quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Organizem-se!

Passos Coelho recebeu hoje a TVI. Era um entrevista. Durante a qual o alegado primeiro-ministro relegou oficialmente Paulo Portas, o líder do partido parceiro de coligação, para a terceira posição do Governo. Por mais do que uma vez, Passos disse que o seu número dois é Vítor Gaspar, o incompetentíssimo ministro das Finanças. Mas não é. O Gaspar de Bruxelas é que é o número um do Governo. O número um, para mal dos nossos pecados. E o Passos é um mero chegamisso do Gaspar. Passos é um lamentável número de circo. Uma aberração. Não sabe sequer contar até três. E por causa destes gajos nunca acertarem com os números (nem sequer com os números uns dos outros) é que o Portugal do rés-do-chão está feito num oito.

Outra coisa: se o Portas vai engolir mais esta? Por acaso acho que não. Em Paulo Portas, o patriotismo tem o seu lugar, mas a vaidade ocupa um quarteirão.

Histórias da Guerra Colonial 2

Jaime Froufe Andrade ataca com mais uma tertúlia sobre a Guerra Colonial. Desta vez num mano a mano com o cartunista, ilustrador, actor, escritor e tudo Onofre Varela. O encontro está marcado para depois de amanhã, sexta-feira, pelas 21h30, no Centro Republicano e Democrático de Fânzeres (Gondomar). Sob o lema "Venha ouvir e conte a sua experiência", vai ser assim, pegando nas insubstituíveis palavras do Froufe:
"O enorme Onofre Varela (o tal "Salvador Daqui"), na sua pele de ex-combatente, irá contar uma história do "outro mundo" vivida por ele próprio, em Angola. Eu, como dessa não posso fugir, contarei a história do rádio e outras se, entretanto, não me cortarem o pio...
Quem não conhece pode aproveitar para, pelo menos, ficar a conhecer uma centenária agremiação, o Centro Republicano e Democrático de Fânzeres (Gondomar).
Entretanto, um aviso à nação portista: a sessão está marcada para as 21h30, mas se calhar (digo eu...) só começará após o Braga-Porto, que aliás pode ser "degustado" na própria sede do Centro Republicano e Democrático de Fânzeres."

Eu também acho que as chiclas estão caras

Conta o jornal Público: para atestar "o iminente colapso das farmácias", um farmacêutico de Guimarães mandou para a troika um "medicamento mais barato que pastilha elástica". Tem razão no protesto o "humilde" porém arguto boticário vimaranense - nada justifica que a pastilha elástica seja tão cara.

Augusto Fera (1939-2012)

Foto JESUS MARTINHO

Morreu o poeta Augusto Fera. A notícia chega-me através do blogue Sala de Visitas do Minho, de Artur Coimbra.

(Ler mais em Fafe e a morte do poeta Augusto Fera)

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Foto Hernâni Von Doellinger

terça-feira, 27 de novembro de 2012

De volta à casa de partida

Foto Hernâni Von Doellinger

Em Portugal há 450 mil casas sobrelotadas e 2,5 milhões de casas subaproveitadas. Há mais de 735 mil casas vazias, umas caindo de velhas, outras ainda por estrear. Em Portugal há cada vez mais portugueses sem dinheiro para pagarem ao banco a prestação da casa. Os portugueses devolvem a casa ao banco, sem ondas e sem suicídios. Em Portugal não há dinheiro. E há cada vez mais portugueses morando no olho da rua. O subsídio por morte também não compensa. O BES anda na China, na Rússia e no Brasil a vender as casas devolvidas em Portugal. E a Caixa Geral de Depósitos prontifica-se a pagar os impostos da transacção a quem lhe comprar casas devolvidas.
O meu banco manda-me mensagens para o telemóvel, assediando-me com a oferta de casas ao preço da uva mijona. São casas devolvidas por portugueses à rasca como eu. As casas que eram de pessoas vão a leilão. E eu sinto-me insultado com as SMS que me convidam a ser cúmplice no aproveitamento da desgraça alheia. Logo à primeira fui imediatamente ao balcão protestar o meu incómodo e exigir que a coisa acabasse ali. Que "Sim, senhor, tem toda a razão, vamos já tratar do assunto", foi o que diligentemente me responderam. E as mensagens continuam.
Também comprei casa, no meu tempo. Fui chulado durante 25 anos e sei de que lado estou. Não devo nada ao banco, não devo nada a ninguém. Decerto por causa disto é que o banco cuida que eu agora sou um dos seus. Não sou. Sou um dos outros.

