segunda-feira, 3 de junho de 2013

José Lins do Rego

A velha Sinhazinha não gostava de ninguém. Tinha umas preferências temporárias por certas pessoas a quem passava a fazer gentilezas com presentes e generosidades. Isto somente para fazer raiva aos outros. Depois mudava. E vivia assim, de uns para outros, sem que ninguém gostasse dela e sem gostar direito de ninguém. De mim nunca se aproximou. E eu mesmo fugia, sempre que podia, da sua proximidade. Mas a propósito de nada, lá vinha com beliscões e cocorotes. Trancava na despensa as frutas, andava com a chave do guarda-comidas no cós da saia, para contrariar as nossas gulodices e fazer raiva à gente adulta da casa. A tia Maria roubava para nós os sapotis e as mangas que a velha deixava em montão apodrecer.
O meu ódio por ela crescia dia a dia. Numa ocasião, quando eu jogava o pião na calçada, o brinquedo foi cair em cima do seu pé. A velha levantou-se como uma fúria direita a mim, e com o seu chinelo de couro encheu-me o corpo de palmadas terríveis. Bateu-me como se desse num cachorro, trincando os dentes de raiva. E se não fosse a tia Maria, que me acudiu, ela ter-me-ia despedaçado. Eu nunca tinha apanhado. Minha mãe, quando queria repreender-me por qualquer malfeito, punha-me de castigo em pé ou sentado num lugar. Esta surra fora a primeira da minha vida. Chorei como um desenganado a tarde inteira, mais de vergonha que pelas pancadas. Não houve agrado que me fizesse calar. E quando a negra Luísa, passando, me disse baixinho: "Ela só faz isto porque você não tem mãe", parece que a minha dor chegou ao extremo, porque foi quando chorei de verdade.

"Menino de Engenho", José Lins do Rego

(José Lins do Rego nasceu no dia 3 de Junho de 1901. Morreu em 1957.)

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