nesta Veneza não são simplesmente os ais das Desdêmonas que nos podem atravessar o coração, são também as facas das capoeiras que nos podem perfurar os intestinos. Demais, os gondoleiros vogam assim, por noites de lua, porque, como diz a trova, contam que, das janelas:

uma flor caderá á ... á ...

Ora, ninguém nos afiança que seja precisamente uma flor o que nos cairá na cabeça, em uma noite de luar, na rua Direita.
(...)

Silva Ramos

(Silva Ramos nasceu no dia 6 de Março de 1853. Morreu em 1930.)

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