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Foto Hernâni Von Doellinger

sábado, 24 de novembro de 2012

O escrete precisa de um treinador português

O treinador Mano Menezes foi despedido da selecção brasileira. O substituto deverá ser anunciado no início de Janeiro e entre os principais candidatos ao lugar parece que estão Muricy Ramalho (técnico do Santos), Tite (do Corinthians) e Luiz Felipe Scolari (sem clube, depois de ter mandado o Palmeiras para a segunda divisão).
Mas do que é que o Brasil está à espera para contratar um treinador português? Não percebo a hesitação. Os brasileiros são os melhores jogadores do mundo? Também os portugueses são os melhores treinadores do mundo, como Jorge Jesus ainda ontem voltou a dizer.
É certo que, quando assim fala, o míster do Benfica é para o espelho que olha, e nem é bem ele a falar, é apenas o umbigo, are you talking to me?, you talking to me? Mas o umbigo de Jesus não deixa de ter razão. E o Brasil só ganhava se se deixasse descobrir de novo.

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Foto Hernâni Von Doellinger

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

O que fazer com este presépio?

Joseph Ratzinger, 85 anos, escangalhou o presépio. Tirou a vaca e o burro, porque - diz o Papa - no local do nascimento de Jesus "não havia animais". Portanto também não havia ovelhinhas, o que quer dizer que também não houve pastorinhos do deserto. Sobram, isso sim, os três reis magos. Gente fina, vinho de outra pipa. Reis. E magos (porque o champanhe ainda não tinha sido inventado). Esses, é certo, estiverem lá, em representação de toda a humanidade - segundo Bento XVI. Estiveram os reis magos e os anjos cantadores.
Eu por acaso até era mais dado a acreditar no burro e na vaca do que na mirabolante história de Gaspar, Melchior e Baltasar, uma boa linha média para quem jogue em 4-3-3, mas que se há-de fazer? Mais de dois mil anos a aquecerem o Menino com os respectivos bafos e é este o pagamento que o burrinho e a vaquinha recebem.
Sempre atento às verdadeiras e mais urgentes necessidades do mundo e da cristandade, Ratzinger resolveu escangalhar o presépio. Está no seu direito. Mas no meu não mexe!

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Foto Hernâni Von Doellinger

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Cavaco Silva faz mea culpa

No seu tempo de primeiro-ministro - dez anos, entre 1985 e 1995 -, Aníbal Cavaco Silva desmantelou a nossa frota pesqueira, promoveu o abandono da nossa agricultura e escangalhou a nossa indústria - tudo arrasado a troco e mando dos milhões de milhões enviados pela então CEE para torrar em alcatrão e cimento. Agora que é Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva apela aos portugueses para que "ultrapassem estigmas" e voltem a olhar para os sectores de que "se afastaram" e "esqueceram nas últimas décadas": exactamente, "o mar, a agricultura e até a indústria". É preciso ter lata!

