quarta-feira, 2 de outubro de 2013

José Cardoso Pires

São Vicente, para ser São Vicente e entrar na História como entrou, teve necessidade de dois corvos para o acompanhar que, por sinal, lhe foram sempre fiéis até hoje. Ora, duma ave como esta, tão convivente e tão enigmática, conta-se muita coisa. A própria Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, depois de muitos rodeios, afirma que o corvo é velhaco e ladrão, e isto, bem entendido, com a devida consideração pela agudeza e pela independência no trato que toda a gente lhe reconhece.
"Caguei para a Enciclopédia", diz o Corvo. E para comprovar alça a cauda e, zás, despede um esguicho de caca esbranquiçada. Caca esbranquiçada numa criatura tão negra é que ninguém esperava.
O corvo em questão chama-se Vicente. Puseram-lhe um nome de santo, que mais quer ele, mas nem assim se mostra lá muito reconhecido. Pertence a uma das últimas tascas de Lisboa, daquelas que antigamente, além do vinho, vendiam também carvão, pitrol e molhinhos de carqueja, mas isso foi há muitos anos, na idade do fogareiro e do candeeiro de chaminé, e nessa altura ainda ele não era nascido. Ou talvez fosse, com os corvos nunca se sabe. Há quem afirme que chegam a durar eternidades.
Na porta ao lado da tasca estabeleceu-se há muito tempo uma mulher que vende ovos e criação, sentada numa cadeira de balouço. O Corvo conhece-a, por acaso até a visita. Diz-se que matou o marido com gemadas envenenadas, se é que ela alguma vez teve marido, mas de concreto o que se sabe e está à vista é que passa os dias amarrada à cadeira a fazer malha com um certo ar irado. Parece uma gata gorda de bigodes assanhados, uma bichana doméstica que preenche o tempo a dar à agulha e a contar um dois três laça, um dois três mate, para se esquecer de outros tempos. Mas isso não passa de aparência porque, coitada, o que a consome é aquele coração que Deus lhe deu, um coração tão grande e universal que não lhe cabe no corpo. Daí estar sempre no cadeirão a balouçar, a balouçar, como se procurasse dar ar ao peito ou, então, como se tomasse balanço para se projectar pelos ares, rumo a Deus Nosso Senhor.
Nas suas voltas diárias o Corvo nunca se esquece de ir cumprimentar a galinheira que o trata sempre com grande estima, oferecendo-lhe pedaços de tripa e outros desperdícios das aves que estão penduradas no tecto. "Olá, freguês", cumprimenta-o ela, assim que o vê saltitar no degrau da porta.
Dão-se muito bem, sempre se deram muito bem um com o outro. Dum modo geral a galinheira recebe-o com um sorriso e muda logo para o trágico, levando a mão ao peito e voltando os olhos para o céu: "Sabes, vizinho, este meu coração..." Com isto quer dizer muita coisa, o Corvo sabe. Angina de peito, tonturas, medicações. O Corvo sabe, o Corvo sabe. Faltas de ar, também. Um dois três mate, um dois três laça, ultimamente as faltas de ar têm sido constantes, e a infeliz balança no cadeirão verdadeiramente angustiada. O Corvo, ouvindo-a sempre com a maior atenção, remata toda as vezes da mesma maneira: "Deixe lá, vizinha, deixe lá, que mais dia menos dia todos os males da gente têm fim", e ela então deixa descair os bigodes e perde-se, resignada, a olhar através da porta o Largo das Freiras Descalças que lhe fica mesmo em frente.

"A República dos Corvos", José Cardoso Pires

(José Cardoso Pires nasceu no dia 2 de Outubro de 1925. Morreu em 1998.)

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