sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Porto, minha Havana à beira-Douro


Foto Hernâni Von Doellinger

Quando um jornalista estrangeiro dá um peido sobre Portugal num sítio qualquer - sentado num penico ou sentado exactamente num site, como dizem os camones -, Portugal cora e pede desculpa. O penico ecoa e o sítio também - a nossa vergonha é imensa, embora o cu seja alheio.
Terá vindo ao Porto um tal de Nigel Cassidy, parece que por conta do site BBC News Business, e acabou por descobrir a pólvora: o Porto tem lojas fechadas e quarteirões inteiros de casas abandonadas. Pior, muito pior do que isso, há mulheres que lavam a roupa nos tanques das Fontainhas, indesmentível e intolerável sinal de que há gente sem emprego, com contas de energia por pagar e sem meios para substituir a máquina de lavar avariada.
Ora bem. Eu não sei se o senhor Nigel Cassidy percebe alguma coisa de máquinas de lavar avariadas. Se por acaso perceber, agradeço que passe cá por casa, que tenho uma a verter há mais de dez anos. Mas de tanques públicos o alegado repórter não percebe nada, isso digo-lho eu, nem percebe do que são os tanques públicos no Porto e no Norte. E também não percebeu nada do Porto nem de Portugal.
Deu-lhe jeito, ao tal Nigel Cassidy, fazer da cidade do Porto o caso exemplar "da crise que assola o País", como muito bem explica o nosso jornal Público, que também nunca perde pitada destas merdas em inglês. Deu jeito ao bife e deu jeito aos seus xerpas canhotos, mas estão todos tão enganados.
O Porto não começou a ser o buraco negro que é por causa "do programa de ajustamento imposto pelo resgate financeiro de Portugal". A cidade do Porto não desapareceu de repente há dois anos e meio, num estalar de dedos da troika. Não. O Porto abandonou-se, mudou-se para Lisboa há décadas e o pobre Porto que ficou para trás teve Rui Rio durante doze anos. Queriam agora o quê?
Esta gente fala da "crise" como quem fala de folclore. Deixem-me rir, ó Nigel e arquitectos militantes, mas esta história não é vossa. Quando quiserem falar da crise, perguntem a quem sabe, a quem se lava no tanque. O Porto é uma "Detroit europeia", uma "mini-Havana", é o que dizem? Melhor para mim, que não tenho dinheiro para ir para fora.

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