As castanhas são como o próprio nome indica

                                                             Foto Hernâni Von Doellinger

As castanhas. As castanhas têm pouco que se lhes diga. Chamam-se castanhas por causa da própria cor, acho eu, e estão a dois euros se forem 15 e a cinco euros se forem 40 - preços à saída do assador. As castanhas fazem-me gases e há cinco qualidades de castanhas: castanhas cruas, que sabem a infância e a dor de barriga, castanhas cozidas, que precisam de saber a funcho, castanhas piladas, que são uma pouca-vergonha, castanhas assadas, que são quentes e boas, e castanhas com bicho, que são uma merda. No Verão, as castanhas são tremoços.
As castanhas vêm dos ouriços, que antigamente tinham a mania de cair em cima das cabeças das pessoas. Os ouriços de Fafe eram os piores. Havia um castanheiro nas traseiras do tasco do senhor Augusto Paredes, encostado ao muro, mesmo em frente ao Palacete, e os ouriços caíam na rua como tordos. Mas esperavam por mim, matreiros e organizados, para me desabarem aos pares ou num indecente mènage à trois mesmo em cheio no cocuruto. E eu sem capacete. Era um cristo.
Para além dos filhos da puta dos ouriços e das castanhas que servem para a nossa alimentação, os castanheiros davam também uma tirinhas muito jeitosas para se fazerem grinaldas e óculos de brincar. Os castanheiros podem ter mais de mil anos, mas o do quintal do Paredes não. O quintal do Paredes era também o quintal do senhor Jerónimo Barbeiro e do senhor Lopes Agulheiro. O castanheiro do Paredes agora é um prédio de rés-do-chão e quatro andares. Mesmo em frente, centenário e ainda elegante e digno, agora é o Palacete que cai. Cai aos bocados, desgostoso com o abandono e a ignorância adjacente.
Derivado às castanhas existem também as castanhadas e as castanholas. As castanhadas quem as sabe explicar melhor é o Luisão do Benfica. E as castanholas fazem um papelão nas mãos de Lucero Tena.
Eu gosto muito de castanhas. E afinal as castanhas têm bastante que se lhes diga.

domingo, 18 de novembro de 2012

Ziguezagueador às sextas, repetitivo aos domingos

Luís Menezes, filho primogénito de Luís Filipe Menezes e vice-presidente da bancada do PSD na Assembleia da República, acusou António José Seguro de andar num "ziguezague permanente", criticando-o por mudar de posição sobre o memorando de ajuda externa todos os dias. Isto foi na sexta-feira.
Virgílio Macedo, deputado e presidente da distrital do PSD/Porto, acusou António José Seguro de ser "irresponsável" e criticou o "discurso demagógico e cansativamente repetitivo" do líder do PS. Isto foi hoje.
Seguro faz, portanto, o pleno: é um troca-tintas e toca sempre na mesma tecla. Ainda bem que o PSD fala assim afinadinho: senão, como é que nós íamos perceber? 

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Foto Hernâni Von Doellinger

sábado, 17 de novembro de 2012

O nosso especialista em assuntos internacionais

Aníbal Cavaco Silva, o Presidente da República que não tuge nem muge acerca de Portugal, foi ao estrangeiro comprar caramelos e aproveitou para explicar o mundo. O fenómeno aconteceu em Cádis, Sul de Espanha, a 330 quilómetros de Badajoz - por estrada. Em linha recta, sentido que o de Boliqueime não pratica, seriam 268,2 quilómetros.

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Foto Hernâni Von Doellinger

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Não era bem isto, mas também serve

Juro combater e erradicar esta "chaga", este "flagelo da nossa sociedade", disse o governante, solene e definitivo, comprometendo-se a uma "luta sem tréguas" para proteger os cidadãos, sobretudo "os jovens e trabalhadores". E acrescentou: "Temos de informar, temos de desincentivar, temos de criar mecanismos que conduzam as pessoas a abandonar este hábito".
E de que falava o nosso providente governante? Que chaga nos quer ele sarar? De que flagelo nos vai ele livrar? Será da pobreza galopante? Da fome cada vez para mais? Do desemprego generalizado? Da troika? Da Angela Merkel? Da austeridade amoral? Da corrupção política? Da política da corrupção? Da pedofilia? Dos atrasos na justiça? Dos atrasos nas consultas? Dos atrasos de vida? Do António José Seguro? Dos subsídios imoralmente pagos aos mil e quinhentos boys do PSD? Do analfabetismo? Do insucesso escolar? Dos falsos cursos universitários? Da violência doméstica? Do aborto clandestino? Do excesso de velocidade? Do liberalismo à Lagardère?
Não. O governante, ungido e obstinado, referia-se ao "tabagismo". Também está bem.

