quinta-feira, 14 de julho de 2011

Só nos resta o Pai Natal

Desde que desistiu da tv cabo e, passados três meses, teve também que vender o plasma, Quitério anda a pôr-se a pé mais cedo. Quer ser o primeiro a chegar ao café da esquina para arranjar um bom lugar em frente ao televisor, à espera de novidades do FC Porto. Nunca há.
Isto já lá vão mais de dois anos, e o aluguer de cadeira e um quarto de mesa não é de graça. Quitério começou por tomar um cimbalino com cheirinho todas as manhãs, depois passou a tomar um copo de água e agora, para não passar a vergonha dos moinas, toma diariamente uma atitude, que é "ó Verinha, deixe estar, que eu levo-lhe o lixo ao contentor".
Ainda ontem: sem notícias do reino do Dragão, mas animado por mais duas telerreportagens sobre famílias portuguesas falidas (o melhor que há para começar o dia, logo a seguir a uma marretada na cabeça), Quitério lá foi todo contente cumprir a sua humilhação quinzenal, apresentando-se na Junta de Freguesia como desempregado encartado, vivo e não fujão. Esperou na fila, enquanto a funcionária fazia o intervalo que lhe apeteceu para pequeno-almoço, ouviu dos colegas de desemprego mais umas quantas tragédias e uma ou outra trafulhice, chegou a vez dele, outra vez cheio de vergonha e já com o coração aos saltos, assinou sob palavra de honra e cartão do cidadão, recebeu a licença para mais quinze dias de vida e saiu dali cada vez mais cheio de cócegas para atirar com a albarba ao ar.

Quitério tem uma idade que é uma desgraça: 53 anos. Ninguém lhe responde aos anúncios de emprego a que ele responde. Quitério imagina que os miúdos que lhe abrem o currículo riem-se como perdidos antes de o deitarem fora.
O amigo Adérito, bastante mais novo e também em busca de trabalho, tenta consolar Quitério: "Deixa lá isso, pá, já não sei o que é pior: se ninguém nos responder, ou responderem-nos propondo-nos condições abaixo de cão". Pois parece que sim, consta que até já se paga para trabalhar. Será verdade? E o Paulo Portas sabe?

Seja como for, há mais de dois anos que Quitério procura um novo emprego. Todos os dias. E só encontrou um - apenas um - para pessoas com mais de 50 anos: um lugar de Pai Natal em Ovar. Era para as três primeiras semanas do mês de Dezembro do ano passado e exigia-se "residência na zona ou arredores". Quitério morava então na Maia e não conseguiu vender a casa a tempo. Mas este ano é certinho: se o anúncio se repetir, a casa já não será problema. O banco tomou conta, por atraso nas prestações.

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