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Foto Hernâni Von Doellinger

Está tudo bem, só falta explicar

A Igreja Católica pediu ontem ao Governo que explique melhor as medidas de austeridade. Na resposta, o Governo pediu à Igreja Católica que explique melhor o que quer dizer quando pede ao Governo que explique melhor as medidas de austeridade.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

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Foto Hernâni Von Doellinger

Requiem por um quase craque

Foto blogue OS CARROS DOS JOGADORES DE FUTEBOL

O jogador de futebol Ricardo Quaresma, 29 anos, bateu ontem num polícia. Foi detido e vai hoje a tribunal. Há cerca de três semanas, Quaresma foi acusado de "urinar nos balneários" e "exibir os genitais" a uma funcionária do Besiktas, clube turco com o qual mantém contrato. Quaresma não está inscrito para jogar e treina à parte. É uma guerra que já vem da época passada. Quaresma não joga e dá pontapés na vida.
Ricardo Quaresma é um produto da excelentíssima escola do Sporting. Passou pelo Barcelona sem que se tivesse notado e regressou ao nosso país ainda a tempo de se fazer jogador a sério e decisivo no FC Porto, onde, em quatro épocas, ganhou três campeonatos, uma Taça de Portugal, uma Supertaça e uma Taça Intercontinental. Foi Futebolista Português do Ano em 2005 e 2006 e Personalidade Portuguesa do Ano em 2007. Brilhou. Brilhou tanto que o estrangeiro voltou a chamar por ele - mas a partir daqui a sua carreira foi sempre a descer (embora até pudesse parecer que era sempre a subir). Falhou no Inter de José Mourinho, falhou no Chelsea de Luiz Felipe Scolari, falhou novamente em Milão e depois rumou à Turquia e é o que se sabe. Recebido em apoteose em Istambul, teve um início empolgante nos campos turcos, para logo se embrulhar numa série de conflitos internos que lhe foram apagando a aura. Nos jornais, as notícias sobre Quaresma continuavam a sair nas secções erradas.
Quaresma prometeu muito. Há quem diga que prometeu tanto como Cristiano Ronaldo, e parece-me que essa comparação (em que ele sempre acreditou) é que lhe terá sido fatal. Eu ainda acredito em Ricardo Quaresma. A verdade é que o Mustang tem quase tudo para ser um verdadeiro craque da bola: tatuagens, brincos e anéis, cortes de cabelo idiotas, muito dinheiro, gajas boas, grandes carros e alguns comportamentos geralmente imperdoáveis em pessoas que não sejam jogadores de futebol. O que lhe falta, então? Talvez juízo. E já tem idadinha.

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Foto Hernâni Von Doellinger

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Isaltino Morais, sempre um passo à frente

Isaltino Morais, o meu herói, foi ao Gabão com a Selecção. Rima e é verdade, embora possa parecer piada. Mas nada de pânico. O presidente da Câmara de Oeiras, que anda há que tempos a brincar ao esconde-esconde com a justiça e com a cadeia, não fugiu. Ainda não fugiu. Em comunicado, o autarca esclarece que se deslocou àquela parte do mundo em busca de novos mercados. Exactamente. A Suíça já deu o que tinha a dar.

Às vezes o Natal

A desavergonhada da Popota já por aí anda a dar na televisão. E a Leopoldina, cada vez mais homem, também já passeia nas portas traseiras dos táxis. Palavra de honra: às vezes o Natal mete-me uma raiva...

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Foto Hernâni Von Doellinger

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Afinal havia outro

Foto MÉDIFAFE

O médico Raul Cunha é o candidato do PS à Câmara de Fafe nas eleições autárquicas do próximo ano. A informação acaba de sair no blogue Jornal de Fafe. Portanto, nem Laurentino nem Antero - assim decidiu Salomão. Quero dizer: José Ribeiro.
Quanto ao Dr. Raul propriamente dito, caso vá mesmo com isto para a frente, não lhe faria mal nenhum se começasse por passar pelo fotógrafo.

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Foto Hernâni Von Doellinger

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Portugal, um buraco muito arranjadinho

Foto Hernâni Von Doellinger

Angela Merkel diz que Portugal está a cumprir "de forma excelente" o chamado programa de ajustamento ou memorando. Ainda bem que a nossa crise está a correr assim tão bem; só é pena que esteja a correr assim tão mal. Depende do lado da crise em que estamos. Para quem está do lado de baixo, como eu, isto é um buraco sem fundo, não há nada que encaixe. Para quem está do lado de cima, Portugal é um buraco, sim senhor, mas muito jeitoso para obrar e entretém. Dá para fazer puzzle.

Finalmente excêntrico

Saiu-me o Euromilhões. Vou alugar uma limusina e convidar os meus amigos para uma almoçarada aí pelo fim do mundo. Dezoito euros e quarenta e dois cêntimos darão para ir até onde?

A falsa visita de Angela Merkel a Portugal

Primeiro: Angela Merkel não vem a Portugal. A Senhora Dona Angela visita Lisboa.
Segundo: Angela Merkel não visita Lisboa. Vai por lá andar cinco horas, sem sequer ir a Lisboa.
Terceiro: em cinco horas, Angela Merkel vai encontrar-se com Cavaco Silva em Belém, almoçar com Pedro Passos Coelho e Paulo Portas no Forte de São Julião da Barra, dá uma conferência de imprensa de meia hora e quatro perguntas, posa para a fotografia de família (família?) no Centro Cultural de Belém, onde também fala a empresários alemães e portugueses, e diz Marcelo que ainda poderá conceder uma palavrinha a António José Seguro.
Quarto: Marcelo Rebelo de Sousa, que não quer que se pense que já é menos do que Marques Mendes, preopina que o eventual passa-bem entre Merkel e o líder do PS apenas demonstraria que a chanceler alemã vem disposta a perceber o que se passa realmente em Portugal.
Quinto: em cinco horas? A falar com o Cavaco, com o Passos, com o Portas e eventualmente com o Tozé? A Merkel perceber o que se passa realmente em Portugal? Dentro do carro blindado e sem me perguntar nada a mim? O Professor é um pândego.

domingo, 11 de novembro de 2012

Carapau assado entre couves

                                                                                       Foto Hernâni Von Doellinger

Ora aqui fica uma excelentíssima alternativa ao escandaloso bife de todos os dias. Carapau na brasa. O "entre couves", que fui eu que inventei, creio que até confere um certo toque de nouvelle cuisine e classe ao prato tradicional. O carapau médio estava a dois euros o quilo na passada sexta-feira e dá para um regimento. O bife, há que tempos que não sei a como está. Para melhor informação, é favor perguntar à Senhora Dona Maria Isabel Torres Baptista Parreira Jonet.

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Foto Hernâni Von Doellinger

sábado, 10 de novembro de 2012

Portugal quase 2013: de volta à fressura

Há pelo menos uma grande superficie do Porto que está a vender fressura às pessoas como se fosse para dar de comer aos cães. Mas é para a mesa das pessoas. As pessoas andam com fome e pedem a fressura. Nas lojas de congelados, as cabeças de pescada foram cortadas ao meio e as caras de bacalhau saem como pãezinhos quentes. As pessoas, que andam com fome e nunca na vida cozinharam (e não sabem cozinhar), agora olham para umas postas esquisitas, perguntam "que peixe é este?, é bom para quê?", os funcionários dos frigoríficos fazem o papel respectivo, inventam no momento um nome qualquer para o peixe e dizem que "é bom para o forno, para fritar, para a brasa, para estufar, para caldeirada, é bom, muito bom", e o peixe é um merda mas as pessoas querem acreditar que é bom, muito bom, porque é multifunções e muito mais barato do que o peixe a sério e estão com fome. E levam. E são levadas. E está bem: o polvo e as lulas agora são potas. Filhos da puta que nos puseram assim. Nos talhos, o fígado para iscas e os ossos da suã são hits nacionais. Os pescoços de frango também e as asas é um ar que se lhes dá. As pessoas estão sem dinheiro e têm fome. As pessoas não têm emprego e as que têm trabalham para pagar impostos.
A ver se me faço compreender: sempre fui praticante de asas e pescoços de frango, de ossos da suã, de iscas de fígado, de caras de bacalhau e de cabeça de pescada, se for inteira. Fui e sou. Sei dar-lhes o valor e as voltas: cá em casa são petiscos. Ainda não necessidade. À fressura (deixem-se lá de malícias) é que nunca mais tornei.
E em miúdo até era eu quem ia ao Talho, a mando da minha mãe, comprar "um quarto de fresura" para a massa do almoço, "se faz favor". Só havia um talho na vila, e por isso era com maiúscula, e não há uma mãe como a minha. Se acham que é lugar-comum, isto da minha mãe, estão redondamente enganados. Perguntem em Fafe, chama-se Alexandrina e vão ficar admirados. Mas a minha mãe hei-de contá-la como deve ser mais lá para diante.
Já sabem que éramos pobres. Comíamos "fresura" porque era o mais em conta que havia aparentado com carne para comermos à semana. Eu aprendi a gostar e gostava sobretudo do rinca-rinca do cano. Já a parte do bofe fazia-me uma certa impressão e ainda hoje sou contra as chiclas. Ao domingo comíamos bife, é preciso que se note, porque a minha mãe tinha artes de ilusionista, truques de economia. A minha mãe fazia comida muito boa e devia ser ministra das Finanças.

A minha mãe passou por muito e diz que o 25 de Abril foi o melhor que aconteceu em Portugal. Isso e os títulos do FC Porto. A minha mãe não admite marcha-atrás. "Pobreza era no tempo do fascismo", diz a minha mãe, e os títulos do Benfica também eram. Mas, ó mãe, deixe lá o relato só por um bocadinho: estamos de volta à "fresura"?

(Escrevi e publiquei este texto no passado dia 20 de Outubro. Repito-o hoje, para informação da Senhora Dona Maria Isabel Torres Baptista Parreira Jonet.)

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Foto Hernâni Von Doellinger

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Todos são inocentes

O motorista Carlos Silvino, que anda agora a tomar uns comprimidos contra uns comprimidos que lhe deram, diz que todos os arguidos do processo Casa Pia estão inocentes. Obviamente.

Em defesa da Senhora Dona Isabel Jonet

A verdade é esta: tenho andado a escrever acima das minhas possibilidades. E entro hoje mesmo em regime de poupança. Sobre o que penso a respeito da pobreza e dos pobres em Portugal e do que pensa, diz e faz este Governo ignorante e cínico a respeito da pobreza e dos pobres em Portugal, já escrevi aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
Outra coisa: as televisivas declarações da Senhora Dona Maria Isabel Torres Baptista Parreira Jonet a respeito da pobreza e dos pobres em Portugal foram apenas uma parvoíce. Nada que justifique a histérica lapidação que por aí vai. Mas é o que eu digo: as parvoíces são como as cerejas. Temos é de nos habituar a comer só os caroços. E apenas aos domingos.

Laurentino Dias e Lili Lopes: Fafe em grande

Foto DSANTOS

Parece que Laurentino Dias vai ser o candidato do PS à Câmara de Fafe. É uma excelente escolha. Um escolha em grande.
E Lili Lopes vai ser capa da revista J do próximo domingo. Parece que a jovem modelo fafense disse que admira a "humildade de Ronaldo". A humildade de Ronaldo? A humildade? Ok, esqueçamos que a nossa Lili fala e concentremo-nos na capa, que é muda e praticamente a preto e branco. Uma grande capa, não é? 

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Foto Hernâni Von Doellinger

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

O país dos hotéis de luxo

Foto Hernâni Von Doellinger

Portugal tem dois dos melhores hotéis do mundo. Um deles é o melhor hotel da Península Ibérica. O melhor pequeno hotel de luxo da Europa é em Lisboa. Em Portugal há mais de 40 hotéis de luxo.
Há também quase três milhões de pobres, um milhão e meio de desempregados e milhares de sem-abrigo. É a vida. É a vida?

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Foto Hernâni Von Doellinger

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

O Largo do Rato e o saco de gatos 2

Foto Hernâni Von Doellinger
Guilherme Pinto diz que está disponível para se recandidatar à Câmara de Matosinhos, mas recusa submeter-se a eleições primárias no previsto mano a mano com António Parada, o presidente de junta para quem tem perdido todas as disputas no PS local. Parada já está no terreno. Pinto afirma que não quer "reeditar o clima que se viveu há cerca de uma década" e que tanto "envergonhou" o partido. Falava decerto da lota e da tragédia de Sousa Franco. Foi em 2004. A conclusão, então, é só uma: se o Largo do Rato impuser as primárias, o actual presidente de câmara sai calmamente de cena - para evitar cenas -, estendendo a passadeira vermelha ao outro candidato a candidato socialista e seu particular inimigo. A coisa ver ser assim tão pacífica, desta vez? Suspeito que não, infelizmente. Aqui é Matosinhos. E isto é o PS.

A morte chega pela caixa do correio

Um folheto que me foi metido na caixa do correio convida-me a escolher "um Plano Funerário adequado". Adequado a quê e para quem?, se conto estar morto quando for o meu funeral e quero lá saber de mordomias póstumas. Diz que há um "Plano Magno", praticamente como o gelado, um "Plano Essencial", que não faz bem nem mal, e um "Plano Popular", como o partido do Paulo Portas. Em qualquer dos casos, são garantidos "serviço personalizado a partir de 995 euros" e uma vasta "experiência", o que também deixa muito mais descansado o defunto mais exigente.
A caixa do correio mete-me medo. Não tanto pelas contas da luz, da água ou do condomínio (embora, rústico que continuo a ser, pagar condomínio ainda me faça uma certa confusão), mas mais pelos avisos das Finanças e do Tribunal. Ainda por cima é uma galdéria, a minha caixa do correio, escarrapacha-se a todos, até aos da pior espécie: aos que perguntam pelo meu ouro e eu não os conheço de lado nenhum, aos que me pedem o meu voto e não me conhecem de lado nenhum e agora até aos que me querem vender a minha morte como se soubessem alguma coisa da minha vida que eu não sei.
Vamos lá com calma. Eu sei que ninguém fica cá para a semente e que se alguém ficar sou eu (mas não é isto que interessa). Sei que provavelmente já por cá andei mais tempo do que ainda vou andar. Mas, francamente, a vida é tão boa e dá-me tantas consumições que tenho mais que fazer do que pensar na morte, do que organizar a minha morte. Quando eu morrer (se morrer), logo se verá. Eu é que já não. Essa é a herança que deixo de bom grado a quem me sobreviver. Se alguém houver.

Por outro lado: a ofensiva cangalheira aguçou a minha curiosidade. Esse é o truque do marketing, mesmo do marketing de trazer por casa. Porta a porta. Admito que estou a pensar pedir um orçamento para a minha morte. Seduziu-me aquela coisa da "Medalha Impressão Digital", que não sei o que é, mas deve ser muito bom para o morto. E também quero que me expliquem muito bem explicadinho o "Contrato de Funeral em Vida". Isso é legal? Funeral em vida?

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Os gordos de Lisboa

Três em cada dez lisboetas são obesos. Apontada como a epidemia da século XXI, a obesidade afecta 32 por cento dos habitantes da capital, enquanto 37 por cento estão em situação de pré-obesidade. Os números fazem parte de um estudo realizado no âmbito do programa Saúde Mais Próxima.
Conclusão: os lisboetas querem ser turistas. Enquanto não têm dinheiro, vão ganhando cu. E já não lhes falta tudo.
Hoje também se soube que os albergues nocturnos do Porto estão lotados e são procurados por cada vez mais pessoas que precisam de matar a fome. Claro que estas duas notícias não são propriamente o contraponto jornalístico ou o contraditório político uma da outra - mas que há aqui carradas de ironia, ai isso há.

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domingo, 4 de novembro de 2012

Elogio ao génio humano

                                                                                      Foto Hernâni Von Doellinger

Ontem estacionou-me ali em baixo o Arcadia. São 285 metros de navio para 1.948 passageiros. Os cruzeiros que me batem à porta têm-me dado que pensar, suscitam-me reflexões de pequena e média profundidade que aqui humildemente partilho com os meus queridos leitores. E ontem vieram-me à cabeça os cus. Os cus que os cruzeiros descarregam.
Cu de turista não é brincadeira, já repararam? É cu de bitola larga e se for cu americano então ocupa o mundo inteiro. Menos a Alemanha. Até parece que para se ser turista - turista encartado - é preciso ter um cu daqueles. E o cu alemão também para lá caminha, não quer ficar atrás. O que diz tudo a respeito de um cu.
Imagino que sejam muito ricos os camones com que me cruzo nas bordas do Porto de Leixões - eles a saírem todos cheios de good morning e eu, de passagem, "desculpem lá a shit de dog na sola da sandália, é good luck, com os cumprimentos do mayor". Tão turistas e tão prendados de cu, têm que ser muito ricos. Engordam e viajam porque podem. Se calhar até têm ordenados, subsídios e reformas.
Chegam e parece-me sempre um congresso de cus. Toneladas e toneladas de bagagem extra em traseiros colossais e gingões mesmo à frente do meu nariz. Confesso: é um espectáculo que não pára de maravilhar-me. Olho para os cus e olho para o barco, e só me apetece elogiar o génio humano, os avanços da ciência, os milagres da indústria, a arte e o engenho dos modernos fazedores de navios, supremos desafiadores das leis da física. Fascina-me aquilo que não consigo compreender. Para os cus e para o barco, olho e penso: com tanto badocha ali metido, como é que aquela merda se aguenta?

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Foto Hernâni Von Doellinger

sábado, 3 de novembro de 2012

A bem da saúde pública

Jornais e revistas com fotografias de Pedro Passos Coelho e Vítor Gaspar vão deixar de estar à vista nas escolas.
Quanto aos queques, às gomas, aos pastéis de nata, aos bolos de arroz, aos croissants ou bolachas maria, que também desaparecem dos escaparates, cá está o Governo a cumprir aquilo que prometeu - cortar as gorduras do Estado. E é de pequenino que se começa.

E agora uma coisa completamente diferente

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sexta-feira, 2 de novembro de 2012

A política fica mais pobre

A Senhora Dona Fátima Felgueiras informou o País de que não será candidata às próximas eleições autárquicas. Não sente "a mínima motivação". Está desconsolada "com a falta de nível a que a política chegou". E é uma pena. A Senhora Dona Fátima Felgueiras faz muita falta à política que temos.

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Foto Hernâni Von Doellinger

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

O FMI já está em Portugal? Parece impossível!

O Partido Socialista encheu-se de "indignação" depois de ter ouvido dizer que o FMI anda a reunir com o alegado Governo de Portugal para arrasar com as "funções sociais do Estado". O corno é sempre o último a saber, mas só se, para além de gostar de ser corno, for também parvo. O PS está assim. Falso corno e lerdo. Este PS nunca foi a Lisboa e nunca viu o mar.

Ora batatas, senhores deputados

A farsa da "discussão" do Orçamento de Estado para 2013 terminou, graças a Deus. Como combinado, a coisa foi aprovada na generalidade - o que, parecendo que não quer dizer nada, significa que nos foderam mais uma vez. Olho raramente e por acaso para as bancadas do "Parlamento" e o que vejo é uma mal amanhada orquestra de analfabetos musicais que lá se vão desunhando e entendendo na técnica do contraponto, ora agora toco eu, ora agora tocas tu, e Portugal é o Titanic. A partitura é da troika.
Na escadaria de São Bento houve protesto popular, insultos aos deputados e intervenção da polícia. Um secretário de Estado chamado Marques Guedes disse que o direito à manifestação deve ser exercido sem violência. Eu digo que o direito à governação deve ser exercido sem violência. E com vaselina, se faz favor.
Relacionado: um relatório internacional revela que as alterações climáticas poderão levar à substituição da batata pela banana. Quer-se dizer: no Natal de daqui a um bocadinho se calhar até já vamos comer bananas cozidas com bacalhau - grande merda. Mas disto não falaram eles na Assembleia. E a mim interessava-me.

Lugares-(in)comuns 14

Foto Hernâni Von Doellinger